09 setembro 2026

Episódios Comportamentais

O processo psicoterapêutico deve avançar gradualmente para decompor relatos abrangentes em episódios comportamentais. Com este objetivo podem ser feitas perguntas tais como: —Ana, descreva para mim em detalhes o que exatamente aconteceu na discussão que você e o João tiveram ontem à noite: “Como começou? ”; “O que você falou? ”; “O que ele fez e falou? ” Estas questões devem ser feitas uma a uma e as respostas da cliente devem funcionar para o psicoterapeuta como estímulos discriminativos para novas questões, visando a construir um relato, o mais completo possível, daquele episódio comportamental. Deve-se atentar para três pontos: 

1. A descrição feita pela cliente deve incluir os elementos comportamentais essenciais. São eles: o que ela fez e falou; o que antecedeu suas ações, que a levaram a fazer e dizer o que fez e disse; o que suas ações produziram. Tal detalhamento da descrição é muito complexo. Ele deve ser construído passo a passo. Não se deve pressupor que a cliente já tenha pronto o repertório comportamental de descrever com precisão o que ocorre nas suas interações familiares. Relatar com precisão um episódio comportamental é comportamento complexo que precisa ser instalado pelo psicoterapeuta através de reforçamento positivo diferencial, instruções, perguntas, fading in e out de ajuda verbal, modelos verbais.... 

Ao psicoterapeuta cabe atuar com os objetivos de levar a cliente a se manter falando espontaneamente e de coletar detalhes das interações. Assim: “Entendo o que está me dizendo. Continue”; “Explique melhor o que ocorreu em tal e tal momento da interação”; “Você se lembra exatamente o que o João fez quando entrou em casa vindo do trabalho? Se aproximou de você? Fez algum comentário, algum gesto carinhoso? ....”. O psicoterapeuta terá oportunidade — no correr das sessões sucessivas — de obter outros relatos de interações entre ambos (conflituosas, com certeza, e agradáveis, será?) em outros momentos e em diferentes contextos e poderá ir compondo um quadro mais abrangente, mais pormenorizado, melhor descrito, consistente de como tendem a ser as interações entre eles em diferentes contextos. O psicoterapeuta deve ter claro dois pontos: em primeiro lugar a descrição do que ocorre em cada episódio comportamental (os tactos verbais do cliente) deve ser clara, de tal forma que seja possível captar a situação como um todo, como se estivesse assistindo a um vídeo da interação. Em segundo lugar o psicoterapeuta deve permitir que o cliente fale espontaneamente, com o mínimo de interrupções, embora, se necessário, deva interromper a narrativa e fazer perguntas que permitam melhor esclarecimento do que ocorreu. As perguntas devem ser feitas uma a uma e o psicoterapeuta deve consequenciá-las diferencialmente com falas breve, tais como: “Entendo, “Explique melhor”, “Isso deve ter sido difícil para você! ” E com gestos, expressões faciais, tais como movimentos corporais de quem se inclina para “ouvir melhor”, sorrisos, expressões sérias, de preocupação ou espanto etc. Aos poucos — com o avanço do processo — caberão comentários, análises, interrupções etc., mas deve-se aguardar mais informações que permitam ao psicoterapeuta ter mais evidências empíricas que justifiquem suas intervenções. Ao fazer perguntas evite dar alternativas para o cliente escolher uma dentre elas; deixe-o descrever, a menos que ele esteja tendo dificuldades para se expressar..., mas uma questão por vez!

2. O psicoterapeuta deve mesclar perguntas com comentários, permitir algum nível de divagação por parte da cliente, de tal maneira que a investigação mais pareça um diálogo do que um interrogatório persuasivo. Falou-se em tacto verbal sob controle exclusivo do antecedente. Tal tato verbal puro não existe nas conversas cotidianas entre as pessoas. Tacto verbal sob controle de antecedentes é um purismo conceitual (ou seja, o antecedente que controlaria as narrativas já não estão mais presentes), o ouvinte não é uma pessoa treinada para selecionar tais tactos puros (talvez isso nem seja possível, a menos que o ouvinte esteja também sob controle do evento que está sendo comentado) e suas reações de interesse sobre o ocorrido (em geral com função de reforço condicionado generalizado: sorriso, olhar atento, perguntas para obter mais detalhes etc.) levem o falante a distorcer a descrição do que de fato ocorreu. Fala-se, então,em tacto distorcido (aquela narrativa que é selecionada pelas consequências que selecionam o que é dito) ... O pescador sempre descreve um peixe maior do que aquele que fisgou.... Alguns analistas do comportamento (me lembro de você, Roosevelt), com muita razão, preferem classificar tais episódios comportamentais como exemplos de intraverbais (comportamento verbal emitido sob controle do comportamento verbal de outra pessoa). Diante, portanto, de pelo menos três possibilidades que se apresentam para o psicoterapeuta: tacto verbal puro, tacto verbal distorcido ou intraverbal, resta a ele ficar atento às consistências e inconsistências intrassessão e interssessões dos relatos do cliente, antes de se colocar sob controle do que o cliente diz. Não se justifica argumentar que  importa aquilo que é verdade para o cliente. Primeiro, porque não se sabe se o cliente realmente acredita no seu relato ou se está manipulando o psicoterapeuta; em segundo lugar, ao reforçar (acolher sem crítica) os relatos, o psicoterapeuta está selecionando padrões comportamentais de alienação do cliente (caso este de fato acredite que fez uma narrativa precisa) e dificultando, de maneira perigosa, ao cliente chegar a adequado autoconhecimento. Afinal, não compete ao psicoterapeuta julgar se o cliente está espontaneamente mentindo, ou omitindo, se não desenvolveu a complexa classe de comportamentos de observar (ficar sob controle estrito do que ocorreu) e de narrar consistentemente o que observou, se ingenuamente narra acreditando que sua narrativa descreve o que de fato aconteceu.... Cabe ao psicoterapeuta obter o máximo de informações e chegar ele próprio a sua maneira de descrever o que deve ter ocorrido... são muitos episódios no correr do processo psicoterapêutico... muitas oportunidades de discriminar padrões particulares de narrativa de seu cliente (inclusive o uso que faz de autoclíticos, que podem exercer maior controle sobre o comportamento do ouvinte) e, afinal, sempre é possível reavaliar interpretações sob influência de novas evidências empíricas.

3. Não é o objetivo desta etapa do processo psicoterapêutico levar a cliente a identificar funções dos eventos em estudo, mesmo porque as funções são interpretações conceituais, baseadas nos comportamentos emitidos pelos parceiros, que exigem pleno domínio dos principais conceitos comportamentais. Elas cabem, inicialmente, ao psicoterapeuta.


Construção de Contingências de Reforçamento

A maneira de coletar os dados e a forma de organizá-los está sob controle de um modelo de investigação, de conceituação e de intervenção específicos. O psicoterapeuta, durante todo o processo psicoterapêutico, se comporta sob controle do referencial conceitual da Análise do Comportamento e está o tempo todo interessado naquilo que o cliente diz, faz e sente, tendo claro que todas essas três classes comportamentais precisam ser sistematizadas num paradigma de contingências de reforçamento das quais elas são função. O psicoterapeuta lida com as contingências de reforçamento, seu único instrumento de investigação, de sistematização, de análise e de intervenção com os clientes. A contingência de reforçamento mínima é aquela composta por três termos. Os antecedentes podem ser sociais (comportamentos de uma pessoa presente na situação, por exemplo) ou físicos (quantidade de sal na comida, por exemplo).  O cliente é parte do problema e parte da solução!

O psicoterapeuta deve se manter apto a analisar todo e qualquer episódio envolvendo duas (ou mais) pessoas do ponto de vista de cada uma delas. Não há certo, não há errado. Há contingências de reforçamento atuando sobre cada personagem. Se há um responsável pelo que cada um diz e faz são as contingências de reforçamento, não intenção (não é causa de comportamento), pois, se a pessoa declara que fez intencionalmente, a própria intenção é comportamento controlado por contingências de reforçamento. Não cabe, pois, julgamento por parte do psicoterapeuta; cabe-lhe ajudar o cliente a se comportar e a se sentir melhor, alterando contingências de reforçamento. As funções das contingências de reforçamento são particulares para cada pessoa envolvida no episódio comportamental. Assim, por exemplo, frases tais como: “Não dá mais. Não consigo conviver com você nem mais um minuto. Estou saindo de casa! ” , ditas pelo marido após a briga de um casal que vive em contínuo conflito, podem ter diferentes funções para a esposa: serem fortemente aversivas, se ela acredita que ainda o ama, depende dele financeira e emocionalmente, é insegura nas interações com os filhos, não tem familiares que possam acolhê-la etc.; produzirem sentimentos de alívio se, por outro lado, a interação entre eles é abusiva, ela já foi agredida fisicamente mais de uma vez, ele é alcoolista, não se mantém em emprego, depende do salário dela etc.

Hélio 
09/09/26


Nenhum comentário:

Postar um comentário

CADERNO DE VERSOS – POESIAS E VERSOS BEHAVIORISTAS

AMOR E PAIXÃO Amor é construção,  Diferente de paixão. Amor é doação e acolhimento, Que se estendem pelo espaço e acompanham o fluir do temp...