15 setembro 2026

TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO: UMA BREVE ANÁLISE DE UMA QUEIXA DE FOBIA SOCIAL

Nota dos autores: Para garantir o absoluto sigilo e a preservação da identidade do cliente, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo, todos os dados de identificação pessoal (nome, idade, ocupação e localização geográfica) foram alterados. Características secundárias do histórico de vida também foram modificadas sem que houvesse prejuízo à integridade clínica e teórica do relato.

Identificação do cliente: 


Rafael, 26 anos, solteiro, curso universitário completo, mora com os pais e a irmã de 28 anos, solteira. Trabalha há 8 anos na Empresa do pai.


Queixa: O cliente procurou terapia com queixa de “fobia social” e “dificuldade total para dizer o que pensa”. “Penso; sei o que quero; sei como deveriam ser as coisas. Só que não consigo...”; “Não gosto de ambiente onde estejam pessoas”; “Prefiro ficar sozinho em casa”; “Saio com minha namorada, mas quando ela insiste. Se depender de mim não saio”; “Tenho medo de mudar de emprego e não me dar com as pessoas”; “Não consigo fazer um curso de pós por causa das pessoas: acho que vão saber mais que eu, que se abrir a boca vou falar bobagem”; “Adoro carro e velocidade”; “Às vezes, viajo até 60-90 Km só para ter a sensação de liberdade na estrada. Vou tomar um café numa loja de conveniência num posto da estrada. Já aconteceu de ir, andar uma hora de carro e nem entrar no café porque tem gente lá dentro. Se estiverem só as moças que já conheço entro sem problemas...”; “Não gosto de festas. Aliás, nunca vou”; “Não entro em cinema se já tem muita gente na sala: ou vou bem cedo e sou dos primeiros ou nem vou”; “Não entro em barzinho. Só se meus amigos estiverem. Vou, mas contrariado. Não me divirto”; “Não gosto de dançar”; Aliás, nem sei dançar”; “No trabalho me relaciono bem com a gerente comercial. Parece que ela me entende, ou com o pessoal que ‘dá  duro’”; “Não gosto de pedir as coisas para ninguém, nem para os empregados. Prefiro ir lá e fazer eu mesmo”; “Outro dia um funcionário faltou. Alegou que tava doente. Depois levou um atestado fajuto. Mas, ele é o único que sabe fazer o trabalho dele com o computador. Não treinaram ninguém para fazer quando ele não está lá. O que eu ia fazer? Passei a tarde e a noite inteira acordado, sozinho no escritório, fazendo o trabalho dele. Como eu também não sabia direito como funcionava fiquei quebrando a cabeça. A firma não podia parar no dia seguinte. Nem obrigado me deram. E, no dia seguinte emendei: tinha muitas coisas para fazer”; “Perco o apetite”; “Perdi peso”; “Tenho dores de estômago”; “Não durmo direito”; “Sei que é tudo por causa de preocupação”.


Episódio da formatura da namorada:


"Fui à festa de formatura. Ficou claro que tinha fobia social mesmo. Fui ao baile, porque era obrigado. Não tinha desculpa pra dar. Dancei a valsa com ela, mas parecia que eu tinha duas botas de chumbo nos pés. Mal me mexia. Isso. Até me curvo. Parece que estão todos olhando para mim e vendo um ser estranho se arrastando pelo chão. Bebi muito pouco. O que me causa estranheza é que o grupo com quem eu estava fica alegre. Não sei me divertir. Só fico com preocupações. Começa a tocar uma música o pessoal começa a agitar, a dançar. Eu não vejo graça em nada. Imagine se vou começar a me mexer ali. Minha namorada me chama. Nem pensar. Estava com um pouco de dor de cabeça e aí aproveitei e fui embora mais cedo. Disse que não estava me sentindo bem e às 2:30 fui embora. Ninguém estranhou porque disse que eu estava me sentindo mal; na verdade exagerei. Todo mundo ficou lá. Fui embora sozinho. Aí me senti aliviado. Livre daquele agito. Sem ninguém me observando. Depois eu falo que tava legal, que gostei. Para a namorada me abro um pouco mais. Mas, ela não aceita, então, não falo muito. Por exemplo não falei que fui embora por causa da fobia social."


Condição atual de trabalho


"Trabalho na Empresa do meu pai. Ele é o dono, mas deu sociedade para o irmão dele. Meu tio é quem manda. Meu pai faz a parte dele e não tá nem aí. Meu tio manda e desmanda. Tira dinheiro da Empresa para uso da família dele, trata mal os funcionários, não me ouve em nada. Me paga um salário que dá vergonha. O que gasto de gasolina é quase meu salário. E, não adianta falar nada para o meu pai não liga e diz que eu que me vire. Se quiser procure outro emprego. Como vou sair de lá? E deixar meu tio se apoderar de tudo e meu pai vai perder a firma. O meu futuro é da minha irmã e mãe vai pro buraco. E tenho também medo de enfrentar outro emprego. Se não der certo? É a fobia social que me amarra. Tenho medo de arriscar. Nenhuma iniciativa minha o tio aceita. A gerente (financeira) me dá razão; ela me mostra as retiradas dele; muito maiores que as do meu pai e fica tudo por isso mesmo; Meu pai, quando tentava, já nem tento mais falar com ele grita comigo. Pedi aumento de salário uma vez. Ele fez o que sempre faz: - Vamos ver. E nunca me responde. Acho que não tenho que pedir. Ele é que tem que reconhecer meu valor. Minha namorada me pergunta quando vamos nos casar. Eu digo: - Com o que ganho? Nunca vai dar. E, já namoro há 7 anos. Não há chance. Ele trata mal os funcionários. Me sinto mal com isso. Eles reclamam comigo, porque acham que sou filho do patrão. Eu olho e digo: - Ele é assim mesmo. No íntimo me sinto humilhado e incapaz de fazer qualquer coisa.

A Empresa tem uma administração antiga. Sei como melhorar, mas meu tio não me deixa. Na verdade, desisti. Nem falo nada. Minha mãe concorda comigo, mas não consegue nada meu pai."


Contingências em operação na vida de Rafael


Basicamente, contingências coercitivas ou adversas. Assim, qualquer comportamento de mudar a Empresa é punido pelo pai. A punição é intensa e repete nos dias atuais e no tema vigente os mesmos procedimentos que o pai adotou a vida toda com Rafael. Punição positiva. O padrão de comportamento típico de Rafael com o pai é silêncio e distância. O repertório operante está amplamente suprimido em praticamente todas as classes comportamentais. Os sentimentos que nomeia são raiva, medo, desprezo, impotência e depressão, dependendo dos eventos que vivencia com o pai.

O tio adota um procedimento mais próximo de extinção. Raramente grita com Rafael, mas  sistematicamente ignora as sugestões e pedidos. Pode-se dizer que ao retirar dinheiro que contratualmente pertence ao pai (e por extensão a família de Rafael) e usá-lo com gastos pessoais e familiares em prejuízo da Empresa o tio cria uma condição adversa: remoção não contingente e inevitável de reforçador positivo generalizado (dinheiro) sem possibilidade de fuga-esquiva. O paradigma é de incontrolabilidade: não há comportamento operante eficaz para alterar a condição aversiva e não há comportamento operante que os produza ( não é, portanto, punição negativa). Os sentimentos associados são de impotência, raiva, ansiedade e depressão.

O baixo salário cria condições de privação de acesso a reforçadores positivos, tanto materiais (roupas, objetos etc.) como de lazer e relacionamento (programas com a namorada, passeios etc.), em particular a impossibilidade de se casar e se manter e a família com seu salário. Os sentimentos associados são de raiva, culpa em relação à namorada, impotência e depressão. 

A relação com a namorada produz poucos reforçadores positivos (esquemas de reforçamento com baixa densidade de reforços positivos, próximo ao procedimento de extinção) e punições; tanto positiva na forma de crítica, como negativa na forma de retirada de atenção, afastamento, ameaçar de rompimento da relação. Sentimentos associados: impotência, culpa, pouca satisfação, depressão.

A relação com a mãe envolve duas contingências operando simultaneamente. Em primeiro lugar a mãe concorda com as observações e análises do filho e nesse sentido ele é reforçado positivamente com atenção, aprovação etc. Em segundo lugar a mãe e, tanto quanto o filho, impotente diante do marido. É punida positivamente por ele, pois os comportamentos dela de comentários sobre a relação dele com o irmão), com a firma e com os filhos é fortemente criticada e consequenciada com gritos, palavrões. Em seguida, o marido usa procedimento de extinção e punição negativa, na forma de interrupção por longos períodos da interação social. Concluiu-se que Rafael ao falar com a mãe sobre as dificuldades que encontra com o pai fica num procedimento de extinção no que diz respeito às mudanças favoráveis nos comportamentos do pai intermediadas pela mãe. Sentimentos de bem querer a mãe e de frustração, desesperança, desânimo e depressão em relação ao pai.


Por que Rafael relata que tem “fobia social” e não que tem “depressão”?


Rafael fica sob controle do produto das contingências e não do processo de atuações das contingências. Ele discrimina o déficit de repertório em situação social, onde as contingências são amenas e favoráveis: ele não é punido pelo grupo as pessoas apresentam SDs para ele se comportar (não tem função de SDs para ele), dão-lhe instruções etc. e ele não emite os comportamentos desejados pelo grupo. Ao lado disso, o déficit de repertório lhe é aversivo, pois ele se cobra em desempenho “esperado”. Os sentimentos são de incompetência, produzidos por ausência de repertório que produz Sr+ e por repertório social deficitário (manter-se calado, afastar-se das pessoas, recusar-se a se engajar em atividades sociais propostas pelo grupo) que produz críticas, comentários irônicos etc.

Por outro lado, na vida profissional Rafael fica sob controle dos seus comportamentos profissionais e sabe que faz o “máximo possível” nas determinadas circunstâncias. Fica também sob controle das contingências em operação – basicamente aversivas – e não emite comportamentos de contra-controle, sem se sentir incompetente, pois avalia as contingências como muito intensa e, em relação a elas, nada pode ser feito (depoimento dele).

A queixa fica, então, sob controle do déficit de repertório sob contingências reforçadoras positivas amenas e não sob controle do déficit de repertório ( de contra-controle ou de fuga-esquiva) sob contingências aversivas intensas – No primeiro caso fico sob controle dos sentimentos de impotência, de tristeza, de isolamento aparentemente sem razão (não detecta que responde à história de contingências e às contingências do trabalho e não às contingências no contexto social). No trabalho os sentimentos são de revolta, raiva (porque, segundo ele não há nada que possa fazer), mas não sentimentos de incompetência, de omissão. Não fico sob controle dos sentimentos de depressão, pois os demais são mais intensos imediatos e evidentes, o controlam mais, portanto.

Em suma, as contingências em operação no contexto de trabalho produzem um déficit abrangente de repertório, outro que não o estritamente profissional, e sentimentos adversos. Quando Rafael é exposto a situações – diferentes de trabalho – os controles de estímulos são fracos, o repertório operante é restrito e ele se torna vulnerável a tais condições de controle. Discrimina, então, o déficit de repertório social e os sentimentos de impotência e insatisfação – produtos de outras contingências – e Rafael responde sob controle de tais produtos e não é sensível ao processo que os desencadeia.


Hélio José Guilhardi

(2011)

           











Nenhum comentário:

Postar um comentário

CADERNO DE VERSOS – POESIAS E VERSOS BEHAVIORISTAS

AMOR E PAIXÃO Amor é construção,  Diferente de paixão. Amor é doação e acolhimento, Que se estendem pelo espaço e acompanham o fluir do temp...