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CENA 1
Paulo leva o filho Pedro de 6 anos ao shopping.
Educar filhos não é hobby. É atividade fundamental para os pais. Para tal há necessidade de:
a. Ter disponibilidade de tempo, exclusivamente, com o filho (não basta assistir ao Jornal
Nacional, enquanto o filho atua sozinho ao seu lado);
b. Ficar atento ao filho: estar ao lado dele não basta; pode estar a certa distância, mas sob
controle do que ele está fazendo: observando-o e se envolvendo com ele.
c. Minimizar sentimentos de culpa. Como? Fazendo o que precisa ser feito.
d. Escolher – quando isto for possível – atividades que sejam do agrado do pai (ou da mãe).
Fazer com o filho o que gosta torna a interação genuína e gratificante para ambos. Nem sempre, porém, isto é possível. Nesta alternativa a prioridade deve ser o que o filho precisa; não o que você prefere!
E os pais que trabalham fora?, pergunta-se. Essa é uma realidade da sociedade atual. Necessária e irreversível. O tempo que os pais dedicam a compromissos profissionais não impede que reste algum tempo para ser dedicado aos filhos. Ocorrem exemplos, estes sim, preocupantes de pais workholics (inda mais grave quando ambos o são...). Nestes casos, os pais trabalham demais; se ausentam demais. Os filhos não precisam de pais em tempo integral. Nem isso é desejável. Precisam de cuidados em tempo integral quando pequenos, e esse cuidado direto vai progressivamente se esvanecendo. Uma cuidadora de confiança, pessoas da família, escolas bem estruturadas, atividades extracurriculares etc., podem preencher satisfatoriamente lacunas deixadas pelos pais. Desde que estes não desapareçam... mas usem, de forma apropriada, o tempo com os filhos (ah, como são necessários programas de orientação de pais, a fim de ensiná-los a conviver de forma gratificante com seus filhos!... Note que digo “orientação” e não “terapia” para os pais). Adicionalmente os pais que trabalham fora, muitas vezes, se envolvem em várias outras atividades: academia, hobbies, atividades sociais com amigos e colegas de trabalho sem a presença dos filhos. Lazer é fundamental, mas, para os que trabalham, seria prioridade usar o tempo disponível com atividades que incluam os filhos. Eles aprendem a gostar e a participar de atividades prazerosas para os pais. Não os excluam, portanto!
CENA 2
Pedro, tão logo chega, pede um sorvete para Paulo.
Pedro é espontâneo. Busca o que lhe é reforçador... É indicativo de uma criança com boa autoestima (expressa o que quer...); boa autoconfiança (sabe o que fazer para alcançar seus objetivos...) e sente-se livre (vive sob contingências de reforçamento amenas; positivas e negativas). Como tal, sabe fazer escolhas e deixar claro quais são elas.
CENA 3
Paulo diz: – Vamos até a livraria, que chegou o livro que encomendei... Depois vamos até a loja trocar a blusa que sua mãe nos pediu. Daí vamos tomar seu sorvete!
Paulo – atento ao filho e atento a conceitos comportamentais – vê nesta situação a oportunidade de desenvolver tolerância à frustração no filho. E o faz, com naturalidade para o contexto, atrasando o acesso de Pedro ao reforço (sorvete), mas dentro de um limite de frustração tolerável para o filho.
Paulo faz uma coisa a mais: ensina Pedro primeiro a se comportar (expõe duas condições que devem ser atendidas) e, desta forma, produzir, com seus comportamentos, a consequência reforçadora. Assim, dá a Pedro a sensação de poder: “Sei o que tenho que fazer para alcançar o que quero”. Adicionalmente, esta relação entre pai e filho se baseia na confiança: o pai é razoável (não exige demais) naquilo que pede; e deve cumprir o que está sendo combinado!
Note que Pedro deve fazer duas coisas para outras pessoas: o pai e a mãe. Ensina-se, assim, a desenvolver sensibilidade ao outro (terceiro nível de seleção de Skinner). O pai e a mãe, assim como ele, têm necessidades, desejos, preferências etc. e isso deve ser levado em conta nas relações entre pessoas.
CENA 4
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Pedro aguarda o pai, na livraria. Paulo não só pegou o livro que havia encomendado, como aproveitou para folhear outros livros que lhe pareceram interessantes. Pedro esperou pelo pai circulando pelas estantes.
O pai maneja – com critérios moderados – o tempo de atraso do reforço para Pedro (não pode demorar exageradamente...). O objetivo de Paulo é expor Pedro a uma frustração moderada: esperar a disponibilidade do pai para dar-lhe o sorvete. O que se pretende é ensinar Pedro a ser sensível ao outro. Tal sensibilidade inclui: respeitar os interesses, necessidades, prioridades, preferências etc. do outro, pospondo – por algum tempo – seus próprios interesses, necessidades, preferências etc. Esperar por alguma coisa que desejo, não significa perdê-la!
Ao lado disso, a situação é tal que permite a Pedro ter acesso a vários outros reforçadores disponíveis no ambiente. Basta explorá-lo. Pedro apresenta variabilidade comportamental: não fica “grudado” no pai. Anda pela livraria e esse comportamento produz exposição a contatos com pessoas (fontes de reforços sociais generalizados), a objetos (livros, DVDs, jogos etc.) os quais adquirem, aos poucos, valor reforçador. Não é verdade que crianças não gostam de livrarias... depende do que lhes ensinamos nas livrarias!
CENA 5
Enquanto saiam da livraria, Paulo mostrou o livro que comprou para Pedro e comentou sobre o que havia comprado: É um livro sobre a vida de Federer, o meu tenista favorito... Não leio apenas livros profissionais, mas também aqueles que me causam prazer...
Conversar com Pedro sobre o livro é interagir de forma reforçadora com o filho: Pedro recebe total atenção do pai como consequência de tê-lo esperado! Adicionalmente, o pai fala sobre si mesmo (um bom modelo para o filho), em particular sobre o que lhe é reforçador. Desta maneira, o filho começa a conhecer melhor seu pai (um aspecto muito descuidado por nós pais nos tempos atuais), o que pode (ou não) levá-lo a se interessar pelas mesmas coisas que interessam ao pai, o que não significa gostar das coisas que o pai gosta com a mesma paixão. (Note que, ao expor para o filho o que lhe agrada, o pai não deve impor que o filho tenha também que gostar das mesmas coisas...). Um detalhe adicional: o pai explicita que – ao lado do dever – o prazer deve ser um critério a nortear nossos comportamentos e decisões na vida.
CENA 6
Conversam enquanto andam. Paulo pergunta, fala; Pedro pergunta, fala. Nada fica sem resposta. Andam de mãos dadas. Andam lado a lado sem se tocar.
Conversas ampliam a alma! A consciência é um produto social. Ter consciência significa ter conhecimento: sobre o outro, sobre o mundo, sobre si mesmo. A gênese do autoconhecimento está na interrelação sócio-verbal entre as pessoas. Não a despreze, não a minimize, portanto! Aquele que fala sobre o que fez, o que sente, o que imagina, com o que sonha, sobre seus erros, sobre seus acertos, sobre seus afetos etc. – sem esquivas, nem mentiras – é um ser livre. Para uma pessoa se sentir livre e poder dizer tudo sobre si mesma, não pode se proibir de errar. Seres verdadeiros e livres, capazes de tomar iniciativas e de se responsabilizar pelos riscos inerentes às suas decisões, se desenvolvem em um ambiente familiar que:
a. Valoriza e se regozija sem exageros com o acerto e
b. Reconhece, com a mesma prontidão, que os erros precisam ser censurados, sem excessos desnecessários, e ao mesmo tempo corrigidos com a assistência e amor dos pais. Nem sempre o filho tem condições de se corrigir sozinho. A missão dos pais não se encerra com a censura. Se encerra com acolhimento e ajuda concreta.
Mãos dadas simbolizam troca de afeto. Pode ser sinal de proteção em caso de perigo. Nunca deve ser símbolo de restrição (“Não se afaste de mim... Você pode se perder!”; “Você não me obedece... logo, não saia de perto de mim!”). Note que na continuidade da interação, seguem de mãos afastadas... Cada qual se sente livre para explorar o ambiente. Explorar significa apresentar variabilidade comportamental, da qual resulta descobertas boas e más!
Descobertas significam consequências reforçadoras ou aversivas. Num ambiente protegido dos extremos, permitir variabilidade desenvolve segurança, flexibilidade, tomar iniciativas, correr riscos etc.
CENA 7
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Pedro se adianta para falar brevemente com alguém: – Qual o nome do seu cachorrinho? Mais adiante, Pedro se detém para ver uma vitrine. Paulo, por sua vez, anda pelo corredor do shopping. Encontra um amigo com o qual troca algumas palavras. Um espera pelo outro! Não há pressa, andam sossegados.
Esta cena é extremamente rica. Ela nos mostra a possibilidade de se ter acesso ao afeto do outro (uma pessoa desconhecida, mas que tem valores comuns: como Pedro, gosta de cachorros. Poderia ser alguém com a camisa do mesmo time pelo qual Pedro torce: – Você também é corintiano?, por exemplo). Assim se inicia um repertório social rico (isento de timidez, de isolamento social e afetivo...). A iniciativa de Pedro só se tornou possível pela história de contingências de reforçamento a que vem sendo exposto: não temer o outro, ter autoconfiança, ter autoestima, tomar iniciativa, apresentar variabilidade comportamental, sentir-se seguro etc. O pai age de modo equivalente. Neste contexto cabe a pergunta: quem é modelo para quem?
Note, mais uma vez, a sensibilidade ao outro: ninguém restringe ninguém, um não apressa, nem interrompe o outro. Ambos ganham com isso!
CENA 8
Foram até a loja onde mamãe havia comprado uma blusa. A vendedora prontamente identificou a dupla: – Vocês vieram trocar a blusa da Cristiana? Ela me ligou e já separei a peça que me pediu.
Esta atividade visa à desenvolver sensibilidade ao outro, expressa em se comportar pelo outro. O terceiro nível de seleção de Skinner especifica, fundamentalmente, que o que me reforça é aquilo que é reforçador para o outro (e vale, de modo equivalente, o que me é aversivo é aquilo que é aversivo para o outro). Responder sob controle do que é reforçador e aversivo para o outro (prioritariamente àquilo que me é reforçador ou aversivo) é aprendido na cultura socioverbal em que a pessoa está inserida. Tal repertório comportamental, instalado e mantido por contingências de reforçamento sociais, é fundamental para a manutenção e desenvolvimento do grupo social. A presente cena é um exemplo de como tal processo se inicia, desde o seio familiar. Note que ir até a loja – pelos interesses da mãe – adia mais o sorvete... No entanto, fazer algo que agrada minha mãe, também me agrada. O cuidado da mãe, ao ligar para a vendedora, torna a tarefa de trocar a peça de roupa mais simples. A complexidade comportamental deve ser aumentada passo a passo.
CENA 9
Depois da troca da blusa desceram até a sorveteria. Paulo pegou a mão de Pedro e lhe disse: “Rumo à sorveteria. Um passeio tão gostoso tem que terminar de modo gostoso...”.
É importante que o pai tome a iniciativa. Assim, aumenta a confiança de Pedro sobre o combinado: “Meu pai cumpre com o que combina. Nem preciso lembrá-lo disso...”. Você pode se perguntar: “É necessária a frase do pai?”. Releia os itens 5 e 6 nos quais se fala a respeito da importância de conversar. A frase de Paulo, coloca o comportamento de Pedro sob controle do que irão fazer, confirma que o combinado será cumprido. Adicionalmente, Paulo ao adjetivar o passeio (“gostoso”) ensina duas coisas para Pedro:
a. Desenvolver sensibilidade em relação a viver. Está ensinando Pedro a dizer para si mesmo: “Não apenas fui ao shopping com meu pai. Foi bom (gostoso) ter ido!”. O uso do termo “gostoso” é intencional. Termos sobre sentimentos são ensinados a partir de metáforas sensoriais. É como se Pedro estivesse aprendendo: “Passear com meu pai é tão gostoso, quanto saborear um sorvete”. Parte-se do concreto (sensorial) para alcançar a abstração (sensibilidade). Assim, quando uma pessoa diz que teve um fim de semana delicioso, ela usa uma metáfora: o fim de semana não teve, literalmente, um sabor muito bom; causou sensações tão boas quanto um sabor delicioso.
CENA 10
Enquanto andavam Paulo pôs a mão no ombro de Pedro e deu-lhe um leve aperto. Puxou – com carinho – o cabelo desalinhado do filho. Paulo cumpriu sua promessa. Falou para filho: – Pode escolher o sorvete que quiser. Leve 10 reais. Não se esqueça do troco. Espero por você ali, naquele banco.
O toque é uma concretização do amor. Substitui palavras, como neste exemplo. Além disso, o toque desmistifica os limites do corpo. O acesso ao corpo não deve ser proibido para as pessoas com quem convivo, às quais eu amo e me amam. Abraçar, beijar, tocar aproximam as pessoas e viabilizam a vivência do amor. O toque poderia ser acompanhado de comentários: “Seu cabelo está macio”, “Você está com um perfume gostoso” etc. Tais verbalizações ajudam Pedro a observar seu próprio corpo e, por generalização, começar a atentar para o corpo do outro. Tais frases contribuem para o desenvolvimento do autoconhecimento das sensações que podem ser geradas no corpo. Assim, “Sua pele é macia” (tato), “Seu cabelo é sedoso” (tato), “Você está perfumado” (olfato), “Gosto do seu jeitinho de falar” (audição), “Adoro morder sua orelhinha” (gustação), “Seus olhos são verdes” (visão) etc. (tais observações podem ser estendidas para as roupas que a criança usa, adornos, penteados etc.). Tal conhecimento preparará o (futuro) adulto para conhecer (conscientizar-se) e lidar melhor com sensações provindas do seu próprio corpo e do corpo de alguém que lhe seja querido, tanto na área erótica, como nas demais interações afetivas vivenciadas. Adicionalmente, tocar as pessoas de sua convivência e confiança e deixar-se tocar por elas, liberta a interação física de preconceitos, bem como enriquece a intimidade com pessoas de seu bem querer. Há uma importante distinção entre “fazer sexo” (atividade essencialmente sensorial e, tipicamente, egoísta) e “fazer amor” (atividade que envolve percepções sensoriais e sensibilidade, as quais despertam, essencialmente, uma entrega mutua). É tarefa dos pais ensinarem seus filhos que se deve amar a si e ao outro, que se faz necessário desenvolver, enfim, habilidades que lhes permitam sentir pelo seu parceiro, ou seja, por uma mesma pessoa atração erótica (primeiro nível de seleção) e sentimentos afetuosos (terceiro nível de seleção). Assim como, é possível vivenciar sentimentos de acolhimento e de carinho sem nenhuma sensação erótica. Mesmo nas relações parentais, a intimidade física precisa ser desenvolvida e mantida. Muitas pessoas idosas, quando se tornam dependentes, só aceitam serem cuidadas por pessoas estranhas ou profissionais! Enquanto que, por sua vez, os próprios filhos sentem-se constrangidos com a tarefa de assumir os cuidados íntimos dos pais!...
Ao pedir para escolher o sorvete, enquanto se mantém afastado, Paulo cria oportunidade para Pedro:
a. Desenvolver comportamentos e sentimentos de autoconfiança (“Não preciso do meu pai para pedir o meu sorvete. Eu vou lá e consigo o que quero”);
b. Desenvolver comportamentos e sentimentos de autoestima (“Escolho o que eu prefiro, independente daquilo que meu pai prefere. Gosto daquilo que gosto; não tenho que gostar daquilo que querem que eu goste!”);
c. Produzir aquilo que lhe é reforçador (sorvete) pela emissão de seus próprios comportamentos: emergem sentimentos de segurança e independência (“Não preciso depender dos outros para reger minha vida”);
d. Assumir responsabilidade pelas decisões (no caso do sorvete, Pedro sabe qual prefere. O risco de não gostar é mínimo! Poderia, porém, arriscar um novo sabor. Aí a história poderia ser outra... O que você faria se Pedro escolhesse um outro sabor e dissesse para o pai: “Ih, não gostei deste aqui!”);
e. Apresentar variabilidade comportamental, pois com o pai distante, qualquer imprevisto (uma fila longa, uma atendente com má vontade com uma criança etc.), deverá ser resolvido com novos comportamentos por parte de Pedro. Isto desenvolve a criatividade e ainda mais fortalece a autoconfiança;
f. Desenvolver comportamentos e sentimentos de responsabilidade, pois deve pagar aquilo que comprou e devolver o troco, que não lhe foi dado pelo pai;
g. Confirmar a confiança no pai: ele espera por Pedro o tempo necessário, sentado onde disse que ia estar. Cabe uma importância advertência: nesta cena a ênfase está no segundo nível de seleção de Skinner. A pessoa deve produzir aquilo que lhe é reforçador e evitar, fugir, pospor, amenizar aquilo que lhe é aversivo. Trata-se de uma visão individualista e egoísta. Por isso deve ser acrescentado que, dentro do possível, nenhum comportamento deve ser emitido às custas do outro. A fim de equilibrar o individualismo com o cooperativismo e respeito ao próximo, os pais devem ensinar o filho a equilibrar o segundo com o terceiro níveis de seleção. A presente exposição deixará claro este ponto.
CENA 11
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Pedro se aproximou do pai chupando o esperado sorvete de chocolate. Entregou o dinheiro que sobrou para Paulo. O pai conferiu o troco. – Tudo certo! Está gostando do sorvete? Achei que ia escolher de creme!
Afinal, o encontro com o reforço. Assim, se instala, sem traumas, a tolerância a frustração (usa-se, atualmente, o termo resiliência). Conferir o troco não é exemplo de desconfiança, mas modelo de como Pedro deve proceder quando o troco for dele. Serve, adicionalmente, para consequenciar comportamento preciso: se o troco deveria ser 2 reais, então Pedro deve entregar para o pai 2 reais. A pergunta de Paulo (“Está gostando...?”) visa a colocar o sabor do sorvete (gostoso) sob controle de Pedro. Ou seja, Pedro deve observar que sensações o chocolate, o sorvete produzem. Deve-se saborear o sorvete (não devorá-lo), curtir um som legal (não deixá-lo como ruído de fundo), admirar uma cena (não ignorá-la como parte desprezível da vida) e assim por diante. Não se deve, enfim, “passar pela vida”, mas saboreá-la no sentido total do termo. Isso deve ser ensinado desde as mínimas experiências da vida. “Chupou o sorvete que escolheu, logo não preciso perguntar, se gostou, se está bom etc.” é um raciocínio equivocado. A pessoa precisa ser ensinada, deve aprender a se tornar consciente sobre o que lhe faz bem, e o que lhe faz mal. “Achei que ia escolher...” é um teste que Paulo faz sobre as convicções de Pedro. (O que você faria se Pedro respondesse: “Você acha que seria melhor eu chupar sorvete de creme?”; “Por quê? Sorvete de creme é mais gostoso que o de chocolate?”).
CENA 12
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– Poderíamos levar um doce para seu irmão. O que você acha?, propôs Paulo.
Mais uma vez Paulo se preocupa em desenvolver em Pedro sensibilidade pelo outro (não mais à mãe; mas ao irmão). A pergunta visa a transformar a sugestão do pai em uma opção para Pedro. É claro, e não se pode negar que há uma influência de Paulo, mas ficou melhor assim do que se ele dissesse: “Vamos levar um doce para seu irmão.” Neste caso, a opção seria do pai. Ele estaria, é verdade, dando um bom modelo, mas Pedro não estaria tão envolvido na cena.
CENA 13
– Você sabe qual o chocolate de que o Tiago mais gosta? Vamos levar o favorito dele...
Esta questão tem a finalidade de levar Pedro a observar o que agrada (e o equivalente, aquilo que não agrada) Tiago. As pessoas pensam que apenas a convivência basta para saber o que o outro sente, pensa, gosta, não gosta etc. Definitivamente, não! Os sentimentos, as preferências, as crenças etc. do outro (pode ser meu pai, minha mãe, minha companheira, meu amigo, meu inimigo etc.) só serão conhecidos por mim (“Estou consciente deles”, poderia dizer) se me for importante conhecê-los. Uma forma (não a única) de tornar algo importante é fazer a pergunta (como no exemplo de Paulo) e consequenciar à resposta (valorizar Pedro se souber respondê-la; ensiná-lo a atentar para os comportamentos e sentimentos do irmão se não souber responder). Há pessoas que, ao dar um presente para alguém, não hesitam na hora de escolher. E, mais importante, agradam com sua escolha. Por quê? Observam no relacionamento cotidiano o que é reforçador e o que é aversivo para a pessoa com quem convivem. Não precisam perguntar: – O que você quer ganhar no seu aniversário? Sabem o que a pessoa gostaria de ganhar!
CENA 14
– Pai, ele ama Diamante Negro, respondeu Pedro.
Há evidências de que Pedro já está desenvolvendo sensibilidade pelo outro. Paulo, prossiga
assim... Você está sendo um ótimo pai!
CENA 15
– Boa sugestão. Vamos levar, então, um Diamante Negro para o Tiago. Acho que ele vai ficarcontente! Peça para a moça. O troco do sorvete é suficiente.
O pai reforçou o comportamento de Pedro com uma frase indireta: “Boa sugestão”. Paulo deu uma instrução muito importante, para Pedro na forma de uma observação, aparentemente, casual: “Acho que ele vai ficar contente!” O que ele está pretendendo é que Pedro observe a reação do Tiago, quando receber o chocolate. Há três itens aqui que merecem destaque:
a. Pedro terá seu comportamento reforçado pela reação do irmão. Trata-se de uma consequência mais natural e espontânea do que um reforço arbitrário, tal como vindo do pai ao dizer-lhe: “Você é um bom irmão dando o chocolate para o Tiago!” (pode ser usado reforço arbitrário, mas deve ser substituído sempre que possível pelo natural).
b. Pedro observará que o irmão o reforçou com uma reação de alegria, de satisfação etc. (Paulo está certo. Pedro precisa ser ensinado a atentar para o que seus comportamentos produzem no outro: notar tanto as reações positivas, como as negativas).
c. Pedro deve aprender a se sentir bem, com o bem do irmão.
CENA 16
Já no carro Paulo pede: – Pedro, coloque o pacote da mamãe no banco de trás para mim... Obrigado!
Paulo, com este pedido, ensina Pedro a cooperar, a se sentir útil, sentir-se competente etc. Quando os pais fazem pelos filhos, pensam que estão dando modelo apropriado (o que é verdade) e que isto basta (o que é um engano). A melhor forma de ensinar é levar a criança a fazer o que se espera dela. Só existe certeza de que um comportamento foi aprendido quando ele é emitido. Dizer que sabe fazer não basta! Dizer que viu como se faz e que saberá fazer não basta! (Há formas apropriadas de ensinar a fazer, mas esse é tema de outro artigo).
CENA 17
Eu entrego a blusa para a mamãe, você entrega o chocolate para o Tiago. Vamos observar a reação deles. O que você acha que o Tiago vai dizer?
Nesta cena, Paulo retoma os mesmos objetivos apresentados e comentados no item 15. O que se acrescentou foi que Paulo deu um modelo pessoal para Pedro ao se relacionar com a esposa (está programando a generalização do comportamento de Pedro para outras pessoas, além do irmão. Além disso, está ensinando que esse padrão de observar a reação que produzimos nos outros e sermos sensíveis a ela vale para todos). A pergunta: “O que você acha...?” tem a função de aumentar a atenção de Pedro sobre a reação que o irmão terá. Em suma, importa sim o que eu faço, no entanto, importa ser sensível ao que provoco no outro com minha ação. Dizer “minha intenção foi boa” não supera a necessidade de certificar-se que sua boa intenção produziu no outro acolhimento e bons sentimentos. Alguém pode questionar: “Mas isto não leva a uma submissão da pessoa aos valores, critérios, preferências etc. do outro, em detrimento de suas próprias crenças, valores, preferências etc.?” Convém repetir: o segundo nível de seleção e o terceiro devem ser equilibrados e harmonizados. Não há uma oposição dicotômica, mas um contínuo entre dois extremos: eu e o outro.
CENA 18
– Sabe, filho, você é uma ótima companhia! Meu dia fica mais sorridente quando saio com você!
A última cena apresenta Paulo reforçando, de forma arbitrária o filho. A importância do comentário está na ênfase que dá em tornar todo o episódio que pai e filho vivenciaram consciente para Pedro. As crianças se lembrarão no futuro com clareza e emoção das experiências que tiveram com seus pais na infância, se tais experiências forem ornamentadas e enriquecidas com frases, comentários, brincadeiras alusivas ao evento... antes de ir (se for algo planejado com antecedência), durante o acontecimento e depois. Sugerir que o filho conte para alguém que não esteve presente (a mãe, uma tia, a avó etc.) o que ele fez, o que mais gostou etc. é extremamente importante. Contar, recontar, contar com novos detalhes... ajuda a memorização do evento (poucos memorizam uma poesia lendo-a uma única vez) e a curtir seus aspectos afetivos toda vez que forem relembrados!
CENA 19
– Sabe, pai, você é uma ótima companhia! Meu dia fica mais sorridente quando saio com você!
O filho poderia dizer a mesma frase para o pai! Note, retomando os comentários da cena 1, que é possível uma interação plena entre pai e filho, caraterizada por satisfação recíproca. Criar filho não é hobby, mas uma atividade importante e contínua em si mesma. Não precisa e nem deve ser desagradável. Mas, para tal, é preciso conduzi-la com discernimento e plena consciência de suas sutilezas.
No presente texto as diferentes classes de sentimentos e comportamentos denominadas de autoestima, autoconfiança, responsabilidade e tolerância à frustração foram apresentadas separadamente. Não deve ocorrer assim na vida cotidiana. Todas se complementam e se influenciam. O melhor para um desenvolvimento afetivo harmonioso é um equilíbrio entre as diferentes classes de sentimento e comportamento. Quando há excessos ou déficits em qualquer uma das classes apresentadas, ocorrem desajustes comportamentais e afetivos. Assim, por exemplo, excesso de tolerância à frustração pode inibir a expressão de autoestima e autoconfiança: a pessoa tolera as adversidades e não se impõe (negligencia comportamentos de autoconfiança) e não expõe, nem defende suas preferências, seu modo de pensar etc. ... “Posso magoar as pessoas se me opuser a elas...”, pensa! (desdenha comportamentos de autoestima). Adicionalmente, pode ser uma pessoa com excesso de comportamentos e sentimentos responsáveis, o que em geral, produz estados crônicos e intensos de ansiedade. Tal pessoa pode ser categorizada como “inassertiva” (para usar um termo mentalista, mas muito usado). De maneira análoga, excesso de autoestima pode estar associado a déficit em autoconfiança: pessoas que são exageradamente protegidas sentem-se amadas e queridas num pequeno mundo – o da família –, mas despreparadas para integrar-se num contexto social mais abrangente. São poupadas! Não experimentam uma relação fundamental para o desenvolvimento comportamental e emocional das pessoas: os comportamentos que emitem produzem consequências e tais consequências influenciam os comportamentos emitidos. São expostas a situações, nas quais o acesso àquilo que lhes é reforçador e a proteção contra aquilo que lhes é ameaçador se dá de maneira não contingente. A pessoa nesta condição é categorizada como “mimada” e “dependente” daquele que tem funções provedora e protetora.
Hélio José Guilhardi





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