Nota dos autores: Para garantir o absoluto sigilo e a preservação da identidade do cliente, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo, todos os dados de identificação pessoal (nome, idade, ocupação e localização geográfica) foram alterados. Características secundárias do histórico de vida também foram modificadas sem que houvesse prejuízo à integridade clínica e teórica do relato."
Júnior é filho único, tem oito anos, é bom aluno da segunda série – provavelmente, o melhor da classe –, adora esportes e é bom de bola no time da vizinhança. Relatou-me vários episódios sobre sua relação com o pai. Passo a narrá-los na primeira pessoa, mas alerto que não são frases literais de Júnior, pois se baseiam apenas em anotações (ainda que detalhadas) tomadas durante as sessões. Se soubesse a riqueza das informações que Júnior iria me fornecer, teria gravado tudo. A rotina de consultas de um terapeuta impõe tal limitação, a ser lamentada, pois se perde o registro preciso de fenômenos humanos riquíssimos, que só podem ser recuperados em níveis mais molares. Acredito, no entanto, que, mesmo assim, há muito material com que se pode lidar e aprender.
Junior:
"Havia faltado à aula na terça-feira, por causa de uma febre. Meu pai, assim que terminou de almoçar, sugeriu que fossemos até a casa de Flávia, minha colega de classe que mora a menos de um quarteirão de casa, para ver que tarefas de casa a professora havia passado para o dia seguinte. Para minha surpresa, ela já havia feito as lições... “Que rápida”, pensei, pois normalmente levo quase a tarde inteira para terminar minhas lições de escola. Aproveitei a situação e copiei tudo dela: perguntas e respostas. Meu pai esperou em silêncio que eu terminasse tudo. Quando chegamos em casa ele me disse: “ - Você viu como a lição da Flávia está feia e sem capricho? Você pode fazer melhor que aquilo.” Enquanto falava comigo, arrancou a folha do caderno em que eu havia copiado a lição e me pediu para fazer tudo de novo, mas caprichando na letra, fazendo os parágrafos certos, não saindo da margem e usando caneta vermelha para grifar... “ – A professora vai notar que sua lição é mais bem feita... – A vida é dura e vencerão os melhores. Você deve se esforçar para fazer o melhor possível.” Minha mãe concordou com meu pai. Assim que ele saiu para o trabalho, recomecei a fazer a lição, que me tomou um bom tempo da tarde. Quando ele chegou, conferiu tudo que eu havia feito. Mostrou que estava satisfeito com meu trabalho, sugeriu que eu arrumasse um detalhe e, finalmente, eu fiquei livre da tarefa."
Comecei a pensar sobre cada detalhe da narrativa de Júnior e sistematizei o que o pai fez com ele na forma de itens. Assim:
1. O pai estabeleceu um padrão com critérios de qualidade de desempenho mínimo para Júnior: abaixo de determinado nível não estava bom, não servia;
2. O critério de desempenho para o comportamento ser aprovado pelo pai era arbitrário, definido por ele, sem referência externa objetiva, pela qual Júnior pudesse se guiar. Assim, por exemplo, a uma questão “Quanto é 12+10?”, a resposta correta não dependia de critérios do pai. Já, completamente diferente, era atender aos pedidos de “letra bonita”, “lição bem feita”, “grifar em vermelho os aspectos mais relevantes”, para os quais Júnior dependia da aprovação do pai. Não é de estranhar, portanto, que Júnior ocupasse longos períodos da tarde fazendo a tarefa que, para espanto dele, Flávia faria em meia hora. Ele tinha que escrever, apagar, escrever novamente até a letra ficar “bonita” e somente teria certeza de que havia atendido aos critérios de desempenho estabelecidos pelo pai quando este chegasse em casa à noitinha e lhe desse a aprovação. Pode-se dizer que Júnior fazia tarefas inserido num paradigma de fuga-esquiva, no qual o comportamento de fuga-esquiva era fazer letra “bonita” e, assim, evitar conseqüências aversivas, tais como crítica do pai, refazer a lição etc. Nessa condição, os sentimentos experimentados eram de ansiedade, até ocorrer o reforçamento negativo com a chegada do pai e aprovação dele pela tarefa feita;
3. O pai valorizou o bom desempenho de Júnior com elogios, aprovação etc., mas o elogio sinalizou, ao mesmo tempo, que o produto acadêmico do filho deixara de estar ruim. Vamos esclarecer melhor este ponto. O elogio poderia ter dupla função: a. fortalecer o “bom” desempenho do filho e, neste caso, o pai estaria usando um procedimento com função de reforçamento positivo; b. sinalizar para o filho que estava livre da crítica, de ter que refazer a lição etc. e, nesta alternativa, o pai estaria usando um procedimento com função de reforçamento negativo. Como ambos os procedimentos fortalecem o comportamento, não é possível concluir qual a real função do elogio, a partir do repertório comportamental de Júnior exclusivamente. O que o mantinha fazendo lição, diariamente, por longos períodos, em detrimento inclusive de se engajar em atividades que lhe eram reforçadoras? (Ele disse que gostaria de “poder terminar a lição logo e ir brincar, mas não dava para fazer isso porque as lições demoravam muito tempo”... Tal frase sugere a operação de reforçamento.) Há, porém, outros critérios em que se basear. Assim, por exemplo, o reforçamento negativo produz, mais freqüentemente, estereotipia de comportamento, enquanto que o reforçamento positivo, por sua vez, produz maior variabilidade comportamental. Mas, no caso de Júnior, a estereotipia tanto poderia ser produzida por reforçamento negativo como positivo (reforçamento diferencial de padrões específicos e similares de respostas). O critério que usei foi questionar que tipo de sentimentos Júnior vivenciava durante as tarefas e com a chegada do pai. Disse-me que ficava pensando se o pai iria gostar ou não do que ele estava fazendo e caprichava o mais que podia. Tinha medo de que não gostasse e ficasse triste, mas, quando o pai elogiava, sentia um grande alívio. É interessante salientar que é difícil diferenciar alívio (pela remoção de uma condição aversiva, ou seja, reforçamento negativo), de prazer (pela apresentação de uma conseqüência social positiva, ou seja, reforçamento positivo), a menos que se conheça a contingência de reforçamento que está em operação. Júnior, em função de evidências acidentais que se seguirão no texto, estava sob controle de contingências coercitivas produzidas pelo pai. Pode-se concluir que o elogio, quanto à forma, é um reforço positivo generalizado e, quanto à função, é um estímulo que sinaliza o sucesso do comportamento de fuga-esquiva;
4. O comportamento do pai levou o filho a gerar um produto que tinha grande probabilidade de ser valorizado pela professora. Os comentários dela sobre a tarefa, as notas etc. apoiavam a argumentação do pai de que era importante fazer “bem feito”; não bastava fazer corretamente e de maneira completa. Júnior não emitia comportamentos diferenciados e não mostrava variabilidade, que seriam as maneiras de testar a arbitrariedade de alguns dos critérios do pai. Por exemplo, ele poderia tirar a mesma nota com letra “bonita” ou com letra “menos que bonita”. O comportamento estereotipado de Júnior não lhe permitiu testar que conseqüências outro comportamento da mesma classe de comportamento acadêmico correto produziria. Aliás, a atuação da mãe, aprovando as orientações do pai, impediu que Júnior apresentasse variabilidade comportamental, pois ela, similarmente à professora, não conseqüenciava diferencialmente, nem apresentava estímulos evocadores (SDs) diferentes;
5. O pai não ficava sob controle dos sentimentos que os procedimentos que utilizava geravam em Júnior. Embora atuasse pelo “bem do filho”, como o próprio Júnior reconhece (“Meu pai quer o melhor para mim”), o pai usou contingências coercitivas. Assim, os sentimentos de Júnior poderiam ser resumidos da seguinte forma: antes da avaliação da tarefa, feita pelo pai, Júnior estava ansioso (antecipava a possibilidade da crítica); depois da avaliação, estava aliviado (safou-se da crítica) e, adicionalmente, sentia-se satisfeito (foi bem sucedido na sua tarefa). Infelizmente, prevaleceram as contingências aversivas;
6. O pai manteve o filho sob a ameaça de conseqüências aversivas (crítica, decepção etc.), mas, em função do desempenho acadêmico eficiente, Júnior não produziu críticas vindas do pai, mas sim elogios. Numa linguagem mais precisa, pode-se dizer que o comportamento de fuga-esquiva foi eficiente, a tal ponto que Júnior não entrou em contato com a condição aversiva, o que dificultou a conscientização das contingências coercitivas que controlaram os comportamentos que emitiu, uma vez que produziram elogios e não críticas. É importante salientar que aquilo que controla o comportamento não é o evento isolado (elogio ou crítica), mas a inter-relação entre comportamento e ambiente, expressa na forma de contingências de reforçamento. Frases do tipo “Meu pai elogiava muito minhas tarefas”, “Meu pai nunca bateu em mim, nem me pôs de castigo”, “Meu pai era calmo comigo, apesar de ser exigente” etc. dão mais indícios sobre a eficiência dos comportamentos de fuga-esquiva de Júnior, do que sobre a ausência de contingências de reforçamento coercitivas em operação, manejadas pelo pai. Quando a pessoa não conhece as contingências às quais vem respondendo, não consegue exercer contracontrole, isto é, não se comporta de maneira a alterar tais contingências. Simplesmente responde a elas, já que não é necessário conhecer (no sentido de ser capaz de descrevê-la) uma contingência para ficar sob controle da função que ela exerce (Skinner, 1993): “Não precisamos descrever as contingências de reforço a fim de sermos afetados por elas.” (p. 111).
Por outro lado, pode-se fazer uma série de comentários sobre o que ocorreu com Júnior. Assim:
1. Ficou sob controle da exigência do pai de que não era suficiente simplesmente fazer certo, mas havia necessidade de fazer algo a mais. Cabe, então, a questão: onde Júnior poderia identificar o critério de que atingiu tal algo a mais na ausência do pai?
2. Desenvolveu elaborada e, provavelmente, exagerada habilidade de observação do próprio comportamento, a fim de estabelecer critérios – também arbitrários, agora elaborados por ele mesmo – de adequacidade. Tal condição pode produzir característica de perfeccionismo, em que o mais que perfeito ainda é imperfeito. O perfeccionismo pode ser entendido como formas elaboradas de comportamento ou encadeamento de respostas, que incluem elos desnecessários para produzir reforço e que, como tal, atrasam e dificultam o acesso a ele; produzem também, desgastes físicos no organismo e sentimentos adversos, produtos típicos de contingências de reforçamento aversivas ou com baixa densidade de reforços positivos.
3. Desenvolveu elaborada e, provavelmente, exagerada habilidade de observação do comportamento do outro. É como se Júnior ficasse se perguntado: “Que comportamento meu será gratificante ou aversivo para o outro?” Ficar sob controle de conseqüências que os próprios comportamentos podem produzir no outro gera sentimentos de insegurança nas relações sociais, uma vez que é muito difícil prever que conseqüências virão. Sentimentos de segurança são produzidos por contingências em que a relação entre o comportamento emitido e a conseqüência que ele produz é previsível e controlável. No caso de Júnior, a função que os comportamentos do outro passa a ter para ele é mais importante que as conseqüências naturais dos comportamentos por ele emitidos. “Não importa o que é reforçador para mim, mas o que é reforçador para o outro”, ou seja, “Devo emitir comportamentos que produzem reforços para o outro”. “Não importa o que é aversivo para mim, mas o que é aversivo para o outro”, ou seja, “Devo emitir comportamentos que evitam estímulos aversivos para o outro”.
4. Desenvolveu excessos e déficits na área dos sentimentos. Sentimentos são produtos de contingências e não causa de comportamentos (Skinner,1989a; Skinner, 1989b; Guilhardi, 2002; Guilhardi, 2004). Se forem examinadas as contingências de reforçamento que têm prevalecido na vida de Júnior, pode-se compreender algo sobre os sentimentos que, provavelmente, estão mais presentes. Assim, caso se queira manter a terminologia usualmente empregada para nomear sentimentos, pode-se dizer que Júnior:
a. Apresenta baixa autoestima. Faz-se necessário esclarecer o que tal frase significa. O eu do qual eu gosto é produto de uma história de contingências de reforçamento em que a pessoa foi conseqüenciada com afeto, atenção, carinho etc., reforços sociais dados pelo outro, sem que este outro tenha estado sob controle, ao reforçar positivamente, das contingências em operação. Ou seja, além de consequenciar comportamentos desejados, o outro propicia reforços “livres”, isto é, contingentes a quaisquer comportamentos (eventualmente, em casos particulares, até a indesejados). Note que é essencial que haja reforços sociais positivos liberados sob controle de comportamentos desejados (por aquele que reforça), mas também sob controle de quaisquer comportamentos (aquele que reforça não está sob controle de comportamento específico do outro). Embora possa parecer uma contravenção conceitual, pode-se dizer que aquele que libera o reforço reforça a pessoa, dá afeto para o outro, não para comportamentos específicos (precisamente, reforça positivamente sem ficar sob controle das contingências correntes). Embora se esteja discorrendo sobre os sentimentos de autoestima, faz-se necessário deixar claro que sentimentos não causam comportamentos. Tanto sentimentos quanto comportamentos são produtos das contingências de reforçamento; como tal, o que realmente importa é detectar as contingências de reforçamento que operaram preferencialmente durante a história de desenvolvimento da pessoa e as que estão operando presentemente. Quando se diz que Júnior apresenta baixa autoestima, mais importante do que tal baixa autoestima (sentimento adverso) é detectar a carência de contingências amenas de reforçamento positivo de natureza social a que Júnior foi e vem sendo exposto; (Os mesmos esclarecimentos cabem aos itens b a e que se seguem.)
b. Apresenta exagerado sentimento de responsabilidade. O eu responsável é produto de uma história de contingências de reforçamento com conseqüências aversivas. Júnior foi amplamente exposto a contingências coercitivas, embora poucas vezes tenha entrado em contato com as conseqüências aversivas, por causa da riqueza de repertório de fuga-esquiva. Da mesma maneira que o exposto no item a acima, mais importante do que o exagerado sentimento de responsabilidade (sentimento adverso) é a predominância de contingências coercitivas, que controlaram e que vêm controlando a maior parte do repertório comportamental de Júnior e alterar tais contingências;
c. Apresenta alto grau de racionalidade. O eu racional é produto de uma história de contingências de reforçamento em que o comportamento é, basicamente, governado por regras (descrições de contingências feitas pelos outros) ou de auto-regras (descrições de contingências feitas por ele próprio). Tanto as regras, como as auto-regras, diferem das contingências naturais e podem tornar a pessoa alienada das reais conseqüências do comportamento, uma vez que as regras e auto-regras podem ser equivocadas (não descreverem contingências reais) e nunca são descrições completas das contingências reais. Novamente, mais importante do que dizer que Júnior é exageradamente racional (sentimento adverso), é detectar que ele tem o repertório de comportamentos amplamente governado por regras e auto-regras e, como tal, apresenta pouca sensibilidade às conseqüências naturais dos comportamentos emitidos. Diante disso, faz-se necessário alterar tais relações de controle do comportamento: responder menos a regras e mais às conseqüências do comportamento;
d. Apresenta sentimentos de autoconfiança. O eu confiante é produto de uma história de contingências de reforçamento em que os comportamentos são reforçados. Quando o comportamento é emitido e é funcionalmente bem-sucedido, surge o sentimento de autoconfiança. O reforçamento positivo fortalece comportamento de encontro, aquele que produz reforçamento positivo; o reforçamento negativo fortalece comportamento de fuga-esquiva, aquele que pospõe ou remove reforço negativo. Em ambos os casos ocorrem sentimentos de autoconfiança, porém estes estão associados a outros sentimentos: se estão em operação contingências de reforçamento positivo, também surgem sentimentos de satisfação, prazer etc.; se estão em operação contingências de reforçamento negativo, também surgem sentimentos de ansiedade, preocupação, medo etc. Qualquer sentimento enunciado não ocorre isoladamente, pois nunca está em operação uma única contingência de reforçamento. Apenas para fins didáticos, fala-se em baixa autoestima, elevada autoconfiança etc., pois o ser humano é o locus de ocorrência de inúmeros comportamentos e sentimentos em interação. Os sentimentos de autoconfiança de Júnior (desejados) estão intimamente associados a sentimentos de ansiedade (indesejados), uma vez que prevalecem contingências coercitivas e os sentimentos de autoconfiança foram gerados por reforçamento negativo, em detrimento de reforços positivos. Assim, mais importante do que afirmar que Júnior tem sentimentos de autoconfiança (o que é desejado) é identificar que ele tem o repertório mantido basicamente por reforçamento negativo (o que é indesejado) e reduzir o papel do reforçamento negativo na vida dele; mais importante do que descrever que Júnior tem um eficiente repertório de fuga-esquiva (que se associa ao sentimento de autoconfiança) é reconhecer a ausência de um repertório de contracontrole, que poderia alterar a prevalência do controle aversivo e substituí-lo por controle positivo (tal ausência de repertório é indesejável). (Faço, arbitrariamente, uma distinção entre repertório de fuga-esquiva – aquele composto por comportamentos que adiam ou removem, temporariamente, reforços negativos ou eventos aversivos – e repertório de contracontrole – aquele composto por comportamentos que removem as contingências coercitivas em operação –, ou seja, no contracontrole, o comportamento do controlado altera o comportamento do controlador, em benefício do controlado e, se possível, de ambos.);
e. Apresenta alta tolerância à frustração. A frustração é um sentimento produzido por contingências adversas, tais como contingências coercitivas, procedimentos de extinção ou com baixa densidade de reforço positivo, sem, no entanto, perturbar, nem deteriorar o repertório geral da pessoa, pois tal perturbação pode interferir na emissão de outros comportamentos que produzem reforços positivos ou evitam reforços negativos. A melhor maneira de desenvolver a (necessária) tolerância à frustração é expor a pessoa a condições adversas de maneira gradual e progressiva (já que é impossível viver sem ter contato com contingências aversivas). A exposição a contingências adversas deve incluir, porém, as seguintes possibilidades: tolerar aquilo que não pode ser evitado, sem deteriorar o repertório comportamental mais amplo; emitir comportamentos de fuga-esquiva quando a condição aversiva puder ser por eles, temporariamente, removida ou adiada; emitir comportamentos de contracontrole, quando tais comportamentos puderem eliminar as contingências adversas. Mais importante do que destacar que Júnior tem alta tolerância à frustração é reconhecer que as contingências manejadas pelo pai e pela mãe não lhe permitiram discriminar que vinha e vem respondendo a controle coercitivo e, menos ainda, exercer qualquer grau de contracontrole. Júnior aprendeu apenas a tolerar ou a se esquivar do controle coercitivo, não a removê-lo de vez. Apresentar tolerância à frustração é desejável, num mundo repleto de controles aversivos e de árduo acesso a reforçadores positivos; a tolerância exagerada, porém, leva à alienação ou à aceitação resignada da realidade, sem movimentos de transformação. A pessoa, neste caso, se torna dependente, sem iniciativa e deprimida;
5. Foi exposto mais a contingências que produziram sentimentos de ansiedade-alívio (reforçamento negativo) do que sentimentos de expectativa positiva – satisfação (reforçamento positivo).
6. Generalizou a visão de mundo e o repertório de comportamentos e sentimentos para outras áreas de atuação humana, além da estritamente acadêmica. O exemplo da lição de casa foi apenas uma ilustração, dentre muitas outras, em diferentes contextos, dos mecanismos comportamentais que vêm operando nas interações entre Júnior e o pai.
Pode-se dizer que existem contingências de reforçamento matriciais que prevaleceram durante o desenvolvimento comportamental. Tais contingências se caracterizaram por: a. prevalência de contingências coercitivas apresentadas pelo pai (paradigma de fuga-esquiva); b. repertório de fuga-esquiva eficaz, que protegeu Júnior de entrar em contato com as conseqüências aversivas; c. consequências com fenótipo (não necessariamente com função) de reforçamento positivo social generalizado (elogio, aprovação etc.), contingentes aos comportamentos de fuga-esquiva, liberadas pelo pai, professora etc.; d. ausência de contingências de reforçamento positivo concorrentes, provenientes de outras pessoas relevantes do meio social de Júnior (por exemplo, da mãe), que permitissem a ele discriminar entre a operaçào de contingências coercitivas ou reforçadoras positivas; e. repertório de comportamento extensamente governado por regras e pouco modelado por conseqüências naturais.
Júnior narrou outros episódios da rotina de vida, que têm semelhanças funcionais com a tarefa escolar. Assim:
"Acertamos um jogo de futebol contra o time do bairro vizinho. Eu estava muito empolgado com a partida. Tinha certeza que marcaria algum gol, até sonhava com isso e com nossa vitória. Conversamos entre nós e até inventamos um uniforme: era azul, pois todos do grupo tinham uma camiseta dessa cor. Nem me lembrei que meu pai havia me proibido de ir jogar do lado de lá do córrego que separava os bairros. Ele sempre me dizia: “A gente conhece todo mundo aqui; lá não. É perigoso.” Eu tinha isso na cabeça, mas fui em frente... até o dia do jogo. Nos reunimos no lugar de sempre e saímos para jogar. Fui me sentindo cada vez pior: se for jogar, meu pai não vai gostar; mas eu quero ir, sou artilheiro do time, todos contam comigo e eu adoro jogar. Fui ficando estranho até que, quando chegamos no córrego, eu disse que não estava bem e precisava ir correndo para casa. Senti-me envergonhado com a minha “mancada”, derrotado, mas não joguei. Meu pai nunca soube dessa história. Aliás, não contei para ninguém."
O episódio do jogo deixa ainda mais claro que Júnior abriu mão de produzir um reforçador natural forte para ele – jogar futebol –, em favor da remoção de um reforçador negativo arbitrário – a repreensão do pai. Trata-se de um exemplo de comportamento governado por regras e não selecionado pelas conseqüências, aliás, padrão típico de Júnior se comportar.
Que menino triste e competente!, pensei. Se nada for feito por ele, que será de seu futuro? Não me preocupo com a vida profissional que escolherá. Dará certo na profissão. No entanto, viverá às custas de quantos e quais sofrimentos?
Atendi normalmente no meu consultório, pela manhã. São 12:15h e recebi há pouco um telefonema do meu amigo, Dr. Valmir, médico psiquiatra com quem atendo, há anos, vários casos em comum. “Preciso que você veja uma pessoa muito especial”, me disse. “Se possível ainda hoje, pois acabo de vê-lo e vem de fora... ficaria difícil para ele voltar para Campinas mais uma vez nesta semana. Não queria que ele esperasse até a próxima...” Assim, às 14 horas de uma quinta feira, no ano de 2000, recebi Eduardo, encaminhado pelo Dr. Valmir.
Eduardo, 60 anos, casado, pai de dois filhos, profissional liberal bem-sucedido, entrou na minha sala com gestos tranqüilos e uma aproximação cativante. Ocorreu-me, no primeiro contato, uma frase: – Estou diante de um homem triste...
Ele começou a falar sobre as dificuldades que o levaram até o Dr. Valmir:
E – Tenho pensamentos que me perseguem o tempo todo e estão atrapalhando a minha
vida: interferem no meu trabalho, durmo mal, acordo no meio da noite, atormentado por tais pensamentos, têm interferido com minha alimentação, perdi peso...
T – Quais são os pensamentos?
E – O que as pessoas estão pensando de mim? O que posso ter feito de errado com elas? Estranho as expressões dos seus rostos. O menor sinal vindo delas é para mim uma condenação: se atravessam a rua, se não sorriem pra mim... qualquer coisa desencadeia meus pensamentos. Aí penso: como posso reparar um possível mal que lhes tenha feito. Tenho consciência, às vezes, que posso estar exagerando, mas mesmo assim os pensamentos não me saem da cabeça.
T – Tais pensamentos podem ser desencadeados por desconhecidos?
E – Por qualquer pessoa.
T – Existe algum evento específico que dá início aos pensamentos?
E – Não. Em geral é assim, um detalhe qualquer que percebo na pessoa... Mas, outras vezes, posso simplesmente me lembrar – sem nada presente que me desperte para isso – de uma das cenas que já “encuquei” e aí não me desligo mais dela. Pode durar horas. Tento não interromper o que estou fazendo, mas não adianta. Se estiver trabalhando com um paciente, não paro, mas fico perturbado e procuro acabar o mais rápido que posso. O que atrapalha mais, é que isso tudo me causa muito sofrimento e não sei como parar de pensar. É mais forte que a lógica... penso que deve ser tudo da minha cabeça, mas não adianta.
T – Uma cena...
E – Sim. Imagino que uma pessoa está magoada comigo sem que eu saiba o porquê. Vem do nada, me invade, fico elaborando detalhes mórbidos e o sofrimento parece não ter fim...
E – Não é só isso, porém. Tenho excessiva preocupação com o bem-estar de minha mulher e de meus filhos. Pensava que, quando eles crescessem, eu iria ficar mais aliviado. Que nada! Preocupo-me com o emprego deles, como estão no casamento... Agora mesmo o meu genro pediu demissão do emprego. Sofro mais que ele! Não adianta minha filha dizer que o João é assim mesmo, que se vira. “Pai, daqui a pouco ele está trabalhando e você se torturou à toa...” Sou mais preocupado com a situação dela que ela própria. E, na prática, ninguém depende de mim financeiramente, em nada. Cada um leva sua vida.
E - Sou muito preocupado com o futuro, com o rumo que as coisas estão tomando no mundo, com a violência. Por isso tudo, não saio à noite de casa. Evito sair. Se vou a alguma festa, ou restaurante, primeiro tenho que me certificar se existe no local estacionamento próprio, se tem guarda... Fica tão complicado que acabo cancelando tudo.
E - Não tomo remédio. Tenho pavor dos efeitos colaterais. O Dr. Valmir me receitou antidepressivo e ansiolítico, mas deixei claro que não ia tomar nada... Sou muito preocupado com essas coisas. Prefiro uma solução mais natural: tenho uma vida regrada, pratico esporte (ando e corro moderadamente), mantenho uma alimentação equilibrada. Foi por isso que ele me mandou fazer terapia. Disse que, como médico, não tinha nada para fazer comigo.
E – Tenho, de tempos em tempos, umas crises, uns sintomas no corpo que me incomodam. Chego a pensar que eu crio tudo, mas só penso nisso depois que os sintomas desaparecem...
T – Desaparecem?
E – Sim. Como eles vêm, eles vão. Enquanto estou com o sintoma, tenho certeza que é real. Procuro especialistas, pesquiso tudo que encontro a respeito, não me desligo. E sempre penso que é o pior. Agora mesmo tenho uma coisa que me incomoda na garganta. Já procurei três médicos. Não chegaram a um diagnóstico. Ficam receitando antiinflamatório, antibiótico. Percebo que ficam em dúvida sobre o que fazer... Acabam receitando... Não tomo nada... Fico pensando o pior: pode ser o início de um mal grave? Pode virar tumor? (Durante o processo terapêutico a dor de garganta foi substituída por dor na coluna cervical, início de diabetes, dores no joelho, zumbido no ouvido... A cada novo sintoma, Eduardo se estendia, detalhadamente, descrevendo os médicos que havia consultado, os exames que havia feito, sempre com dados inconclusivos, jamais tomando remédios, com períodos de melhora espontânea, seguidos de fases piores, até mudar de queixa.).
E – Sou completamente incapaz de relaxar, mesmo em fins de semana ou nas férias. Sempre estou preocupado com alguma coisa ou com alguém. Aparentemente, sou calmo, não deixo transparecer minha ansiedade, mas só eu sei como vivo por dentro.
E – Só estou tranquilo no trabalho. Tenho consciência de que faço um bom trabalho, sou valorizado pelos clientes, pelos colegas de profissão, sou convidado para dar aulas e me sinto à vontade e muito satisfeito nessa parte. Tenho preocupações normais da profissão.
Senti-me tocado pelo sofrimento do Eduardo e impotente para propor de imediato quaisquer procedimentos terapêuticos. Dr. Valmir o diagnosticou como uma pessoa depressiva e portadora de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Eu identifiquei a depressão, mas o transtorno obsessivo-compulsivo não era típico. Havia clara preponderância de obsessões e não havia compulsões sistemáticas, com a função de reduzir, temporariamente, os sentimentos aversivos que, tipicamente, acompanham as obsessões. Eduardo apresentava comportamentos de fuga-esquiva em relação às pessoas, se isolando em casa (exceto para as atividades profissionais). Ao se esquivar de pessoas, diminuia fatores sociais, desencadeantes das obsessões (embora existissem episódios obsessivos a partir de lembranças ou imagens vivenciadas por ele). Ao fugir das pessoas, após as obsessões terem sido acionadas por algum encontro social, o grau de aversividade produzido pela manutenção do contato social diminuia (embora o seu afastamento da pessoa não alterasse, de imediato, as obsessões). A mera repetição das obsessões produzia um grau intenso de sentimentos aversivos, que ia diminuindo gradualmente, como se as obsessões sofressem um processo de extinção respondente e operante. Respondente, uma vez que o pensamento obsessivo (CS) não era associado com a crítica ou a desaprovação social (US); operante, porque o pensamento obsessivo não era reforçado por nenhuma conseqüência social identificável. Incapacitado, até este momento, de compreender os mecanismos comportamentais subjacentes à queixa de obsessão, pensei que um caminho possível era conhecer a história de contingências de Eduardo.
Estava interessado em saber como foram modelados e selecionados os primeiros padrões comportamentais na infância, com funções análogas ou equivalentes aos padrões indesejados no presente. Classifiquei os padrões comportamentais da queixa como respostas de fuga-esquiva, que evitavam ou removiam conseqüências aversivas, e abandonei a classificação topográfica de TOC. É importante esclarecer que as conseqüências tinham para Eduardo funções aversivas, embora pudessem não ter tais funções para outras pessoas. A função dos eventos é adquirida na história de contingências a que a pessoa foi exposta, e tais funções permanecem enquanto não forem mudadas através de novas contingências. O passado tem relevância no presente, enquanto as funções dos eventos, adquiridas no passado, se mantiverem as mesmas no presente. Em outras palavras, o passado é simplesmente o momento em que as funções dos eventos comportamentais se instalaram. Só existe função atual dos estímulos, no presente. Assim, os comportamentos atuais não são determinados pelo passado, mas sim pelas funções presentes dos estímulos, adquiridas no passado, mas – o que é relevante –mantidas, até o presente momento, pelas contingências de reforçamento que estão atuando agora (Guilhardi, 2004). Por exemplo, o mesmo evento (luz) pode ter função de SD para um sujeito experimental, se, na presença dessa luz, uma resposta emitida foi reforçada positivamente e, na ausência dela, a mesma resposta foi submetida ao procedimento de extinção. Ou pode ter a função de estímulo pré-aversivo ou aversivo condicionado para outro sujeito experimental, caso a luz tenha sido associada à apresentação de um choque elétrico intenso, inevitável ou não. Mudem-se as contingências no presente e as funções da luz podem ser invertidas para os sujeitos experimentais, desde que, com alguma engenhosidade nos procedimentos, as contingências de reforçamento também sejam invertidas.
Os comportamentos de esquiva são difíceis de serem extintos, pois o que os mantêm é exatamente produzirem como conseqüência, quando ocorre a resposta, a não apresentação do estímulo aversivo. Ou, por estranho que possa parecer, até mesmo quando a resposta produz o estímulo aversivo. Pode-se afirmar, nestes casos, que não é o comportamento que é atípico, mas as condições que o produzem. Nas palavras de Kelleher, Riddle e Cook (1963):
“Os níveis significativos de comportamento foram mantidos tão somente pela liberação intermitente de choque elétrico inevitável. Comportamento que persiste por causa da ocorrência repetida de um estímulo aversivo inevitável pode ser classificado como anormal. No presente experimento, todos os sujeitos apresentaram tal comportamento anormal e, presumivelmente, os resultados poderiam ser replicados com outros macacos. Uma vez que o comportamento anormal é uma ocorrência normal sob estas condições, são as condições experimentais que são anormais. Até o ponto em que os aspectos essenciais destas condições experimentais possam ser especificados, o comportamento anormal pode ser entendido e controlado.” (p. 517).
Kelleher et al. (1963) concluiram:
“Com base nos resultados apresentados, bem como no de outros pesquisadores, parece que uma história de condicionamento de esquiva contínua é suficiente para estabelecer os efeitos não usuais de choques subseqüentes inevitáveis.” (p. 517)
De maneira cautelosa, Kelleher et al. (1963) sugeriram uma possibilidade para explicar tal fenômeno comportamental: “Parece que os aumentos paradoxais nas respostas, que são gerados e mantidos por choques inevitáveis, são exemplos de condicionamento supersticioso de esquiva.” (p. 516).
Catania resumiu os procedimentos e os dados de Morse e Kelleher (1966), que avaliaram, em experimentos nos quais fugas foram explicitamente esquematizadas, a possibilidade considerada por Kelleher et al. (1963) de que comportamento pode ser mantido, quando respostas são seguidas por estímulos aversivos, pela coincidência acidental entre a emissão do comportamento e o término de estímulos aversivos e pré-aversivos, ou seja, trata-se de comportamento supersticioso de fuga. Assim, Catania (1968):
“Por exemplo, se esquema de fuga for planejado para macacos, de tal maneira que o choque é apresentado a intervalos de 10 min e é encerrado pela primeira resposta do sujeito experimental, o macaco não espera até o choque ser apresentado para responder. Ao invés disso, ele começa a responder mais cedo, e a freqüência de respostas aumenta até que o choque é apresentado e, então, eliminado. O desempenho é muito parecido com aquele mantido por esquema de intervalo fixo usando reforço positivo, mas é estabelecido com reforço negativo. Um observador desinformado, que observa o macaco respondendo mais e mais rapidamente até o aparecimento do choque, pode assumir, erroneamente, que as respostas estão sendo mantidas pela apresentação e não pela eliminação do choque.”(p.265). [...] “O fato de que o responder é mantido, mesmo quando o choque é produzido pelas respostas, ao invés de apresentado independentemente das respostas, não significa que o choque deve ser considerado um reforçador (positivo). Outros procedimentos demonstram que os mesmos níveis do choque são eventos punitivos para macacos.” (p. 266).
São oportunos alguns comentários, a respeito da função dos dados e procedimentos de laboratório experimental com sujeitos infra-humanos, para a prática clínica com humanos. Segundo Skinner (1993):
“Obviamente, não podemos predizer ou controlar o comportamento humano na vida diária, com a precisão alcançada em laboratório, mas podemos, no entanto, usar resultados obtidos no laboratório para interpretar o comportamento alhures. Tal interpretação do comportamento humano na vida diária tem sido criticada como metaciência, mas todas as ciências recorrem a algo semelhante.” (...) “As pessoas familiarizadas com pesquisas de laboratório terão melhores condições para procurar as coisas importantes e saberão a respeito de que coisas indagar; terão melhor compreensão daquilo que estão vendo. É por essa razão que podem interpretar mais acuradamente a vida cotidiana. A análise de laboratório torna possível identificar variáveis relevantes e desprezar outras que, embora possivelmente mais fascinantes, têm, entretanto, pouca ou nenhuma relação com o comportamento em observação. Muitos dos progressos tecnológicos derivados do estudo do comportamento operante beneficiaram-se dessa espécie de interpretação”. (pp.194-195).
A complexidade de interpretação dos dados experimentais com procedimentos que empregam contingências aversivas (fuga, esquiva, punição) e contingências aversivas interagindo com contingências reforcadoras positivas (ver, por exemplo, Azrin, 1959) mostra que a única possibilidade de compreender tais dados é conhecer a inter-relação entre as contingências em operação. Baseado em tais evidências, foi que achei essencial mergulhar na história de contingências a que Eduardo foi submetido. Estava interessado nas contingências de reforçamento que operaram na vida do cliente e não no relato atual das funções de estímulos feito por ele. Veja as respostas de Eduardo às minhas questões:
T – Quem foi a pessoa mais significativa em sua vida?
E – Com certeza, meu pai.
T – Você foi punido por ele?
E – Nunca. Nem sequer erguia a voz comigo.
T – Era carinhoso com você?
E – Muito, com palavras. Não era de me tocar, fazer carinhos. Era calmo, me explicava tudo com paciência – mesmo quando estava exausto –, pois trabalhava em dois empregos para sustentar a casa.
T – Era presente...
E – Sempre. Sabia tudo o que eu fazia. Conferia minhas lições e me ajudava nas tarefas, perguntava por onde eu havia andado durante o dia, controlava o que eu comia, me incentivava para praticar esportes, todo domingo me levava à feira, lá comíamos pastéis, fazia tudo pelo meu bem.
E – Se tivesse que dizer alguma coisa: era muito exigente. Consigo mesmo, também. Um perfeccionista em tudo que fazia.
T – Que sentimentos você tem por ele hoje?
E – De muito amor. Ele viveu para a família e como sou filho único, toda a sua dedicação era para mim. Tenho ainda hoje saudades dele.
E – Era igual com minha mãe. Se davam muito bem. Nunca os vi brigando.
A partir das respostas de Eduardo, pode-se concluir que descreve o pai com amor (mais que as palavras transcritas acima, o modo de falar sobre o pai deixou muito claro os sentimentos carinhosos que tinha por ele). Eu, porém, estava interessado em conhecer as contingências de reforçamento que prevaleceram na vida do cliente. Os comportamentos e sentimentos são função das contingências de reforçamento em operação, quer se tenha conhecimento (consciência) ou não delas, ou seja, quer se consiga descrevê-las ou não. Os estudos experimentais, repito, vêm revelando que não é a presença de um choque (evento usualmente tido como aversivo) ou de um elogio (evento usualmente tido como reforçador positivo) o que importa, mas as relações de contingências entre os eventos antecedentes, as ações do organismo e os eventos conseqüentes. Eu estava em busca de tais relações. Assim, como exemplo, um comportamento de esquiva, bem sucedido, evita o contato com o evento aversivo (é como se ele tivesse deixado de existir) e o sentimento que acompanha o reforçamento negativo é de alívio, que pode ser confundido – se as contingências que o produzem não forem diferenciadas – com prazer. Acrescente-se que a contingência de fuga-esquiva pode estar associada com conseqüências com características de reforço positivo social generalizado, temporalmente associadas com a mesma resposta de fuga-esquiva. Considere a seguinte situação: tirar nota alta numa prova evita a crítica (fuga-esquiva) e, ao mesmo tempo, produz elogio (que pode ter função de estímulo reforçador social generalizado). Tais associações de contingências são muito difíceis de serem diferenciadas pela pessoa e podem, enganosamente, levar à conclusão de que o comportamento de estudar e o produto comportamental, nota alta, são mantidos por reforço positivo, ao invés de reforço negativo.
Pedi a Eduardo que me narrasse fatos da infância dos quais se lembrasse. Não estava, basicamente, interessado em eventos que lhe contaram. Estava deixando para um segundo plano comportamentos intraverbais; estava mais interessado em tactos verbais genuínos. Meu objetivo era, a partir das verbalizações de Eduardo, compor contingências de reforçamento que operaram durante a infância e tentar encontrar alguma regularidade nos controles de comportamento a que foi submetido.
“A coleção de fatos é apenas um primeiro passo em uma análise científica. Demonstrar as relações funcionais, um segundo. Quando as variáveis independentes estão sob controle, tais relações levam diretamente ao controle da variável dependente. No caso presente, controle significa terapia... Os passos que devem ser dados para corrigir uma determinada condição de comportamento seguem-se diretamente de uma análise dessa condição. Se podem ser efetivadas depende, é claro, de se saber se o terapeuta tem controle sobre as variáveis relevantes”. (Skinner, 1967, p.208).
Como controle de estímulo adicional para evocar tactos verbais da infância, passei a chamá-lo, nas ocasiões em que narrava os episódios passados, de Júnior, como era chamado pelo pai. O início de meu relato no presente capítulo, de fato, começa neste ponto do processo terapêutico. Voltamos ao final da década de 40. Todos os fatos narrados nas primeiras páginas ocorreram entre 1948 e 1949... Estavam tão vivos na memória de Júnior e foram narrados com tantos detalhes e emoção, que me envolveram inteiramente. Parecia que eu estava assistindo a um filme. Os tatos verbais de Júnior eram perfeitos. E lá estavam as respostas para as minhas questões. As funções que os eventos da vida de Júnior adquiriram na infância estavam preservadas até hoje. O pai não existia mais fisicamente, mas os eventos sociais tinham para Júnior, até hoje, as mesmas funções que o pai lhes atribuiu. O pai não estava presente, mas as contingências às quais ele manejou, sim. Júnior se encarregou de mantê-las atuando em si mesmo.
Uma frase de Skinner (1967) mostra-se oportuna neste ponto do artigo:
“Seria difícil provar que todas essas manifestações sejam devidas à história de contingências punitivas (a que o cliente foi exposto durante seu desenvolvimento comportamental) . Mas são conseqüências plausíveis, levando-se em conta os controles aversivos descritos, e pode-se recorrer à história anterior, se não se encontrar outra variável que explique o comportamento. (Se o comportamento não tiver conexão com uma história como essa, ainda menos virá a ser explicado em uma análise científica).” (p.214)
Sabe-se que as contingências de reforçamento produzem estados corporais – emoções e sentimentos. Contingências coercitivas crônicas produzem estados corporais que podem prejudicar o estado de saúde corporal do indivíduo. Eduardo pode estar sob controle, quando relata os sintomas, de manifestações orgânicas produzidas pelas contingências às quais responde presentemente. A intensidade das reações e dos comportamentos sob controle dos estados corporais atuais, deve estar sob controle da história de contingências, basicamente regras formuladas pelo pai, que se tornaram auto-regras. Convém lembrar que Eduardo foi modelado a ficar sob controle de aspectos muito sutis do ambiente, como forma de evitar conseqüências aversivas e de obter ganhos sociais. É provável que tenha generalizado a capacidade de responder a sutilezas do ambiente físico e ao comportamento de outras pessoas, para manifestações igualmente sutis do funcionamento do próprio organismo. A citação seguinte de Skinner (1967) permite uma clara conceituação das queixas somáticas de Eduardo:
“Respostas emocionais freqüentes ou crônicas das glândulas e dos músculos lisos, podem prejudicar a saúde do indivíduo. Distúrbios do aparelho digestivo, incluindo úlceras, e reações alérgicas (o mesmo raciocínio se aplica a muitos outros sintomas) têm sido atribuídos a respostas de medo, ansiedade, raiva ou depressão. Algumas vezes, são denominadas doenças ‘psicossomáticas’. O termo acarreta a infeliz implicação de que a doença é efeito da mente sobre o corpo. Às vezes, é correto dizer que um estado emocional causa um distúrbio médico, como quando uma resposta crônica das glândulas ou músculos lisos produz uma mudança estrutural, como uma úlcera, mas tanto a causa como o efeito são somáticos, não psíquicos. Além disso, um dos primeiros elos da cadeia causal permanece sem identificação. O estado emocional que produz a doença deve ser explicado e tratado. As variáveis manipuláveis das quais, ambos, a causa somática e o efeito somático, são funções, permanecem na história ambiental do indivíduo. Alguns “sintomas” psicossomáticos são meramente efeitos paralelos de uma causa comum anterior. Por exemplo, um ataque asmático não é o efeito da ansiedade, é parte dela.” (p.205).
Permanece, no entanto, a questão sobre quais procedimentos terapêuticos poderiam ser adotados em favor do cliente. Nas palavras de Skinner (1967):
“O terapeuta, eventualmente, pode ‘ver o que está errado’ e ser capaz de sugerir um curso de ação corretiva; essa é a solução do problema. Hoje, a experiência terapêutica tem mostrado que, quando essa solução é proposta a um indivíduo, pode não ser eficiente, mesmo que, até onde saibamos, seja correta. Mas, se o paciente chega sozinho à solução, é muito mais provável que adote um curso de ação eficiente... ‘Achar uma solução’ não é terapia, não importando quem faz a descoberta. Contar ao paciente que ele está errado pode não trazer nenhuma mudança substancial nas variáveis independentes relevantes e, por isso, pode representar pouco progresso em direção à cura. Quando o próprio paciente vê que está errado, não é o fato de que a solução partiu dele que é importante, mas o que importa é que, para descobrir sua própria solução, seu comportamento, com relação ao problema, deve ser alterado enormemente... Uma solução que parte do sujeito representa assim um considerável grau de progresso... A terapia consiste não em levar o paciente a descobrir a solução para o seu problema, mas em mudar o paciente, de tal modo que ele seja capaz de descobri-la.” (pp. 215-216).
O procedimento terapêutico teve por objetivos, basicamente, levar Eduardo a conhecer que:
1. Prevaleceram contingências coercitivas no desenvolvimento de seu repertorio comportamental, a partir da interação que teve com o pai;
2. A maior parte do repertório comportamental que apresentou e vem apresentando é de fuga-esquiva;
3. Teve pouco contato com conseqüências aversivas, pela eficiência do repertório de comportamentos de fuga-esquiva que desenvolveu, mas as contingências que prevaleceram eram aversivas;
4. A maior parte do seu comportamento é governado por regras e que é pouco sensível às conseqüências naturais do comportamento;
5. Há necessidade de substituir auto-regras impróprias (que descrevem de modo incorreto ou exagerado as contingências sociais) por auto-regras descritivas das contingências sociais.
Os procedimentos consistiram em:
1. Fortalecer a relação entre o terapeuta e Eduardo, valorizando com comentários, elogios, as descrições das contingências que ele – saiba ou não – maneja, bem como os comportamentos adequados, como profissional, pai e marido;
2. Evitar todo e qualquer tipo de punição para comportamentos de queixa;
3. Evitar sugerir diretamente qualquer tipo de procedimento; os procedimentos deveriam ser propostos por ele, a partir das análises e comentários do terapeuta. Os procedimentos que o terapeuta usou para gerar as mudanças comportamentais com benefício terapêutico para Eduardo foram: fading in de análises progressivamente mais complexas; e reforçamento positivo diferencial para comportamentos por ele emitidos;
4. Evitar qualquer crítica aos comportamentos do pai;
5. Transformar os tactos, sobre as interações que teve com o pai, em descrições de contingências e de comportamentos e sentimentos que tais contingências produziram, sem expressar nenhum julgamento sobre adequacidade ou inadequacidade do pai;
6. Trazer o pai para a sessão – de maneira imaginária, como se estivéssemos os três presentes – e propor para o pai (mas, de fato, falando com Eduardo), alterações nos comportamentos do pai e dele. As questões eram dirigidas ao pai e em seguida o terapeuta perguntava: – O que você acha que seu pai responderia? – Você acha que ele compreenderia nossos argumentos? O cliente, sob controle do terapeuta, deveria emitir verbalizações como se fosse o pai, e a função que se pretendia é que o pai propusesse novas regras para o Júnior. Em suma, ao invés de o terapeuta corrigir auto-regras de Eduardo, o pai do Júnior lhe propunha novas regras que, se aceitas, se tornariam novas auto-regras para Eduardo. Veja alguns exemplos:
T – Eduardo (pai), se eu lhe dissesse que faria bem para seu filho ir jogar futebol além do riacho, pela importância que ele tinha para o time e pela felicidade que ele sentiria jogando, você o autorizaria a ir?
T – Júnior, o que você acha que seu pai me responderia?
J – Acho que ele era uma pessoa sensata e, ouvindo isso de um psicólogo, ele concordaria.
T – Eduardo (pai), você acha certo o que seu filho fez? Não lhe pediu para ir jogar e fez um papel feio com os amigos?
T – Júnior, o que você acha que seu pai me responderia?
J – Se ele tivesse me explicado tudo isso, eu o deixaria ir. Só recomendaria para não se afastar dos amigos e voltar pra casa assim que acabasse o jogo.
T – Eduardo (pai), se um psicólogo lhe dissesse que fazer as coisas com muita perfeição (correto sim; bonito nem tanto) causaria muita ansiedade no seu filho e que isso poderia tirar dele prazeres da vida (brincar, por exemplo), você concordaria em minimizar as exigências para o essencial?
T – Júnior, o que você acha que seu pai me responderia?
J – Eu queria o melhor para ele. Nunca pensei que o melhor tem um lado ruim. Eu me via no meu filho: queria que fosse correto e dedicado como eu era. Concordo que poderia ser menos exigente. Ninguém me alertou para isso.
T – Eduardo (pai), você não acha que ensinou seu filho a pensar exageradamente nos outros? Você não queria que ele magoasse ninguém, que dissesse ‘não’, que defendesse um ponto de vista próprio. Com isso ele acabaria se anulando. Enfrentar os outros com critérios justos e de forma cordial, embora firme, desenvolve pessoas assertivas, seguras etc.
T – Júnior, o que você acha que seu pai me responderia?
J – Pensava que, quando ele crescesse, ele mudaria. Nunca me ocorreu que, se desde pequeno eu ensinasse submissão, quando adulto ele seria submisso ou inseguro. Na verdade, queria que ele fosse educado, cordial; nunca me ocorreu que, ao tentar fazer uma coisa, eu acabasse por produzir outra. Eu próprio sempre fui autêntico e direto. Era isso que eu queria para meu filho.
Este procedimento se estendeu por inúmeros temas, nos quais a gênese das auto-regras de Júnior foi sendo compreendida por ele. O procedimento foi conduzido de tal maneira que Eduardo, o pai de Júnior – representado no papel de pai pelo próprio cliente durante as sessões –, foi concordando com a introdução de alterações nas relações que teve com o filho. Júnior e o pai, uma só pessoa, eram ouvintes do terapeuta e falantes para o terapeuta. O pai de Júnior (ou o próprio Júnior) foi alterando as regras que enunciou no passado – apresentou novas descrições de contingências, incorporando nelas as questões e sugestões do terapeuta –, as quais poderiam, a partir de então, ser transformadas por Júnior em novas auto-regras atuais. Tal procedimento foi sendo, progressivamente, alterado: o terapeuta e Eduardo passaram a dialogar diretamente sobre as regras que ele havia aprendido através da história de contingências a que foi exposto, excluindo o pai como agente intermediário (fading out do pai das sessões).
Do ponto de vista conceitual, os procedimentos descritos no item 6 envolveram um procedimento de fading out do controle do pai sobre Júnior, na formulação de novas regras, e fading in do controle do terapeuta sobre Júnior, na formulação de novas regras. O procedimento envolveu, portanto, o rompimento do controle do pai sobre o comportamento de Júnior (tal controle do pai permanecia presente ainda hoje, apesar de o pai ter morrido há mais de 10 anos, na forma de auto-regras presentes que governavam o comportamento de Júnior), sem romper a relação afetiva entre Eduardo Júnior e o pai.
Resultados
Eduardo ficou sob controle das descrições feitas pelo terapeuta e sobre as contingências que prevaleceram durante sua infância, nas inter-relações que teve com o pai. Apresentou, na sessão, novos exemplos de interações com o pai, nas quais os mesmos princípios comportamentais estavam atuando, mas agora sendo capaz de, por si mesmo, analisar a função dos eventos no contexto:
Todos os domingos – com chuva ou sol – íamos à feira. Uma atividade obrigatória era comer pastel. Meu pai me dizia: “Peça pastel de queijo. Não sabemos a qualidade da carne que eles usam. O pastel de palmito tem uma massa de farinha dentro, nem dá para saber onde está o palmito.” Eu, a vida inteira, só comi pastel de queijo. Ele nem precisava mais me dizer qual pastel pedir: Eu ia sozinho e pedia de queijo. O pior é que eu achava tudo certo e achava que eu gostava de pastel de queijo. Ele dizia: “Peça seu pastel.” E eu, sem hesitar, pedia de queijo. Eu me sentia escolhendo o que eu queria. Na verdade, sem perceber, era o que ele queria. Não me sentia obrigado a pedir o que pedia. Também não variava a escolha. Eu acreditava tanto nele, que só comia pastel de queijo, sem que ele me mandasse. Queria, às vezes, comer algodão doce, mas fazia “mal para os dentes”; pipoca, mas ele nunca me sugeriu pipoca, nem eu lhe pedi. Eu achava tudo certo. Não percebia que não tinha iniciativa, que não o contrariava. Achava tudo certo. Era para ser assim mesmo.
Vou dar um exemplo de como ele me ensinou a pensar primeiro nos outros, sem poder usar meus critérios de certo-errado. Um domingo, eu entrei em casa atrás dele e bati a porta da rua (para fechá-la). Ele me disse que eu havia sido sem educação, porque bati a porta na cara do vizinho. O vizinho, quando entramos em casa, vinha vindo pela calçada e deveria estar em frente de casa, quando bati a porta. Meu pai me mandou ir até a casa dele e pedir desculpas pela minha falta de educação. Achei aquilo exagerado, mas obedeci. Até o vizinho estranhou meu pedido de desculpas...
Júnior ficou sob controle das funções de tais contingências, que aprendeu na infância, para produzir as classes de comportamentos e sentimentos que o atormentavam presentemente. Verbalizou: - Agora sei porque sou assim. É incrível como a compreensão da origem dos meus problemas e do meu sofrimento me libertou. Hoje penso diferente sobre minha relação com as pessoas. Sinto-me livre delas. Sinto-me livre dos meus pensamentos. Esse problema está superado.
As queixas sobre os sintomas físicos não desapareceram e Eduardo continua perseguindo médicos e exames clínicos e laboratoriais. O progresso, porém, pode ser observado a partir da verbalização dele: - Às vezes, tenho certeza de que não tenho nada. Meus sintomas pioram quando não estou bem ou estou preocupado (numa linguagem técnica, quando prevalecem contingências coercitivas, ele fica mais sob controle de sinais orgânicos, eventualmente produzidos por tais contingências). Se estou tranqüilo, eles desaparecem. Entendi que tenho que resolver ou me desligar dos problemas, não dos sintomas. Isso nem sempre consigo na hora.
Alguns comentários sobre o papel das regras e autorregras sobre o controle de comportamentos e sentimentos.
De acordo com Skinner (1993), o comportamento pode ser modelado ou selecionado pelas conseqüências naturais que ele produz ou governado por regras e auto-regras (ou por uma combinação de ambas as condições):
“Uma pessoa que esteja seguindo uma orientação, aceitando um conselho, prestando atenção a um aviso, obedecendo a leis e regras, não se comporta exatamente da mesma maneira que outra que tenha sido exposta diretamente às contingências, porque uma descrição das contingências nunca é completa ou exata (usualmente é simplificada para poder ser ensinada ou compreendida com facilidade) e porque as contingências de apoio raras vezes são mantidas plenamente. O aprendiz que maneja o fole, simplesmente porque o pagam para fazê-lo, não o maneja como se fosse diretamente afetado pela condição do fogo... Os sentimentos associados com as duas espécies de comportamento também são diferentes, mas não explicam a diferença dos comportamentos.” (p.110).
As implicações dos controles sobre o comportamento humano, que Skinner diferenciou nas linhas acima, são de fundamental importância para compreender a origem das queixas de Eduardo. A maior parte do comportamento dele foi instalada e mantida por regras propostas pelo pai e pelas conseqüências advindas do pai, as quais Eduardo produzia ao seguir tais regras. Os comportamentos do pai de Eduardo impediam amplamente que o repertório comportamental do filho entrasse em contato e fosse influenciado pelas conseqüências naturais produzidas pelas respostas. As conseqüências para as ações de Eduardo eram predominantemente arbitrárias – escolhidas e liberadas por um agente social, de acordo com critérios e valores do pai (aquilo que lhe era reforçador ou aversivo). Eduardo teve um desenvolvimento comportamental alienado, em grande extensão, das conseqüências naturais de reforçamento. Segundo Skinner (1993):
“As regras nunca são as contingências que descrevem; permanecem sendo descrições e sofrem as limitações inerentes ao comportamento verbal. Uma proposição é ‘verdadeira’ na medida em que ajuda o ouvinte a responder efetivamente à situação que ela descreve. A descrição dada pelo falante funciona como substituto do controle direto pelo ambiente que a gerou, e o comportamento do ouvinte nunca pode exceder o comportamento controlado pela situação descrita.” (p.199).
A fim de sistematizar melhor o que ocorreu com Júnior, pode-se dizer que regras são descrições de contingências do tipo se... então, emitidas por uma agência controladora (o pai, no caso de Júnior), e que têm para o ouvinte a função de estímulo discriminativo, ou seja, segui-las produz conseqüências reforçadoras de duas fontes: da agência controladora (por ter seguido a regra) e da própria situação, que fornece conseqüências reforçadoras, desde que a regra seja uma descrição correta da contingência. Assim, por exemplo, quando uma mãe diz ao filho “Vista o casaco”, ela se refere à seguinte contingência: se você vestir o casaco, então evitará passar frio (reforçamento negativo pela evitação da conseqüência aversiva natural do frio). Ao mesmo tempo, seguir a regra (equivale a obedecer a mãe) – seja ela adequada ou não (pode não estar frio) – evita uma punição da mãe pela desobediência (reforçamento negativo pela evitação de uma conseqüência aversiva arbitrária). As regras podem descrever contingências reais e, assim, podem ajudar a pessoa a lidar mais eficientemente com seu ambiente: ela alcançará mais facilmente reforçadores positivos ou evitará reforçadores negativos, sem ter que entrar em contato com eles. As regras podem ser arbitrárias e não descrever contingências reais. Se forem seguidas, tornarão as pessoas alienadas do seu contexto de vida, poderão desenvolver medos, fobias, inseguranças, rituais etc. desnecessários ou, até mesmo, prejudiciais para o desenvolvimento da pessoa.
Em geral, as regras acabam se tornando auto-regras. Auto-regras são SDs verbais que a pessoa emite para si mesma e que, como as regras, descrevem uma ou mais contingências de reforçamento. Inicialmente, as auto-regras devem ter tido o status de regras emitidas por outra pessoa. Posteriormente, a pessoa passa a ser capaz de emitir as suas próprias auto-regras, por generalização ou a partir de suas experiências com contingências de reforçamento.
A pessoa adquire um amplo conjunto de regras e auto-regras que governam comportamentos e sentimentos. Pode-se sistematizar o funcionamento de tais regras e auto-regras, esquematicamente, da seguinte maneira:
A. Evento real tem a função de um SD (estímulo discriminativo) ou SDp (estímulo discriminativo de que a resposta produzirá uma contingência de punição, de acordo com a nomenclatura proposta por O´Donnell, 2001), que estabelece a ocasião para:
B. Emissão de comportamentos encobertos: pensamentos, fantasias etc., observáveis exclusivamente pela pessoa que se comporta. E, ao mesmo tempo:
C. Emoções e sentimentos: em geral observáveis apenas pela pessoa que os sente. E, ao mesmo tempo:
D. Emissão de comportamentos públicos ou verbalizações sobre sentimentos: ações explícitas observáveis por outras pessoas, além daquela que se comporta.
Quando prevalecem, dentro do conjunto de regras e auto-regras, aquelas que descrevem incorreta ou incompletamente as contingências, ou são idiossincráticas, revelando peculiaridades funcionais do agente que elaborou a regra ou auto-regra (aquilo que lhe é reforçador ou aversivo têm pouca generalidade para outras pessoas), pode-se dizer que o conjunto é alienante, ou irracional, ou neurótico etc. O que torna um conjunto alienante é que, em função da história de contingências de reforçamento da pessoa em particular, o evento real inicial possui a função de desencadear os itens B, C e D tais que:
a. São de alta probabilidade para aquela determinada pessoa; mas são de baixa probabilidade para outras pessoas da comunidade social em que o indivíduo está inserido. Exemplo: ao cometer um erro (evento real), a pessoa passa a pensar que os outros vão considerá-la incapaz, que ela não será mais merecedora de afeto daqueles que a cercam etc.; passa a se sentir culpada, ou deprimida, ou ansiosa; e, finalmente, se engaja em comportamentos exagerados de correção (fuga-esquiva): se desculpa excessivamente, se sacrifica para fazer coisas que demonstrem seu interesse, capacidade etc.
b. Os comportamentos e estados corporais apresentam função aversiva, produzem sofrimento e tornam altamente prováveis respostas de fuga-esquiva que removam ou reduzam temporariamente a condição aversiva (ocorre reforçamento negativo).
c. As respostas de fuga-esquiva não alteram a função do evento inicial, logo, toda vez que um evento dessa mesma classe voltar a ocorrer, todo o processo comportamental se reiniciará.
Considere um exemplo da história de contingências de Júnior para ilustrar o funcionamento do paradigma acima:
A. Evento real: Júnior é criticado pelo pai por ter feito a lição com “letra feia”, sem respeitar as margens etc. E o pai emite um mando verbal: - Faça a lição de novo, com letra bonita...;
B. Emissão de comportamentos encobertos. Pensamentos tais como: “Meu pai está decepcionado comigo.”; “Magoei meu pai.”; “Ele quer o melhor pra mim e eu não consigo corresponder à expectativa dele” etc.;
C. Emoções e sentimentos. Júnior se sente “ansioso”, “preocupado”, “culpado”, ocorrem mudanças corporais quando o pai fala com ele: o coração acelera, sente falta de ar, começa a suar excessivamente etc. Tais estados corporais se fortalecem novamente quando o pai chega à noitinha para verificar a lição feita à tarde;
D. Emissão de comportamentos públicos. Júnior realiza a tarefa, escreve, avalia se a letra está bonita ou não, se está respeitando as margens ou não, apaga, refaz, apaga, refaz, até considerar o produto de seus comportamentos acadêmicos adequados para os critérios do pai, porém sem nunca ter certeza de que os atendeu, até o pai aprovar a lição.
Em suma, o evento real desencadeia pensamentos e sentimentos que causam desconforto para a pessoa, sendo, em diferentes intensidades, aversivos para ela. A pessoa se engaja em comportamentos de fuga-esquiva que reduzem o desconforto. Tais comportamentos (se desculpar, refazer prontamente o trabalho etc.) são reforçados negativamente pela alteração na situação real que deu origem ao processo comportamental: o pai elogia a lição feita, diz que a letra está bonita etc. (a crítica não ocorre), e os pensamentos e sentimentos aversivos são enfraquecidos ou desaparecem após o elogio do pai (eventualmente, como alívio – sentimento que acompanha um comportamento de fuga-esquiva bem sucedido –; pode ocorrer satisfação – sentimento que acompanha um comportamento reforçado positivamente).
O que é importante sinalizar é que a avaliação que a pessoa (no presente caso Júnior) faz da situação real é arbitrária e ocorre em função de sua história de contato com contingências de reforçamento (que são, em geral, contingências coercitivas). Assim, uma frase de um pai sobre a tarefa do filho, pode aparentar a forma de crítica e, no entanto, ter diferentes funções para diferentes filhos. Pode ser:
a. SD: evento que sinaliza que uma nova resposta de fazer a lição produzirá conseqüências reforçadoras positivas; ou
b. SDp: evento que sinaliza que qualquer resposta de fazer a lição sofrerá uma conseqüência punitiva; ou
c. S pré-av.: evento que sinaliza que uma nova resposta de fazer a lição evitará (ou cessará) a apresentação de conseqüência reforçadora negativa (aversiva); ou
d. S delta: evento que sinaliza que nenhuma conseqüência se seguirá à resposta, não havendo necessidade de alterá-la.
Uma vez que o sistema de regras e auto-regras alienantes foi instalado por contingências de reforçamento manejadas, de forma arbitrária, pelas pessoas relevantes do contexto social em que a pessoa se desenvolveu, esse mesmo sistema pode ser alterado por novas e diferentes contingências manejadas por uma comunidade social diferente da original, por exemplo, pelo terapeuta. Nesta possibilidade se baseia o processo de desconstruir e reconstruir o sistema de crenças, alienantes ou não, de determinada pessoa.
Para concluir, pode-se afirmar que Eduardo Júnior adquiriu e vinha tendo grande parte do repertório de queixas comportamentais e sentimentos aversivos associados a partir de contingências coercitivas utilizadas pelo pai, que geraram no cliente um eficiente e amplo repertório de fuga-esquiva, que o protegeu de entrar em contato direto com conseqüências aversivas provindas do pai. O mesmo repertório de fuga-esquiva produzia conseqüências sociais generalizadas, na forma de atenção, elogio, aprovação etc. (usualmente, estímulos considerados reforçadores positivos generalizados), estabelecendo uma contingência de reforçamento positivo supersticiosa, não discriminada como tal pelo cliente. As contingências, que controlam o comportamento, controlam-no quer a pessoa tenha ou não conhecimento delas. “Não precisamos descrever as contingências de reforço a fim de sermos afetados por elas”, escreveu Skinner (1993, p. 111). Pode-se dizer que Eduardo Júnior estava inconsciente das contingências de reforçamento que controlavam seus comportamentos. Uma pessoa torna-se consciente, quando uma comunidade verbal organiza contingências em que a pessoa não apenas fica sob controle dos comportamentos que emite e dos sentimentos que experiencia, como fica sob controle das contingências de reforçamento que produzem ambos. Tal afirmação significa ser capaz de descrevê-los (comportamentos, sentimentos e contingências de reforçamento) e alterá-los. O papel do terapeuta é exatamente o de tornar o cliente consciente dos comportamentos, sentimentos e de seus determinantes. As contingências sociais manejadas pelo pai adquiriram função de regras para ação efetiva por parte de Eduardo Júnior dentro do mundo familiar e afetivo, com eventuais confirmações funcionais vindas do mundo externo ao familiar (por exemplo, quando a professora aprovava tarefas caseiras, algum adulto elogiava as boas maneiras do menino etc.). As regras editadas pelo pai – basicamente arbitrárias e idiossincráticas – tornaram-se auto-regras, que passaram a governar os comportamentos de Eduardo Júnior, mesmo na ausência do pai. O papel do terapeuta consistiu em substituir a força funcional de tais auto-regras, romper o controle originado na relação entre Eduardo Júnior e o pai, sem romper a relação afetiva com o pai, que se mantém muito amado pelo filho. Daí a estratégia terapêutica de esvanecer (fading out) o poder do controle do pai e introduzir (fading in) o controle do terapeuta, ainda na forma de regras formuladas pelo terapeuta, inicialmente com a aprovação funcional do pai, e finalmente sem a presença funcional deste, até o ponto em que Eduardo Júnior passasse a entrar em contato com as contingências naturais dos comportamentos emitidos e se tornasse sensível às conseqüências naturais, adquirindo, desta forma, um repertório de comportamento, selecionado por tais conseqüências, amplo, associado – mas não limitado – a repertório comportamental governado por regras e auto-regras.
Hélio José Guilhardi
(2013)
Referências
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