Nota: este texto é a introdução de um livro sobre a Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR) que estou escrevendo.
Sou um psicoterapeuta com anos de vida profissional.
Faço rapidamente uma revisão de minha agenda do dia. Avalio qual cliente será o mais difícil, qual está progredindo mais satisfatoriamente... Às 16 horas, vou atender a uma cliente nova, Dinah, uma mulher de 40 anos de idade. Só sei isso dela!
O primeiro encontro com um cliente cria uma expectativa. Quem entrará pela porta do consultório? O primeiro encontro é um passo que me leva ao mundo de uma pessoa, um mundo totalmente novo: complexo, profundo, desafiador. Começo a me preocupar! Uma pessoa entrega-se a mim, esperando que sua vida melhore! Serei capaz de ajudá-la? Não é apenas uma pessoa que está diante de mim. É alguém que está sofrendo! O que a tem feito sofrer? São tantas as possibilidades! Nenhum cliente se repete nem mesmo aqueles que apresentam uma mesma queixa. Ninguém sofre igualmente nem pelas mesmas razões, ninguém progride da mesma forma.... Nenhuma psicoterapia se repete. Isso me move, me fascina e me desafia!
— Dinah vive com alguém? Como se desenrola essa convivência?
— Ela está só, tem filhos?
— Qual foi sua história com a família? Pais... Irmãos... Sentiu-se livre para conduzir sua vida?
— Que imagem tem de si mesma? Tem boa autoestima, boa autoconfiança?
— Que sentimentos têm prevalecido em sua vida: culpa, fobia, apatia, fracasso, depressão, decepção, angústia, ansiedade, desesperança, timidez; bem-estar, satisfação, otimismo, confiança, destemor, gratidão, aceitação, tolerância, alívio, paz, coragem, contentamento, empatia...? São tantos e se misturam de maneiras únicas!
— Tem amigos? Como são eles?
— Tem vida profissional?
— É refém da vida?
— Ainda tem sonhos ou apenas sobrevive?
— Quantas cicatrizes psicológicas marcam seu rosto?
— Tantos talvez...
Todas essas reflexões não me assustam; me comovem! Não vou me deparar com uma pessoa, mas com esta pessoa: Dinah. Em certo sentido, passarei a pertencer ao seu mundo!
Começarei por conhecê-la do jeito que ela se conhece. Só assim poderei ajudá-la, ou nem assim! Serei capaz de conduzir com sabedoria as dificuldades de Dinah? Todo processo psicoterapêutico é muito complexo. Melhor parar de me questionar por aqui.
A experiência clínica ensinou-me que enfrentar a realidade dá-me instrumentos de ação e contornos mais precisos para minhas reflexões. Nada é tão difícil quanto parece até você compreender os determinantes históricos das dificuldades do cliente e como vêm sendo mantidas e ampliadas. A escuridão tende a tornar o medo mais intenso! Sinto-me mais seguro fazendo do que pensando. Entendo os porquês, já que o fazer em TCR envolve importantes marcos de referências, as quais não são pontos de convergências que ditam ações específicas, mas conceitos que me abrem para possibilidades. Não me limitam; me expandem! Melhor assim, porque não existe uma única forma para lidar com pessoas tão únicas, tão diferentes entre si. A agulha de uma bússola indica-me uma direção, não me descreve o caminho. No entanto, se segui-la chegarei ao meu destino. Aprendi que o caminho me exporá a desafios, a equívocos, a erros, a dúvidas; a acertos, a surpresas, a descobertas... tudo isso e mais, sempre a dois; não trilho sozinho o caminho, o cliente é meu companheiro de jornadas!
— Bem... Chega de ficar pensando... Está na hora de ir para o consultório. Renovo minha certeza de que estarei oferecendo o que há de melhor da psicologia clínica. O melhor não é tudo ainda. Meu trabalho contribui para o progresso do cliente, tenho convicção disso, e acrescento, com convicção, que contribui para meu crescimento pessoal também. Desde o início da minha prática clínica, me transformei, mudei meu modo de atuar, de lidar com o cliente, elaborei melhor conceitos já sistematizados, sistematizei outros... Acho que contribuí para o desenvolvimento da Psicologia. Mas falta muito, é verdade. O que falta não me frustra. Sinto-me estimulado a continuar a busca de uma vida cotidiana melhor, mesmo que as melhoras sejam gotas de progresso. Quando se entende que psicoterapia é processo de desenvolvimento pessoal do cliente e que a prática psicoterapêutica é também processo de desenvolvimento do psicoterapeuta, vejo com entusiasmo o futuro. Será com certeza melhor, não necessariamente menos árduo.
Hélio
8/09/26
Interessante saber que eu psicóloga com 2 anos de clínica compartilho dos mesmos sentimentos que o Hélio com seu repertório tão refinado. Estava esperando que a experiência com os atendimentos fosse mudar o cenário um pouco. Muito bom!
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