15 setembro 2026

Compreendendo Gregor Samsa: Ensaio comportamental sobre A Metamorfose de Kafka

 


Nota: Sempre que possível as frases de Gregor foram extraídas literalmente do texto, sinalizadas por aspas e a página onde se encontram. No presente ensaio o narrador é o próprio Gregor, a fim de melhor caracterizar o texto como um diálogo.


Sessão de psicoterapia com Gregor Samsa


Hélio José Guilhardi (2026)


Fui chamado para atender Gregor Samsa em sua casa…


 

Imagem gerada por IA (Gemini)

                                                                                                                                                                                                                                           

G - O que aconteceu comigo, doutor?


T - Como assim?...


G - “Quando certa manhã acordei de sonhos intranquilos, encontrei-me em minha cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, vi meu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Minhas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos meus olhos.” (p. 7)


T - É assim que você se vê desde aquela manhã?


G - É exatamente assim que me vejo...


T - É assim que você se vê e é assim que você se sente... A maneira como a gente se sente determina como nós nos vemos e como nos descrevemos. E, ainda além, acreditamos que as pessoas que nos rodeiam nos veem da mesma maneira que nos vemos.


G - Quer dizer que meus pais ... minha irmã... meu chefe estão me vendo como eu me vejo e não como eu sou?


T - É uma boa conclusão. Ela, no entanto, está apenas, parcialmente correta. Precisa ser melhor elaborada. Teremos que avançar uns passos para você compreendê-la, mas juntos chegaremos lá...


T - Quando por exemplo, uma pessoa se sente deprimida, ela também se vê deprimida se descreve como deprimida e as pessoas relevantes do seu contexto social, aquelas que se interessam por ela, também a veem e a descrevem como deprimida.


G - Mas, nesse exemplo, como eu me vejo e como as pessoas me veem é exatamente como eu sou. Sou um deprimido, desamparado, sem futuro, transformado num novo ser. Que descoberta aterradora!


T - A maior dificuldade está no verbo ser. A pessoa nunca é um fenômeno estático; o ser humano está sempre em mudança. Cada evento que o atinge e ao qual ele reage o transforma, se acrescenta, suplementa o que ele era em direção de um ininterrupto vir a ser. Você não é deprimido. Você está deprimido e em processo de mudança: pode estar se tornando mais deprimido ou menos deprimido, nunca estará deprimido exatamente da mesma maneira... Mas, nossa conversa está muito filosófica. Voltemos ao que nos remeteu a este tema.


G - Eu estava dizendo que me sentia deprimido... ou me via deprimido, não sei. E, que as pessoas me percebiam da mesma maneira que eu me percebia.


T - Gostei da mudança na sua fala. Você se sente deprimido e se vê deprimido. Você não é um homem deprimido.


T - Ocorrem eventos no nosso corpo, são respostas e estados corporais, aos quais reagimos. Pode-se dizer que ficamos sob influência ou sob controle de tais eventos corporais; nós os observamos, nós os descrevemos (se formos solicitados a fazê-lo), nós os sentimos no mesmo sentido que os percebemos. 


T - A comunidade verbal a que pertencemos (família, escola, grupo social etc.) tem o hábito de dar nomes ao que sentimos, sem se preocupar em determinar com precisão quais são os eventos corporais (respostas e estados corporais) que estão em operação e, nem mesmo, quais são os eventos ambientais (mais tecnicamente, as contingências de reforçamento) dos quais são função. Os sentimentos são muito difíceis de serem identificados e nomeados com a necessária adequação, pois eles envolvem reações respondentes, estados corporais, comportamentos operantes públicos e privados (os quais não podem ser diretamente observados por uma segunda pessoa; apenas por aquela que se comporta) e interações com o meio ambiente, que adquirem diferentes e complexas funções (chamadas de contingências de reforçamento). Alheios a tal complexidade e à necessária identificação de cada componente dos sentimentos, desde pequenos aprendemos os nomes dos sentimentos e passamos a usá-los sem critérios claramente definidos. Estou triste, magoado, infeliz, alegre, ansioso, preocupado, são exemplos corriqueiros. Outra maneira de se referir aos sentimentos é utilizar metáforas: estou em boa forma, a vida me pesa como chumbo, sinto-me fraco diante dos problemas, sinto-me um lixo, sinto-me um verme, me vejo como uma lesma etc. No cotidiano da vida, tal prática não causa maiores dificuldades, pois não há necessidade de se saber exatamente o que uma pessoa está sentindo... Há situações, no entanto, em que a precisão é fundamental. Por exemplo, quando estamos diante de uma queixa psicológica em que há um grau acentuado de sofrimento e algo precisa ser feito em favor da pessoa.


G - Você está querendo me convencer que quando acordei e me vi metamorfoseado em um inseto monstruoso... que quando me vi transformado neste monstro eu estou usando uma metáfora sobre o que estou sentindo? Você está querendo dizer que não sou um inseto, apenas acho que me transformei num bicho horrível simplesmente porque me sinto um inseto?


T - É uma possibilidade. Mas, neste momento estamos falando conceitualmente. Não estamos analisando o seu caso em particular. Preciso conhecê-lo mais para entender o que ocorre com você.


G - Veja a minha aparência. Meu aspecto deixa-lhe alguma dúvida? Olhe para mim. Diga-me o que você está vendo? E, meus movimentos? Toda a dificuldade para andar, para sustentar minha cabeça, as mudanças dos meus hábitos alimentares... tudo isso é suposição minha? “Visto que não sou entendido, ninguém nem mesmo minha irmã, pensava que eu podia entender os outros; e assim, quando minha irmã estava no meu quarto, eu tinha que me contentar em ouvir, aqui e ali, seus suspiros e invocações aos santos. Só mais tarde, quando ela havia se habituado um pouco a tudo − naturalmente não se podia nunca falar em hábito completo −, eu às vezes apreendia uma observação amigável ou que podia ser interpretada como tal:  − Hoje, sim, ele gostou − ela dizia, quando eu havia limpado para valer toda a comida; ao passo que, no caso contrário − que aos poucos se repetia numa frequência cada vez maior −, costumava dizer quase com tristeza: − Deixou tudo outra vez.” (p. 39)


G - Na verdade você é a única pessoa que consegue entender o que falo. Pode me explicar o porquê?


T - A questão é muito complexa para ser respondida em poucas palavras com clareza. Vou começar a respondê-la. As pessoas, de modo geral, ficam sob controle das ações do outro e dos aspectos físicos que ele apresenta. Por exemplo, se a pessoa está, digamos, deprimida e demonstra um déficit generalizado e drástico de comportamentos, as pessoas rapidamente deixam de se comportar em relação a ela, deixam-na só. O repertório comportamental restrito da pessoa “deprimida” apresenta duas características funcionais: não ocorrem comportamentos com função de SD para evocar comportamentos no outro (estímulos discriminativos são aqueles diante dos quais se um determinado comportamento for emitido, então será reforçado); e os comportamentos que o outro venha a emitir em relação a ela são submetidos ao procedimento de extinção. Resultado: a pessoa tende a se afastar, a abandonar, enfim a não se comportar em função do repertório deficitário daquele que se sente deprimido. De maneira análoga, uma pessoa que não cuida de seu asseio pessoal, de sua aparência etc. se torna aversiva para quem se aproxima dela, levando o outro a se manter distante ou a ter um contato mínimo, no seu caso, para não deixar morrer de fome. 


G - Por que você não se comporta assim?


T - O terapeuta tem um repertório comportamental para ficar sob controle (isto é, se comporta em função de) das contingências de reforçamento que produzem tais déficits comportamentais na pessoa “deprimida”. Assim, se você fala baixo e de forma incompreensível, o terapeuta deve lidar com as contingências que produzem tal padrão de verbalização e atuar sobre as contingências, ou criar novas contingências, de modo a compreender o que é dito. Por exemplo, eu me aproximo mais de você, faço gestos − como se fosse um maestro conduzindo uma orquestra − indicando que você deve se esforçar para falar mais alto, mais pausadamente. Se você está exausto eu espero você descansar até poder articular novamente as palavras. Por outro lado, conhecendo – pelo menos parcialmente – as contingências que o levam a ser descuidado com sua higiene, com sua aparência física, seus cheiros... posso compreender porque você está assim descuidado e tais aspectos, em geral aversivos, não me levam a me afastar de você, nem a abreviar nossa interação. Uma enfermeira sensível e habilidosa cuida da higiene de um paciente dependente, não cuida? Cuidado esse que muitas vezes os familiares sentem nojo de executar. Uma mãe carinhosa troca a fralda de seu nenê e examina as fezes para verificar se há alterações na cor, consistência, odor que possam sinalizar o estado de saúde de seu filhinho...


G - Mas, no seu exemplo a enfermeira cuida por obrigação e a mãe por amor...


T - Você está parcialmente correto. A enfermeira tem sentimentos de responsabilidade (se seus comportamentos fugirem da ética profissional ou das orientações do hospital ela será punida), mas também por sentimentos de afeto (seus comportamentos de cuidar são reforçados pelo paciente e familiares: o paciente melhora, mostra gratidão etc.) No caso da mãe há fortes sentimentos de amor (os comportamentos do filho são reforçadores para a mãe, bem como a saúde dele), mas também sentimentos de responsabilidade (se ela não cuidar adequadamente do filho ele adoecerá, as pessoas podem criticá-la por se comportar com negligência etc.) O ponto a ser destacado é que, o enfermo, assim como o nenê se comportam produzindo SDs e, aumentam assim, a probabilidade de ocorrerem comportamentos, que serão reforçados positivamente; e ainda mais, se comportam produzindo consequências para os comportamentos de cuidar. O seu repertório de comportamentos, como lhe disse, é extremamente limitado tanto numa função ( a de antecedente), como noutra (a de consequente).


G - Então, não é suposição minha que meus familiares estão se afastando de mim? Eles estão mesmo se afastando. 


T - Sim, mas, pense no que lhe disse: eles estão se afastando de você em função da maneira como você se comporta e se mostra.


T - De qualquer maneira, você propõe questões instigantes. Vou continuar um pouco mais com considerações conceituais. Teremos tempo para particularizar as contribuições da análise do comportamento para o seu caso. Eu sei que você tem pressa. Eu também, mas temos que esperar que as contingências de reforçamento modelem novos comportamentos. Novos comportamentos emergem seguindo um processo: ordenado, previsível, controlável. Estou sendo muito teórico, é cedo para você me entender. Mas, certamente me entenderá.


G - Como você me vê?


T - Ver é um comportamento, não uma reação orgânica. A retina, o globo ocular, os centros responsáveis pelo fenômeno da visão localizado no lobo occipital são condições anátomo-fisiológicas pré-requisito para ver, mas o comportamento de “ver” não se resume ao funcionamento de órgãos, neurônios ou cérebro. Ainda, é possível “ver” na ausência do objeto visto, como quando vemos com nitidez uma pessoa querida que está a milhares de quilômetros de distância. Neste caso, no exato momento da “visão”, não estão presentes os elementos físicos que estimulam os órgãos do sentido da visão. Não obstante, vemos.


T - Vou insistir um pouco mais. Ouça com paciência, Gregor. Um adolescente chamado João achava suas orelhas enormes e insistiu em fazer uma, duas, três plásticas para reduzir o tamanho das orelhas (de fato, só parou quando nenhum cirurgião plástico aceitou reduzir mais o tamanho das orelhas). Ao lado disso, deixava os cabelos longos para ocultar as orelhas, mesmo após as plásticas. Sucessivamente, deixou de estudar para não expor as orelhas aos colegas de classe, interrompeu seus programas sociais, parou de namorar e passou a viver dentro do seu apartamento. Nem os pais de João, nem os médicos, nem os colegas, nem a namorada “viam” as orelhas enormes que João “via”.


G - Mas, a orelha era grande?


T - João passou na infância por uma história de contingências coercitivas: era ridicularizado, recebia apelidos etc. por ter “orelhas de abano”. Com isso se retraiu e minimizou seus contatos sociais: não tinha amigos, não saia para atividades em grupo, não recebia colegas em casa, não frequentava a casa de ninguém... Quando as orelhas foram corrigidas cirurgicamente, João continuou se comportando sob controle do tamanho das orelhas da infância e não sob controle da orelha modificada... Para ele, elas eram grandes em função de sua história de vida e em função dos déficits de repertório de comportamento atuais. O que tem que ser alterado é a função de controle de estímulos que as orelhas adquiriram e que se mantém até o presente momento. As contingências de reforçamento passadas e atuais produzem o comportamento de João de “ver as orelhas enormes” e é seu comportamento de ver que precisa ser alterado. As demais pessoas tem histórias de contingências de reforçamento em relação a orelhas e repertório geral de comportamentos de interações sociais completamente diferentes de João, portanto, o comportamento de “ver” as orelhas de João é, necessariamente, diferente. E, neste caso a solução não é encontrada no tamanho objetivo da orelha. Não adianta medi-la com régua e constatar que ela tem X centímetros. Você entende?


G - João “via” suas orelhas como “enormes”, mesmo após as cirurgias. Os demais não viam as orelhas da mesma maneira. Você quer que eu conclua que eu me vejo um “inseto”, mas os outros não me veem como um “inseto”? E, meus pais, irmã...


T - Você concluiu certo. No caso de João foi assim. Mas, essa discrepância de “visão” não resolveu o problema dele. Continuou, independente do que os outros “viam”, convencido que suas orelhas eram enormes e as pessoas não o compreendiam ou minimizavam o problema por pena dele. Você continua certo no seu caso: todos emitem o “mesmo” comportamento de ver, todos o veem como inseto. Posso concluir que as contingências que modelaram e mantêm o comportamento de ver você como inseto têm elementos funcionais equivalentes para todos vocês, portanto todos veem a mesma coisa.


T - Nossa discussão está mostrando que a compreensão do comportamento humano não é maniqueísta: de um jeito ou de outro; bom ou mal; certo ou errado. A análise do comportamento humano é complexa: envolve eventos funcionais do passado; eventos funcionais do presente; envolve os contextos físico, social e cultural em que os eventos ocorreram e ocorrem; envolve a pessoa em estudo, já que as funções dos eventos não são estáticas, mas variam de acordo com a pessoa considerada. E, nenhuma de tais influências, isoladamente, se sobrepõe às demais, mas interage com todas as outras, produzindo uma rede de determinações em que cada uma delas determina todas em algum grau e é determinada por todas em algum grau.


T - Respondo neste ponto a uma de suas questões: eu não o vejo como um terrível inseto metamorfoseado, mas sei que você se vê e se sente assim; sei também que sua família e seu chefe o veem de maneira ainda mais horrível que você próprio. Isso porque eles não têm acesso aos outros sentimentos: de responsabilidade, de doação, de carinho, de rigor ético, que ainda prevalecem em você. Por serem todos esses sentimentos – talvez eu devesse incluir mais alguns outros – parte integrante do seu eu não se tornam acessíveis a eles. O nosso “eu” só é detectado por nós próprios, através dos nossos sentimentos.


G - Você tem razão sobre meus sentimentos. Quando adoeci e o gerente veio me ver pensei: “Será que todos os funcionários eram sem exceção vagabundos? Não havia, pois, entre eles nenhum homem leal e dedicado que, embora deixando de aproveitar algumas horas da manhã em prol da firma, tenha ficado louco de remorso e literalmente impossibilitado de abandonar a cama?” (p. 16)


T - Você está me dizendo que caso se omitisse em relação às suas obrigações na firma, sentiria “remorso”. Você têm sentimentos de responsabilidade. Eu sei disso, porque você me contou. Mas, tais sentimentos – que compõem parte do seu “eu” – não são acessíveis aos outros, a menos que você os demonstre através de comportamentos públicos.


T - Quero retomar um ponto fundamental: as pessoas em geral ficam sob controle dos comportamentos do outro. O terapeuta deve ficar sob controle das contingências de reforçamento que produzem tais comportamentos. Faz muita diferença uma relação de controle ou outra. Veja um exemplo: se uma esposa fica sob o controle de comportamentos agressivos ou intolerantes do marido, ela o considerará aversivo e tenderá a se esquivar ou fugir dele, ou tenderá a puni-lo e, possivelmente, descreverá o marido para os filhos com frases tais como: “Seu pai é muito agressivo com a gente; não aguento esta vida aqui em casa.” etc. Por outro lado, se a esposa detectar que são as contingências coercitivas sobre o marido, por exemplo, um chefe extremamente punitivo e injusto, salário insuficiente para cobrir as despesas da família, uma mãe muito doente etc., que produzem os comportamentos agressivos e de intolerância dele a análise e interpretação das relações familiares mudam. Os comportamentos indesejados do marido continuam indesejados, mas já é possível compreender que são fruto de contingências adversas, que precisam ser alteradas (sempre haverá uma maneira de eliminá-las ou minimizá-las), de preferência com a ajuda de todos. É completamente diferente dizer: “Você tem que mudar seu modo agressivo de agir (sem atentar para as contingências) de “Precisamos encontrar um novo emprego mais razoável para você”; “Você precisa ter uma conversa com seu chefe ou com o chefe do seu chefe”; “Você poderia procurar um terapeuta para ajudá-lo a entender o que ocorre com sua relação no trabalho e aqui em casa”; “Sofremos muito e acredito que você também sofre com a vida que estamos levando. Nosso lar não é feliz assim” etc. Numa alternativa você condena a pessoa pelos seus comportamentos inadequados; na outra você o ajuda a lidar com as contingências que produzam tais comportamentos indesejados.


 G - Mas, eles sabem como eu sou, o que penso, o que sinto... Todos me conhecem muito bem. A minha transformação física, não destruiu o que sou; não implodiu o meu eu; não mudou o que eu sinto por eles; nem o que eles sentem por mim...


T - Temo que não seja exatamente assim...


G - Meu pai sabe que me sacrifiquei para ajudar a família: assumi suas dívidas, não fiz outra coisa se não trabalhar, poupei-o de esforços físicos, impossíveis na idade dele somada à saúde comprometida. Meu chefe sabe muito bem como sou responsável com meus compromissos profissionais e se beneficia dos lucros que minhas vendas trazem para a Empresa. Minha irmã... vou pagar o curso de violino... se bem que ela ainda não sabe das minhas intenções. Mamãe... é a pessoa a quem mais amo na vida... procuro poupá-la de preocupações...


G - Tive algumas surpresas sim, concordo que pouco conversávamos em casa. Precisei chegar a minha situação atual para compreender algumas coisas sobre minha família. “Já no decorrer do primeiro dia meu pai expôs toda a situação financeira e as perspectivas tanto à minha mãe quanto à minha irmã. De quando em quando ele se levantava da mesa e pegava, no pequeno cofre-forte que tinha resgatado da falência do seu negócio, ocorrida cinco anos antes, algum documento ou livro de notas. Essas explicações do meu pai foram em parte a primeira coisa agradável que escutei desde a minha reclusão.” (p. 41)


T - Gregor, você é muito generoso. O que atrapalha é o “muito, o “excesso”. Não seria mais justo seu pai tê-lo informado desde o início da real situação dele? Juntos vocês poderiam avaliar qual a melhor estratégia de vida profissional a ser adotada, sem colocar sobre seus ombros a responsabilidade de ajudá-lo a sair de uma situação, que ele levou você a dimensionar como muito mais preocupante e grave do que era na realidade. Você e ele se omitiram e daí resultou em seu empenho desmedido ao trabalho, renuncia a lampejos de prazer, possibilidades de se impor diante do seu chefe... Tudo isto lhe teria sido mais salutar.


T - Você sempre tão preocupado em servir sua família, como se sentiu ao criar-lhes tamanho contratempo?


G - Lembro-me que uma noite acomodei-me debaixo do canapé. “Ali passei a noite inteira, em parte num semissono do qual a fome continuamente me acordava com um sobressalto, em parte às voltas com preocupações e esperanças imprecisas que levavam à conclusão de que no momento eu precisava manter-me calmo e tornar suportáveis, pela paciência e máxima consideração com a família, as inconveniências que estava simplesmente compelido a lhe causar no meu estado atual.” (p. 36)


T - Mesmo precisando de ajuda, você se preocupava em não perturbá-los.


G - “Nas duas primeiras semanas meus pais não conseguiram vencer a própria resistência para entrar no quarto e ver-me, e com frequência eu ouvia como reconheciam plenamente o trabalho de minha irmã, ao passo que até então tinham muitas vezes se irritado com ela, porque lhes parecera uma moça algo inútil. Mas, agora ambos, pai e mãe aguardavam diante do meu quarto enquanto minha irmã fazia a arrumação, e mal ela tinha saído, precisava contar exatamente como estavam as coisas no quarto, o que eu havia comido, como me comportara dessa vez, e se por acaso era possível notar uma pequena melhora. Minha mãe, aliás, quis me visitar relativamente cedo, mas meu pai e minha irmã a impediram, a princípio com argumentos racionais, que eu escutei com muita atenção e aprovei inteiramente. Mais tarde, porém, foi necessário que a contivessem à força, quando então ela exclamou: - Deixem-me ver Gregor, ele é meu filho infeliz! Vocês não entendem que eu preciso vê-lo?” (pp. 46 e 47)


T - Seus pais viviam um conflito que os imobilizava. Sua “metamorfose” criou uma situação diante da qual não tinham um repertório de comportamentos apropriado de ajuda. Parece-me que os longos anos de submissão aos outros e de dependência de você os mantiveram com déficits importantes de comportamentos: eram incapazes de tomar iniciativa e solucionar problemas. Era-lhes mais fácil emitir comportamentos de fuga-esquiva de você. Simplesmente, não entravam no quarto. Nem mesmo o ferimento que seu pai produziu em você, quando o acertou nas costas com uma maçã, foi tratado por nenhum deles.


G - “O meu grave ferimento, que me fez sofrer mais de um mês – a maçã ficou alojada na carne como uma recordação visível, já que ninguém ousou removê-la –,parecia ter lembrado ao meu pai que eu, a despeito de minha atual figura triste e repulsiva, era um membro da família que não podia ser tratado como um inimigo, mas diante do qual o mandamento do dever familiar impunha engolir a repugnância e suportar, suportar e nada mais (...) Recebi, por essa deterioração do meu estado, uma compensação a meu ver inteiramente satisfatória, no sentido de que todos os dias ao anoitecer a porta para a sala de estar, que uma ou duas horas antes eu costumava observar atentamente, era aberta de tal forma que, deitado na escuridão do meu quarto, invisível da sala de estar, eu podia ver a família toda à mesa iluminada e escutar suas conversas, de certo modo com a permissão geral, ou seja, de uma maneira totalmente diversa da anterior.” (pp. 59 e 60)


T - Que tristeza Gregor. Você me comove com tamanha sensibilidade: lhe é satisfatória a possibilidade de observar à distância a família reunida – como um voyer − que se basta com a visão do seu mundo amado, não importa que ninguém desse mundo sequer olhe para você...    


G - Sempre fui assim. “Minha preocupação na época (aqui Gregor se refere à falência do seu pai nos negócios ocorrido cinco anos antes) tinha sido apenas fazer tudo para a família esquecer o mais rápido possível a desgraça comercial, que havia levado todos a um estado de completa desesperança. E assim comecei a trabalhar com um fogo muito especial e, quase da noite para o dia, passei de pequeno caixeiro a caixeiro viajante, que naturalmente tinha possibilidades bem diversas de ganhar dinheiro e cujos êxitos no trabalho se transformaram imediatamente, na forma de provisões, em dinheiro sonante que podia ser posto na mesa diante da família espantada e feliz. Tinham sido bons tempos e nunca se repetiram, pelo menos não com esse brilho, embora eu mais tarde ganhasse tanto dinheiro que era capaz de assumir – e de fato assumi – as despesas de toda a família. Tanto a família, como eu próprio, nos acostumamos a isso: aceitava-se com gratidão o dinheiro, eu o entregava com prazer, mas disso não resultou mais nenhum calor especial. Só minha irmã havia permanecido próxima de mim e meu plano secreto era mandá-la no próximo ano ao conservatório, sem pensar nos altos custos que isso representava, os quais seriam ressarcidos de outro modo; pois ela, diferentemente de mim, gostava muito de música e sabia tocar violino de forma comovente. Várias vezes, durante as curtas estadas minhas na cidade, mencionou-se o conservatório nas conversas com minha irmã, mas sempre com um belo sonho, cuja realização não se podia pensar, e meus pais não gostavam de escutar nem mesmo essas menções inocentes; eu, porém pensava nisso de maneira muito definida e tinha a intenção de anunciá-la solenemente na noite de Natal.” (pp. 41 e 42) “Que vida tranquila a família levava!” – disse a mim mesmo e senti, enquanto fitava o escuro diante de mim, um grande orgulho por ter podido proporcionar aos meus pais e à minha irmã uma vida assim, num apartamento tão bonito. Mas, como seria agora, se todo o sossego, todo o bem-estar, toda satisfação chegasse assustadoramente ao fim?” (p. 34)


T - Veja como você funciona, Gregor. O padrão matriz de você se comportar (a maneira típica através de situações e perante diferentes pessoas) é: identificar no outro aquilo que é reforçador para ele e prover-lhe o reforço; identificar no outro aquilo que é aversivo para ele e poupá-lo do sofrimento, mesmo que seus comportamentos em prol do outro produza para você consequências aversivas ou o afaste daquilo que é reforçador para você. Você é generoso, porém, excessivamente generoso. Já lhe disse isso.


T - Desde o início de sua “metamorfose” você vem tentando manter seu padrão matriz de comportamento, como se ainda fosse o Gregor com o mesmo repertório comportamental de antes. Seus comportamentos estão suprimidos, restritos de maneira drástica. É o momento de criarmos condições para reinstalar comportamentos em você. Chegou o momento, Gregor, de você permitir que cuidem de você; é momento de parar de cuidar dos outros.


G - “Enquanto eu refletia sobre tudo isso na maior pressa, sem poder me decidir a deixar a cama – o despertador acabava de dar um quarto para as sete −, (devia ter acordado às 4h para pegar o trem das 5h) bateram cautelosamente na porta junto à cabeceira da minha cama. – Gregor – chamaram; era minha mãe. – É um quarto para as sete. Você não queria partir? Meu pai batia, fraco, mas com o punho, numa porta lateral. – Gregor, Gregor – chamou. – O que está acontecendo? Na outra porta lateral, entretanto, minha irmã lamuriava baixinho: − Gregor? Você está bem? Precisa de alguma coisa? E ainda ela sussurrou: Gregor, abra, eu suplico.” (pp. 10 e 12)


T - Você notou as diferenças entre os comportamentos de seus familiares quando notaram o seu atraso?


G - Agora que você me perguntou noto. Não havia notado antes. Somente minha irmã se preocupou com meu bem-estar...


T - Somente quando há contingências que controlam o comportamento de observar é que as pessoas ficam sob controle do que ocorre em torno delas. Neste exato momento, a minha pergunta, solicitando que você apontasse a diferença entre os comportamentos do seu pai, da sua mãe e de sua irmã, fez você discriminar que não se preocuparam da mesma forma em relação ao seu atraso.


T - É verdade que sua mãe, após a chegada do gerente, mostrou preocupação por você..., mas seu pai todo o tempo só levou em conta seu atraso, para ele seu comportamento era inaceitável, não importando o que levou a se atrasar: Comporte-se, Gregor, parecia dizer o tempo todo. Comporte-se do modo certo.


T - E, sua mãe? Ela mostrou afeto por você?


G - “Ele não está bem – disse minha mãe ao gerente quando meu pai ainda falava junto a porta. – Ele não está bem, acredite em mim, senhor gerente. Se não como Gregor perderia um trem? Esse moço não tem outra coisa na cabeça a não ser a firma. Eu quase me irrito por ele não sair à noite; agora esteve oito dias na cidade, mas passou todas as noites em casa. Fica sentado à mesa conosco e lê em silêncio o jornal ou estuda horários de viagem.” (p. 17)


G - “Minha mãe, aliás, quis me visitar relativamente cedo, mas meu pai e minha irmã a impediram, a princípio com argumentos racionais, que eu escutei com muita atenção e aprovei inteiramente. Mais tarde, porém, foi necessário que a contivessem à força, quando então ela exclamou: − Deixem-me ver Gregor, ele é o meu filho infeliz! Vocês não entendem que eu preciso vê-lo?” (p. 47)


T - Mas, ela não foi vê-lo, certo?


G - Quando minha mãe e minha irmã tentaram retirar a mobília de meu quarto ouvi minha mãe “numa voz bem baixa, quase sussurrando, como se quisesse evitar que eu – cuja localização exata ela não conhecia – ouvisse até mesmo o som de sua voz, pois estava convencida de que eu não entendia as palavras, minha mãe concluiu: − não é como se nós mostrássemos, retirando os móveis, que renunciamos a qualquer esperança de melhora e o abandonamos à própria sorte, sem nenhuma consideração? Creio que o melhor seria tentarmos conservar o quarto exatamente no mesmo estado em que estava antes, a fim de que Gregor, ao voltar outra vez para nós, encontre tudo como era e possa desse modo esquecer mais facilmente o que aconteceu no meio tempo.” (pp. 49 e 50)


T - E, como terminou esse episódio?


G - Minha irmã “não se deixou desviar de sua decisão pela mãe, que também parecia insegura, naquele quarto, com tanta inquietação; logo emudeceu e ajudou minha irmã, na medida de suas forças, a transportar o armário para fora” (p. 51)


G - “Minha mãe deu um passo de lado (minha irmã tentava tirá-la do meu quarto para levá-la a sala de estar), divisou a gigantesca mancha marrom no papel de parede florido e, antes que realmente chegasse à sua consciência que o que ela via era eu, exclamou com voz esganiçada: − Aí, meu Deus! Ai, meu Deus! Como se desistisse de tudo, ela caiu de braços abertos sobre o canapé e não se moveu.” (p. 53)


G - Numa noite, “depois de terem ido levar meu pai para a cama, minha mãe e minha irmã voltaram, puseram de lado o trabalho, aproximaram suas cadeiras e ficaram sentadas já de rosto colado – instante em que minha mãe, apontando para o meu quarto, disse: − Feche aquela porta, Grete! Aí fiquei outra vez no escuro, enquanto do outro lado da porta as mulheres misturavam suas lágrimas ou fitavam a mesa com os olhos secos.” (p. 63)


T - Gregor, todos esses exemplos das reações de sua mãe parecem indicar que, embora ela pudesse ter sentimento de amor por você, expresso pelas palavras dela, ela não foi capaz de ter atos de amor. Desde sua “metamorfose” ela não cuidou de você (apenas se preocupou), não lhe fez gestos de carinho (apenas falou de amor). Amor é um conceito, que se torna ato quando envolve sentimento e comportamento, intimamente associados. Um comportamento sem sentimento de bem querer, pode ser emitido por outras razões (assim, para evitar críticas, sentimentos de culpa etc.); sentimento de bem querer sem ser acompanhado de comportamentos é intangível e inócuo. Concluo, infelizmente, que sua mãe foi incapaz de amá-lo, pois não demonstrou a inseparável intimidade entre ato e sentimento. Ela o temeu, sentiu repulsa pela sua imagem, o evitou. Foi incapaz de niná-lo nos seus pesadelos, de acalentá-lo nos seus momentos de dor e de tirá-lo da tumba a que você foi condenado ainda com lampejos de vida.    


 T - E, o que seu pai falava junto à porta?


 G - “Gregor – falou então o meu pai do aposento à esquerda −, o senhor gerente chegou e quer saber por que você não partiu no trem de hoje cedo. Não sabemos o que devemos dizer a ele. Aliás, ele também quer falar pessoalmente com você. Faça, portanto, o favor de abrir a porta. Ele terá a bondade de desculpar a desarrumação do quarto.” (p. 17)


T - Exatamente, ele usou o gerente como instrumento de pressão sobre você e mostrou subserviência ao antecipar um pedido: “Ele terá a bondade...”  Que pobre modelo de assertividade seu pai lhe deu...


G - Nesse caso não foi só meu pai. Minha mãe também falou algo semelhante. “Aliás, eu estou feliz, senhor gerente, pelo fato de o senhor estar aqui; sozinhos não iríamos conseguir que Gregor abrisse a porta; ele é tão teimoso; e certamente não está bem, embora tenha negado isso de manhã.” (pp. 17 e 18) 


T - A frase de sua mãe, realmente dá poder ao gerente, critica você (“teimoso”), e nesse contexto fica difícil entender a função da expressão “não está bem”. Ela está preocupada com a sua saúde; ou a usa como uma forma de justificar-se e justificá-lo perante o gerente? A resposta a esta questão faz uma grande diferença...


G - Vou repetir textualmente uma frase que já lhe disse: “Será que todos os funcionários eram sem exceção vagabundos? Não havia, pois, entre eles nenhum homem leal e dedicado...? Não bastava realmente mandar um aprendiz ir perguntar – se é que havia necessidade desse interrogatório?” (p.16)


T - Você descreve uma relação entre o funcionário e chefe fortemente coercitiva: o uso da punição era uma prática valorizada na firma. Não me causa estranheza a submissão de seus pais: você manter-se empregado era fundamentalmente importante para eles; a menor falha poderia colocar em risco sua posição na firma... Eles estavam preocupados com seu emprego, não com você.


T - Você tem uma história de contingências que desenvolveu sentimentos intensos de responsabilidade. Os sentimentos de responsabilidade emergem do contato com contingências coercitivas. Tais contingências dão origem a comportamentos de fuga-esquiva da consequência aversiva e aos sentimentos de responsabilidade. Seus pais devem ter sido exigentes e severos com você. Em linguagem comportamental eles usavam consequências punitivas para quaisquer comportamentos por eles classificados como inadequados. Na firma as mesmas classes de contingências aversivas mantiveram e, possivelmente, intensificaram os sentimentos de responsabilidade e os comportamentos de fuga-esquiva (trabalhar muito, ser pontual etc.)   

 

T - Se você fosse capaz de dizer para seu gerente exatamente o que você me disse acima eu diria que você estaria sendo assertivo, estaria defendendo seu ponto de vista..., mas, talvez fosse rotulado de insolente, fosse advertido e, se persistisse, até fosse demitido. Ser demitido – o que você tanto temia – provavelmente lhe traria algumas vantagens: um novo emprego, melhor tratamento no ambiente de trabalho, maior reconhecimento de suas qualidades profissionais e pessoais. Mas, “provavelmente” não é certeza. Você não era livre para arriscar.


T - Seus pais eram cúmplices da firma: eles tinham os mesmos temores que você; temiam que perdesse o emprego. Daí, o levavam a ser conformar e a se adequar as exigências da empresa.


T - Você era valioso para seus pais, desde que lhes trouxesse seu salário. O afeto vinha deles contingente aos seus “bons” comportamentos profissionais. Eles não lhe davam afeto sem atentar para as contingências em operação. Tal condição produz sentimentos de autoconfiança: você se considerava um bom profissional; tinha autoconfiança no desempenho de suas tarefas de trabalho. Não tinha, porém, sentimentos de autoestima. A autoestima é um sentimento produzido por contingências de reforçamento positivo contingente a comportamento, mas também não contingente a comportamentos pré-escolhidos. Fala-se em atenção e carinho “livres”, isto é, dados contingentes a quaisquer comportamentos. É como se a pessoa fosse reforçada com afeto e não seus comportamentos.


T - Quando a pessoa tem sentimentos fortes de autoestima ela arrisca novas formas de comportamento, pois não teme a crítica, a reprovação das pessoas que lhe são importantes. É como se dissesse para si mesma: serei amada pelo que represento para meus pais; não apenas quando me comporto de acordo com suas definições.


T - Não, me espanto, portanto, que você nunca tivesse arriscado perder o emprego para começar tudo de novo, não importa quantas vezes tivesse que percorrer esse caminho até sentir-se bem no seu trabalho. Sentir-se bem, é um sentimento produzido por contingências de reforçamento positivo.


T - Gregor, a que você foi reduzido! A uma pessoa com excesso de responsabilidade, que lida eficientemente com as contingências aversivas; habilitado a se comportar de modo a ser fonte de reforço para o outro, não para você próprio e com elevada autoconfiança por emitir com competência comportamentos necessários para cumprir satisfatoriamente tal papel; carente de atenção e afeto, presentes apenas contingentemente a comportamentos que satisfaziam ao outro, o que produz baixos sentimentos de autoestima; alta tolerância a frustração, sentimento produzido por contatos com contingências com baixa densidade de reforçamento positivo e altas exigências de desempenho. Você foi preparado – não chego a afirmar, de modo algum, que de forma premeditada − para ser um escravo do outro; de qualquer outro que tivesse poder de manejar contingências coercitivas contra você. Você não era um escravo “feliz”; mas um escravo “aliviado”. Para sentir-se “feliz” há necessidade de contingências reforçadoras positivas (raras em sua vida); para sentir-se “aliviado” há necessidade de reforçamento negativo, ou seja, evitação de consequências aversivas (comuns em sua vida).


T - Gregor, você viveu sempre só: não conversava com as pessoas a respeito de suas dificuldades, apenas se preocupava com não magoá-las, com servi-las... Você aprendeu a não permitir que os outros o ajudassem nas suas dificuldades, a fim de não lhes causar incômodos. As pessoas não eram fonte de gratificação ou de proteção para você. Delas você apenas esperava críticas ou cobranças, das quais você  se esquivava se comportando sob controle do que as agradaria. Sempre sob controle coercitivo... 


G - É verdade, lembro-me do que pensei, enquanto tentava sair da cama pela primeira vez naquela manhã. “Pus-me a balançar meu corpo em toda a extensão, num ritmo perfeitamente uniforme, para tirá-lo da cama. Deixando-se cair desse modo, a cabeça – que eu queria conservar bem erguida durante a queda – presumivelmente ficaria ilesa. As costas pareciam ser duras; decerto não aconteceria nada a elas caindo no tapete. A maior dúvida vinha da minha preocupação com o estrondo que iria provocar e que provavelmente causaria, se não susto, pelo menos apreensão atrás de todas as portas. Mas isso era preciso arriscar.” (p. 14 e 15)


T - Você se sentia vigiado; jamais cuidado.


G - “Ocorreu-me como seria simples se alguém viesse me ajudar. Duas pessoas fortes – pensei em meu pai e na empregada – bastariam plenamente; precisariam apenas enfiar os braços debaixo de minhas costas abauladas, destacando-me assim da cama, inclinar-me com o fardo e depois simplesmente permitir que eu efetuasse com cuidado a virada do corpo sobre o assoalho, onde então as perninhas, como era de se esperar, adquiririam um sentido. Bem, desconsiderando inteiramente que as portas estavam fechadas, deveria mesmo pedir por socorro? Apesar de toda a minha aflição, não pude reprimir um sorriso a esse pensamento.” (p. 15)


T - Tal sorriso parece confirmar seu desdém pelo pedido de ajuda. Você parece ter assumido que tem que ajudar; não ser ajudado. Você não se sentia amado: só o amor compreende e aceita o outro sem excluí-lo. Só o amor ajuda a reconstruir e a desenvolver alguém sem condená-lo.


G - Como  o amor pode construir? O sentimento produz comportamento?


T - Você me “pegou” Gregor. Falei de uma maneira coloquial, no entanto, incorreta. Quando uma pessoa nos é reforçadora, as interações com ela gera em nós sentimentos de satisfação, de prazer, de amor, de ternura etc. São as interações entre as pessoas que produzem tais sentimentos e não o contrário, não são os sentimentos que geram as interações. Chamar os sentimentos “bons”, que emergem nessas interações de “amor”, de “satisfação”, de “prazer” etc. depende de outras variáveis, de um complexo de contingências que se influenciam reciprocamente e que não é o caso de detalharmos aqui. Ora, quando uma pessoa nos é reforçadora aumenta a probabilidade de respondermos aos comportamentos dela de uma maneira reforçadora e diminui a probabilidade de punirmos os comportamentos emitidos por ela. Estamos predispostos a oferecer carinho, atenção, afagos etc. sem ficar sob controle das contingências em curso. Damos amor para a pessoa, sem atentar para os comportamentos que são consequenciados com nosso afeto. A relação afetiva tem a função de uma operação estabelecedora (motivadora) que torna mais provável que a pessoa, que se sente amada, se comporte em relação a nós de maneira reforçadora e não punitiva, e emita comportamentos considerados desejados pela comunidade social relevante para a pessoa que se comporta, mas que não hesita, em emitir comportamentos que produzem reforços positivos para ela, independentemente do que pensam os outros, ou dos critérios pelos quais avaliam os comportamentos dela. Uma pessoa amada apresenta variabilidade comportamental , seus comportamentos são, fundamentalmente, selecionados por consequências reforçadoras positivas, apresentam maior probabilidade de consequenciar os comportamentos dos outros com quem interage da maneira reforçadora e se sentem livres.


G - Posso dizer que se me sinto amado dou o melhor de mim?


T - Exatamente. Seus comportamentos tenderão a ser os desejados pelos que o cercam, você aumenta a variabilidade comportamental – o que aumenta a probabilidade de obter mais reforçadores positivos – e os sentimentos são de bem-estar, de satisfação, de bem-querer. A pessoa amada vive melhor. A pessoa que dá amor aumenta a probabilidade de ser amada. É uma interação em que todos ganham: as pessoas emitem comportamentos queridos e vivenciam sentimentos doces. Percebi claramente seu amor pela sua irmã quando procurou poupá-la de vê-lo. Sua aparência a assustava, não é?


G - “Minha irmã, já quase completamente vestida, abriu a porta do meu quarto que dava para a antessala e olhou ansiosa para dentro. Não me descobriu logo, mas ao me perceber embaixo do canapé – Santo Deus, em algum lugar eu havia de estar, não podia ter voado embora! – ela se assustou tanto que, incapaz de se dominar, fechou a porta outra vez por fora. Mas, como se arrependesse do seu comportamento, abriu-a de novo imediatamente e entrou na ponta dos pés, como se fosse o quarto de um doente grave ou mesmo de um estranho.” (p. 36). “Certa vez – já havia passado bem um mês desde a minha metamorfose, não existindo, pois, mais nenhum motivo especial para minha irmã se espantar à vista de mim – ela veio um pouco mais cedo que de costume e me encontrou quando eu ainda olhava pela janela, imóvel e, portanto, numa posição propícia para assustar..., mas não só ela não entrou, como também recuou e fechou a porta. Naturalmente eu me escondi logo debaixo do canapé, mas tive de esperar até o meio-dia antes que minha irmã voltasse, e ela parecia mais inquieta que de hábito. Por aí, reconheci que ver-me continuava sendo insuportável para ela – e assim haveria de permanecer – e que seguramente ela precisava fazer um grande esforço para não sair correndo à vista mesmo da pequena parte do meu corpo que sobressaia sob o  canapé. Para poupar-lhe também essa visão, um dia eu arrastei o lençol nas costas até o canapé – levei quatro horas para realizar esse trabalho – e o dispus de tal maneira que agora eu ficava completamente coberto e minha irmã não podia ver-me  nem que se agachasse.” (pp. 45 e 46)


T - Foi um gesto de amor da sua parte poupando sua irmã de uma cena horrível para ela. Você mais uma vez revelou seu amor pela irmã: fez aquilo que mais a poupa do sofrimento de vê-lo, mesmo que isso signifique mais dor e desconforto para você. E, também revelou coragem em aceitar a realidade dos sentimentos dela, por mais aversivos que pudessem ser para você, quando imaginou que ela tinha a opção de retirar o lençol caso quisesse vê-lo. Você deu um belo exemplo de amor pelo outro, o amor na sua forma mais elevada: o amor agápico.


G- Sim. Pensei, porém, que “se na opinião dela esse lençol tivesse sido desnecessário, então, ela poderia tê-lo retirado, pois estava suficientemente claro que não fora por prazer que eu havia me isolado de modo tão completo; mas ela deixou o lençol como estava e acreditei até mesmo ter apreendido um olhar de gratidão, quando uma vez levantei o lençol cautelosamente com a cabeça, para ver como minha irmã acolhia a nova instalação.” (p. 46)


T - Ela demonstrou amor por você, Gregor, pois mesmo considerando sua figura aversiva não deixou de frequentar seu quarto e de cuidar de você.


G - Até, então, ela se esforçava para me ajudar. “Será que ela notaria que eu nem tinha tocado o leite – e, não, de forma alguma, por falta de fome? E será que traria outra comida mais adequada para mim? Se não o fizesse espontaneamente, eu preferiria morrer de fome a chamar sua atenção para isso, embora na verdade sentisse uma pressão medonha para disparar de debaixo do canapé, atirar-me aos pés da minha irmã e pedir-lhe alguma coisa boa de comer. Mas minha irmã percebeu de pronto, com espanto, a tigela ainda cheia, em volta da qual estava esparramado um pouco de leite, ergueu-a do chão – na realidade, não com as mãos nuas, mas com um trapo − e levou-a para fora. Eu estava extremamente curioso para saber o que ela traria em substituição ao leite, fazendo as mais variadas conjeturas a esse respeito. Mas jamais teria podido adivinhar o que, na sua bondade, minha irmã de fato fez. Ela trouxe, para testar o meu gosto, todo um sortimento, espalhado sobre um jornal velho. Havia ali legumes já passados, meio apodrecidos; ossos do jantar, rodeados por um molho branco já endurecido; algumas passas e amêndoas; um queijo que, dois dias antes, eu tinha declarado intragável; um pão seco, um pão com manteiga e um pão com manteiga e sal. Além de tudo ela ainda acrescentou a tigela – provavelmente destinada de uma vez por todas para mim – na qual havia despejado água. E por delicadeza, pois sabia que eu não comeria na sua frente, afastou-se o mais rápido possível e até girou a chave na fechadura, para que eu fosse capaz de perceber que poderia ficar tão à vontade quanto quisesse.” (pp. 36 e 37)


T - Vocês de fato se amavam. O amor envolve sentimentos e ações. O amor não é a origem das ações. Não ajo em benefício do outro porque o amo... as contingências que produzo com meus comportamentos em relação ao outro geram amor. As contingências que propicio ao outro produzem nele sentimentos que ele pode nomear, dizendo, por exemplo, “sinto-me amado por meu companheiro”. As contingências que ele produz para mim despertam em mim sentimentos que descrevo como “sinto-me amado por ele”. Como tal, o amor é sentimento produzido por contingências reforçadoras positivas amenas de natureza social e tais contingências são apresentadas de maneira espontânea, num sentido muito específico: exclusivamente sob o controle da existência do outro (que pode estar fisicamente presente ou não), nunca sob pressão ou exigência. E, o que mantém o comportamento de amar são as contingências reforçadoras positivas que propicio para o outro. O bem-estar gerado no outro pelas consequências que produzi me são também reforçadoras. Sentirei que sou amado se, através dos seus comportamentos, o outro manejar contingências em relação à mim com as mesmas funções das que apresento para ele. Aí há um amor correspondido. 


G - Você está dizendo que o amor não é um sentimento que emerge de dentro de nós e nos mobiliza em direção a quem amamos?


T - Exatamente. O ser humano carrega nele a capacidade de amar. Carrega também a possibilidade de transformar tal potencial humano em atos e sentimentos – se expressa a partir de contingências de reforçamento que caracterizam a inter-relação entre dois seres.


G - Quer dizer que eu, a partir de meus comportamentos, posso dar amor e evocar no outro comportamentos de amor por mim?


T - Sim, e vice-versa.


G - Isso significa que se eu continuar me comportando como um inseto posso levar minha irmã a deixar de me amar?


T - Esse perigo é provável. O amor, como disse, não é inerente ao ser humano; a capacidade de amar sim. Ele é produto de contingências. Não é igualmente eterno. Precisa ser mantido; se não o for entrará em extinção.


G - Mas, eu posso continuar amando uma pessoa que já morreu...


T - Pode. Em primeiro lugar as contingências que regulavam a interação entre os amantes não se alteram mais. Não existem novas contingências, que se aversivas poderiam dar origem a novos comportamentos que enfraqueceriam a interação que produz amor. As lembranças, as imagens, o contato com estímulos reforçadores condicionados (fotos, músicas, objetos etc.), as quais continuam presentes são reforçadores condicionados, que mantêm os comportamentos de amar. Mas, os sentimentos, na ausência de suportes atuais mais eficientes funcionalmente, sofrem algum grau de extinção.


T - As relações afetivas ou não entre as pessoas se mantêm enquanto as contingências estão atuando. Mudem-se as contingências e mudarão comportamentos e sentimentos.


T - Gregor, você subestima a capacidade que as pessoas têm para responder a novas contingências. Você, provavelmente, se espantará ao reconhecer que sua extrema dedicação à família foi precisamente o que a manteve acomodada dependendo de você. Você mesmo me narrou que só após à metamorfose descobriu que “o dinheiro que trouxera todos os meses para casa – eu só reservava alguns florins para mim mesmo – não tinha sido todo gasto e formara um pequeno capital. Na verdade, poderia ter pago, com essa sobra de dinheiro, mais uma parte da dívida do meu pai ao chefe, e com isso estaria muito mais próximo o dia em que poderia me livrar do emprego; mas agora era inevitavelmente melhor assim do modo como o pai havia arranjado as coisas.” (p. 43) Você se omitiu em relação a sua própria vida; você nem sequer sabia o destino do dinheiro que você ganhava com enorme sacrifício e – que espantoso! – ainda agora me diz “melhor assim”? “Melhor assim” para quem? Você continua privilegiando o outro às custas do seu próprio sofrimento. 


T - E, em relação ao gerente você continua tendo uma postura submissa. Baseio-me no seu próprio relato, quando ele, naquela manhã da metamorfose, foi até sua casa para saber o motivo de seu atraso no serviço e confrontou-se com você... 


G - De fato, eu lhe disse: “Bem, senhor gerente, o senhor está vendo que não sou teimoso e que gosto de trabalhar; viajar é fatigante, mas não poderia viver sem viajar. Para onde o senhor vai, senhor gerente? Para a firma? Sim? O senhor vai relatar tudo fielmente? Pode-se no momento estar incapacitado para trabalhar, mas essa é a hora certa para se lembrar das realizações passadas e para se pensar que mais tarde, uma vez superados os obstáculos, sem dúvida se vai trabalhar com mais afinco e forças mais concentradas. Devo muita obrigação ao senhor chefe, isso o senhor sabe muito bem. Tenho por outro lado de cuidar de meus pais e da minha irmã. Não me torne porém as coisas mais difíceis do que já são. Tome o meu partido na firma. Que o caixeiro viajante não é querido eu sei. Todos pensam que ele ganha rios de dinheiro e além disso leva uma boa vida. Não se tem de fato nenhuma oportunidade especial para se analisar melhor esse preconceito.” (p. 25 e 26) 


T -  Gregor, você falou com seu gerente como uma pessoa que se vê refém de outra. Você lhe deu o poder de dominar seus comportamentos e em certo sentido sua vida...


G - “Mas, o senhor, gerente, o senhor tem sobre as coisas, cá entre nós, uma visão de conjunto melhor do que o resto do pessoal, melhor até do que o próprio senhor chefe, que na qualidade de empresário se deixa enganar facilmente no seu julgamento em prejuízo do funcionário. O senhor sabe muito bem que o caixeiro viajante, que fica quase o ano inteiro fora da firma, pode assim se tornar facilmente vítima de mexericos, casualidades e queixas infundadas, contra as quais é completamente impossível se defender, uma vez que na maioria das vezes ele não fica sabendo delas se só o faz quando, exausto, termina uma viagem e já em casa sente na própria carne as consequências nefastas cujas origens não podem mais ser descobertas. Senhor gerente, não vá embora sem me dizer uma palavra capaz de mostrar que o senhor me dá pelo menos uma pequena parcela de razão!” (p. 26)


T - Você resumiu muito bem as relações que manteve com essas pessoas. Já lhe ocorreu a natureza de tais relações?


G - Em casa nos amamos. Não há dúvida disso. Meu chefe me respeita e me admira. Eu também o admiro e cumpro meus deveres com dedicação e satisfação.


T - Gregor você não deveria ter tanta estima pelas palavras. Elas quase sempre descrevem sentimentos e razões. Os sentimentos são muito difíceis de serem descritos e nomeados de maneira confiável. Teremos oportunidade de aprofundar este tema mais à frente. Razões não são causas de comportamento. O que determina o que uma pessoa faz não é necessariamente a mesma coisa que determina o que ela diz. Mesmo as pessoas sinceras e bem-intencionadas podem – e frequentemente o fazem – confundir aquilo de que seus comportamentos são função.


G - O que você me diz me confunde...


T - Dou um exemplo. Uma pessoa pode dizer para seu pai que o ama, que adora tê-lo ao seu lado, que se sente amado pelo pai... Pode honestamente sentir tudo isso. Na verdade, se os comportamentos do pai são a fonte de segurança financeira do filho, se a presença contínua do pai ao lado da família é uma evidência de que o filho não será influenciado por outras fontes de controle (amigos, namorada com quem poderá vir a constituir uma família e se afastar física e financeiramente do pai), então, o que sente não é amor pelo pai, mas o sente como fonte de segurança, de proteção... É um sentimento bom também, mas não é igual ao amor. Os comportamentos e a presença do filho representam a fonte de alívio para o pai, no que se refere a futuras agruras e privações. Alívio pode ser confundido com prazer, satisfação, amor, no entanto são sentimentos produzidos por contingências de reforçamento muito diferentes.


G - Mas, ele pode sentir amor pelo pai...


T - Pode. Mas, note que no exemplo que lhe dei, e que lhe deve parecer muito familiar, os comportamentos do pai não produzem reforçadores positivos para o filho. Este está privado de prazeres, de vida afetiva, de descanso... É um escravo que se sente “feliz” porque não tem consciência do que controla seus próprios comportamentos de renúncia à vida em favor da família. Seus comportamentos estão sendo mantidos por reforçamento negativo (removem as críticas, os sofrimentos do pai) e consequências por elogio, gratidão... Estas consequências, no entanto, só são temporalmente associadas numa sequência: você se comporta “bem” (de acordo com as expectativas da comunidade controladora) e é elogiado. A relação é espúria e gera uma causalidade supersticiosa. Você não trabalha para a família porque é elogiado, mas para não ser punido... A diferença é sutil, mas fundamental. Lembra-se que já lhe disse que você não era um escravo “feliz”, mas um escravo “aliviado”?


G - “Que vida tranquila a família levava! – Eu disse para mim mesmo e senti, enquanto fitava o escuro diante de mim, um grande orgulho por ter podido proporcionar a meus pais e à minha irmã uma vida assim, num apartamento tão bonito. Mas, como seria agora, se todo o sossego, todo o bem-estar, toda a satisfação chegasse assustadoramente ao fim? Para não me perder nesses pensamentos, preferi por-me em movimento, rastejando de cá para lá no quarto.” (p. 34)


T - Você notou que nas suas reflexões ficou claro que você proporcionava boas coisas para a família, mas você teme a reação deles em relação à você se tiver que deixar de proporcioná-las? Você sentia, posso até admitir, satisfação por proporcionar-lhes tudo aquilo, mas estou mais inclinado a pensar que você sentia alívio pelo dever cumprido – preencher as expectativas e necessidades deles – a fim de evitar críticas, desprezo caso não se comportasse como eles esperavam que você o fizesse.


T - Lembre-se do primeiro argumento de sua mãe para acalmar o gerente quando ele veio até sua casa na primeira manhã em que você se atrasou para ir ao trabalho?


G - Ela disse: “Ele não está bem. Ele não está bem, acredite em mim senhor gerente. Senão como Gregor perderia um trem? Esse moço não tem outra coisa na cabeça a não ser a firma. Eu quase me irrito por ele nunca sair à noite; agora esteve oito dias na cidade, mas passou todas as noites em casa. Fica sentado conosco e lê em silêncio o jornal ou estuda horários de viagem.” (p. 17)


T - Veja Gregor como sua mãe descreve seus comportamentos. Ela enxerga que você não se dedica ao lazer, até lamenta que você se comporte assim, mas não faz nada de efetivo para convencê-lo a modificar sua rotina.


T - Comportamentos tão estereotipados, como o seu de trabalhar, trabalhar..., sem apresentar variabilidade, são tipicamente produzidos por contingências coercitivas que produzem comportamentos de fuga-esquiva. Ou seja, comportamentos que evitam ou removem consequências aversivas. No seu caso, ser criticado, rotulado como preguiçoso, irresponsável etc.


G - Mas, não parou por aí. Minha mãe usou a autoridade do gerente para forçar uma mudança no meu comportamento, já que eu não saia do quarto e ela não entendia o que estava ocorrendo comigo...


T - Você entendeu corretamente o ponto que quis explicitar acima: o controle sobre você era aversivo. Se seus familiares não estavam sendo aversivos o suficiente para alterar seu comportamento, vamos, então, usar um controle aversivo maior.


G - Ela falou exatamente o seguinte: “Estou feliz, senhor gerente, pelo fato de o senhor estar aqui; sozinhos não iríamos conseguir que Gregor abrisse a porta; ele é tão teimoso; e certamente não está bem, embora tenha negado isso de manhã.” (p. 18)


T - Ou seja, ela admite que você não está bem, em parte para convencer o gerente de que deve entendê-lo, Gregor, mas não o protege, pelo contrário, o expõe ao gerente.


G - Acho que é por se sentir autorizado pelos meus pais para me pressionar que ele comentou – sem conhecer a gravidade do meu quadro – “Nós do comércio, feliz ou infelizmente – como se quiser – precisamos muitas vezes, por considerações de ordem comercial, simplesmente superar um ligeiro mal-estar”. E meu pai o apoiou: “O senhor gerente pode, então, entrar no seu quarto?” (p. 18)


G - O gerente me humilhou ainda mais. Ele ainda me disse: “O senhor se entricheira no seu quarto, responde somente sim ou não, causa preocupações sérias e desnecessárias aos seus pais e descura – para mencionar isso apenas de passagem – seus deveres funcionais de uma maneira realmente inaudita. Falo aqui em nome dos seus pais e do seu chefe e peço-lhe com toda a seriedade uma explicação imediata e clara. Estou perplexo, estou perplexo. Acreditava conhecê-lo como um homem calmo e sensato e agora o senhor parece querer de repente começar a ostentar estranhos caprichos. O chefe em verdade me insinuou esta manhã uma possível explicação para as suas omissões – ela dizia respeito aos pagamentos à vista que recentemente lhe foram confiados −, mas eu quase empenhei minha palavra de honra no sentido de que essa explicação não podia estar certa. Porém, vendo agora sua incompreensível obstinação, perco completamente a vontade de interceder o mínimo que seja pelo senhor. E o seu emprego não é de forma alguma o mais seguro. No começo eu tinha a intenção de lhe dizer tudo isso a sós, mas uma vez que o senhor me faz perder o meu tempo inutilmente aqui, não sei por que os senhores seus pais não devem ficar também sabendo. Nos últimos tempos seu rendimento tem sido muito insatisfatório; de fato não é época de fazer negócios excepcionais, isso nós reconhecemos; mas época para não fazer negócio algum não existe, senhor Samsa, não pode existir. (pp. 19 e 20)


 T - As palavras do seu gerente comprovam o que tenho dito: seus comportamentos eram mantidos por contingências coercitivas e você não identificava as consequências aversivas porque seu repertório de fuga-esquiva – manifestado pelo trabalho dedicado, pontualidade etc. − era muito eficiente. Como tal, você não entrava em contato com tais consequências aversivas.


T - E o que você lhe respondeu, Gregor?


G - “Mas, senhor gerente, eu abro já, num instante. Um ligeiro mal-estar, um acesso de tontura impediram-me de me levantar. Ainda estou deitado na cama. Só um instantezinho de paciência!... Senhor gerente, poupe meus pais! Não há motivo para as censuras que agora o senhor me faz; também não me disseram uma palavra a respeito. Talvez o senhor não tenha lido os últimos pedidos que eu remeti. Aliás ainda vou viajar com o trem das oito, as horas de repouso me fortaleceram. Não se detenha mais, senhor gerente; logo mais estarei pessoalmente na firma; tenha a bondade de dizer isso e de apresentar minhas recomendações ao senhor chefe”. (p. 20)


T - Veja, Gregor, como você se comporta: quando seu chefe o pune você não consegue exercer sobre ele um contracontrole: Você não argumenta a seu favor, mudando o comportamento dele; você se desculpa e – mesmo diante de todas as evidências em contrário – minimiza a gravidade de sua situação atual e verbaliza aquilo que pode agradá-lo, mesmo que não seja capaz de cumprir com o prometido. Você emite comportamentos de fuga e espera, em função de sua história anterior sob controle de condições aversivas, que seu comportamento de justificar e de prometer pronta recuperação removerá a condição adversa. A compreensão do seu chefe reforçaria negativamente seu comportamento de submissão. Sempre foi assim Gregor, e ninguém sobrevive sem prejuízos emocionais e comportamentais a contingências aversivas duradouras. Começo a entender o processo comportamental que o levou ao estado que você vive hoje.


T - Em nenhum momento lhes ocorreu que suas condições poderiam ser dolorosamente drásticas... você precisava deles; e pouco lhes podia oferecer.


T - Se houvesse amor, seus pais se preocupariam em criar condições para que você tivesse acesso a reforçadores para você, não para eles em detrimento de você. O amor, na sua expressão mais elevada, se manifesta numa relação agápica: o que me reforça, o que me gratifica é aquilo que reforça e gratifica você. Em sua casa, não se via nenhum movimento para libertá-lo. A liberdade é um sentimento produzido por contingências reforçadoras positivas amenas. Era-lhe vetado buscar aquilo que lhe fizesse bem, principalmente, se aquilo que lhe fosse bom, privasse a família do que era bom para ela.


G - Você, infelizmente, tem razão. Ouvi uma conversa. “Tomei então pleno conhecimento – pois meu pai costumava se repetir muitas vezes nas suas explicações, em parte porque ele mesmo não se ocupava havia muito tempo dessas coisas, em parte também porque a minha mãe não entendia tudo logo na primeira vez – de que, apesar de toda a desgraça, ainda restava dos velhos tempos um pecúlio, de qualquer modo bem pequeno, que os juros não tocados nesse ínterim tinham feito crescer alguma coisa. Mas, além disso, o dinheiro que eu trouxera todos os meses para casa – eu só reservava alguns florins para mim mesmo – não tinha sido todo gasto e formara um pequeno capital. Atrás da minha porta, meneei vivamente a cabeça, satisfeito com a inesperada previdência e senso de economia.” (pp. 42-43)


T - Você não percebeu, Gregor, que seu pai o manteve por mais tempo que o necessário escravo do empresário. Seu pai pouco se preocupou com seus sentimentos e com o que as condições adversas daquele trabalho poderiam lhe ocasionar... Mesmo neste momento, me narrando o ocorrido, você parece aliviado pelo fato de seu pai ter acumulado um pecúlio – que é verdade, agora será útil – mas, às custas de sua liberdade e do atrofiamento do seu desenvolvimento como pessoa!


G - “Na verdade eu poderia ter pago, com essa sobra de dinheiro, mais uma parte da dívida do meu pai ao chefe, e com isso estaria muito mais próximo o dia em que poderia me livrar do emprego; mas agora era indubitavelmente melhor assim do modo como meu pai havia arranjado as coisas.” (p. 43)


T - Gregor, você tinha importantes déficits de repertório para lidar com as relações familiares e com sua relação com o mundo. Quando as pessoas são reforçadas positivamente ou negativamente perdem completamente a capacidade de discriminar as reais contingências em operação e se tornaram dóceis e submissas ao agente controlador. É como se a pessoa dissesse para si mesma: “ele gosta de mim”; “ele me valoriza”; “sinto-me bem atendendo as expectativas dele”; “ele me protege” etc. Por isso, o chamei de “escravo feliz”. Fiz uma ironia e uma descrição das contingências de reforçamento em operação.


G - Não concordo inteiramente com o que você diz. Afinal, não posso fazer as coisas feliz? Ser reforçado, como diz você, implica em fazer porque se quer fazer. Escravo feliz é um jogo de palavras. Se me sinto feliz, não sou escravo.


T - Gosto quando você argumenta como o fez. Expôs seu ponto de vista com clareza, explicitou suas discordâncias com meus argumentos. Aliás, se você tivesse se comportado dessa maneira na sua vida, não estaria nas condições em que se encontra hoje. Mas, você merece uma explicação direta para sua pergunta. As contingências devem produzir consequências reforçadoras para ambos e não exclusivamente para o controlador. O reforçamento negativo produz sentimentos de alívio, o que pode confundir a discriminação do que eficientemente controla o comportamento emitido. É comum a pessoa que emite o comportamento desejado pospor a consequência aversiva (comportamento de esquiva) e ser imediatamente consequenciado temporalmente (não funcionalmente) por algum evento que tem topografia reforçadora, mas não é apresentada com tal funções. Falo que a pessoa está consciente do evento que se segue ao seu comportamento, mas não está consciente da contingência que controla tal comportamento.


G - Por que falo o que penso para você e não conseguia falar para meu pai, nem para meu chefe?...


T - O comportamento verbal é selecionado pelas consequências que produz. Se você fala e é punido ou ignorado, você deixa de falar. Se você fala e é ouvido atentamente, se seus argumentos são considerados etc. a tendência a falar se fortalece. Ao lado disso, o contexto, principalmente em que situação ou com quais pessoas você fala, adquire uma função selecionadora que aumenta ou diminui a probabilidade de falar sobre determinados temas. Por exemplo, diante do seu pai falar sobre itens em relação aos quais ele discorda, produz punição; falar concordando com ele é bem recebido. O que você acha que ocorreu com você?


G - Falava o que meu pai queria ouvir. De resto, me calava...


T - Tudo o que discutimos sobre falar se aplica a fazer. Faço aquilo que é reforçado; deixo de fazer aquilo que é punido.


T - Mas, há uma condição ainda pior do que a considerada acima. Aquela na qual a pessoa emite a resposta esperada pelo outro, ocorre uma consequência gratificante (“obrigado”, “muito bem”, “você é um filho responsável e afetivo, a quem muito amo”), afinal você se comportou da maneira desejada por ele, no entanto, o elemento mais crítico é que seu comportamento evitou que você fosse punido. Ao fazer o que o outro espera de você, você não é criticado.


G - Então, ocorrem duas consequências? Sucede-se uma gratificação (que é percebida) e adia-se uma crítica (que não chega a ocorrer). Como saber qual funcionou?


T - Provavelmente, ambas funcionaram.


T - Para que um evento tenha função sobre seu comportamento, é necessário que alguma vez (provavelmente, muitas vezes) o evento tenha atingido você com função específica. Em algum momento de sua vida você foi criticado, e a crítica teve função aversiva para você. Provavelmente, porque ela foi associada com punição física (um tapa, um tom de voz rude e alto, por exemplo) ou foi associada com perda de atenção, de carinho (você foi ignorado, deram-lhe “gelo”, puseram-no no castigo por um tempo, tiraram-lhe algum privilégio etc.). Você aprende a discriminar, a perceber situações nas quais (quando o pai está presente, por ex.) se emitir determinados comportamentos, então será criticado. A partir daí você forma um conceito: em situações semelhantes (não necessariamente iguais), respostas da mesma classe (não necessariamente iguais) têm maior probabilidade de serem criticadas (não necessariamente o serão): você se esquiva não emitindo a resposta criticável e, se possível, emite outra com alta probabilidade de ser reforçada. É sua história de contato com contingências de reforçamento que permite no presente se comportar em função de uma crítica que não ocorre mais (mas já ocorreu, necessariamente).


G - Você parece estar me dizendo que o meu comportamento foi função da evitação da crítica, mais do que da apresentação do elogio. Estou certo?


T - Para sabermos o que controlou seu comportamento temos duas possibilidades. A primeira delas é identificar qual o estado corporal prevalente, qual o sentimento que prevaleceu. Se foi satisfação, alegria, então o que controlou foi a consequência reforçadora positiva. Se, por outro lado, ocorreu um alívio (“ufa, me safei de um perigo”), reduziu a ansiedade, o medo, a preocupação, então o que prevaleceu foi a evitação da consequência aversiva. Às vezes, a discriminação entre um estado corporal sentido e outro (entre um sentimento e outro) é fácil. Quando as contingências são intensas é mais fácil; quando são amenas é mais difícil.


T - Há um segundo critério, porém. Mude-se a fonte da consequência, introduzindo uma pessoa que não costuma criticar e observe o comportamento que ocorre. Toda vez que o pai pede (manda) para o filho fazer uma tarefa em casa o garoto a faz e é elogiado pelo pai por isso. Toda vez que a mãe pede (não manda) para o filho fazer uma tarefa em casa, ele raramente a faz, embora seja elogiado pela mãe quando é atendida.


T - Qual a diferença? Na história de interação da criança com os pais o que ocorreu foi o seguinte: Quando o pai pediu algo e não foi atendido, o filho foi punido (“Sou seu pai. Você tem que me obedecer”; “É assim que você retribui tudo o que lhe faço?”). Por outro lado, quando a mãe não foi atendida ela simplesmente “deixou o filho pra lá” e fez o que precisava ser feito sem se queixar. Com o pai há história de punição: o “pedido” do pai tem função de SDp; com a mãe não há história de punição: o “pedido” da mãe tem função de SD.


G - Foi por isso que você me chamou de “escravo feliz”?


T - Exatamente. Não fez porque quis fazer, fez para evitar a punição (há uma relação de controle coercitivo de um sobre o outro). Ao fazer, porém, foi elogiado...


G - Como você percebeu isso comigo?


T - Você me informou. Você me disse: “O dinheiro que eu trouxera todos os meses para casa − eu só reservava uns poucos florins para mim mesmo – não tinha sido todo gasto e formara um pequeno capital. Atrás da minha porta eu meneei vivamente a cabeça, satisfeito com a inesperada providência e senso de economia. Na verdade eu poderia ter pago, com essa sobra de dinheiro, mais uma parte da dívida do meu pai ao chefe, e com isso estaria muito mais próximo o dia em que poderia me livrar do emprego; mas agora era indubitavelmente melhor assim do modo como meu pai havia arranjado as coisas.” (p. 43)


G - E, não é melhor mesmo?


T - Seu pai o privou da possibilidade de escolher uma nova alternativa de trabalho, mantendo-o devedor do chefe por um tempo desnecessário sem consultar você. Você continuou trabalhando para poupá-lo de sofrimentos, sem saber quais eram os planos dele. Você não participou da decisão. Além disso, se você tivesse tido uma vida profissional e pessoal mais sob controle de contingências gratificantes do que coercitivas, muito provavelmente você não teria adoecido. Ao dizer que “agora era indubitavelmente melhor assim do modo como meu pai havia arranjado as coisas” você continua preocupado em não criar problemas para seu pai. Você, insisto, se esquece de você e que haveria uma outra possibilidade: você não ter adoecido. Você continuou inconsciente dos determinantes dos seus comportamentos.


G - Mas, eu não podia contrariar meu pai... Explicando melhor, eu nem sequer pensava em contrariá-lo.


T - Você se comportava de uma determinada maneira, achando que aquela era a maneira correta e única de agir. Você estava “inconsciente” do que estava determinando seus comportamentos. Nós não temos um inconsciente. Nós sabemos (ou não sabemos), isto é, somos capazes (ou incapazes) de descrever as contingências que controlam nossos comportamentos. É apenas nesse sentido que somos conscientes ou inconscientes: sabemos ou não sabemos as variáveis que nos determinam.


G - Se eu fosse consciente da maneira como meu pai mantinha meu comportamento eu não teria adoecido?


T - Em primeiro lugar seu pai não era a única fonte de controle coercitivo sobre você; havia outras, como por exemplo, o controle do seu gerente. Ambos, e poderíamos possivelmente citar outros, tinham em comum o fato de serem autoridades aos seus olhos e não lhe competia contestá-los. Mas, voltando a sua pergunta: você teria dado um passo na direção de evitar a doença, no entanto, não bastaria.


G - A conscientização não liberta?


T - Não. O que liberta é o poder associado com a conscientização. Conhecer as contingências não é suficiente para modificá-las. É preciso desenvolver um repertório de comportamentos capazes de alterar as contingências adversas em contingências favoráveis. As revoluções sociais mostram exemplos magníficos do que acabo de dizer. Temos que ampliar nossos comportamentos até alterar aquilo que nos faz mal.


G - Você diz que a consciência das contingências que estão atuando não basta: é preciso mudar as contingências. E, como pode ser entendido o papel causal do inconsciente?


T - Nas propostas psicodinâmicas o inconsciente é um substantivo. Isso significa que o inconsciente é uma entidade, segundo seus autores, genuína do ser humano, que tem um papel iniciador, causal, explicativo dos nossos comportamentos e sentimentos. Ocorre que o inconsciente não foi descoberto pelos estudiosos dos dinamismos psíquicos, mas inventado por eles. É um suposto conceitual que carece de existência própria, dependendo sua existência do emprego dos termos pelos seus criadores. Como tal, é um substantivo abstrato com função causal sobre o organismo, originando, como foi dito, ações e sentimentos, sem se apoiar, no entanto, em evidências empíricas sistematizadas, de acordo com atitudes básicas da Ciência.


T - A Análise do Comportamento não participa de tal visão do funcionamento humano. Todos os comportamentos e sentimentos são função de contingências de reforçamento, que podem ser descritas, alteradas e, consequentemente, seu papel na determinação dos comportamentos e sentimentos pode ser demonstrado. As contingências de reforçamento atuam quer a pessoa saiba ou não descrevê-las, quer tenha ou não consciência (no sentido de ter ciência ou conhecimento) delas. É necessário o comportamento verbal – repertório exclusivamente humano – para se ter conhecimento das contingências. Como tal, o conhecimento das contingências é um fenômeno social, alicerçado no comportamento verbal, que exige pelo menos dois participantes: o ouvinte e o falante. Quando um analista de comportamento se refere às contingências de reforçamento em operação, pode adjetivá-la com o termo “consciente” (aquelas que são conhecidas pela pessoa que se comporta) ou “inconsciente” (aquelas que, não obstante estarem operando, não são conhecidas pela pessoa que se comporta). Como se pode concluir, os termos na proposta psicodinâmica são completamente diferentes em natureza e função dos termos na proposta behaviorista (que, aliás, deveria dispensar completamente tais termos do seu vocabulário para evitar as frequentes confusões). 


G - Mas, isso me era impossível. Meu pai não aceitaria nunca que me opusesse a ele... Talvez, por isso eu nunca me opus.


T - Seu pai não é imbatível, nem imutável. Você não tinha consciência e não desenvolveu poder. O nosso poder advém do nosso comportamento. É o comportamento que modifica o mundo. Seu repertório de comportamento era amplo e elaborado na esfera profissional. Pobre na área de desenvolvimento pessoal. Falaremos mais sobre isso.


T - A prova de que você poderia modificar seu pai está evidente na evolução da rotina familiar após sua “metamorfose”: você alterou drasticamente seu repertório de comportamentos e todos os membros da família modificaram seus comportamentos. Você já pensou como o funcionamento familiar teria sido mais construtivo se desde o início todos estivessem se comportando como passaram a se comportar diante da nova realidade após sua mudança drástica?


T - Pena que os comportamentos que você passou a emitir e os sentimentos que passou a sentir, que tiveram como função produzir comportamentos desejáveis na família (indesejáveis também, particularmente em relação a você) tenham sido contra seu desenvolvimento: você empobreceu seu repertório comportamental, passou a ter sentimentos de dor e sofrimento, passou a produzir consequências aversivas, impossibilitou acesso a reforçadores positivos. Não seria impróprio dizer que você adoeceu para melhorar a família.


G - Mas, eu não me transformei porque quis. Eu sofri esta “metamorfose”. Virei um inseto. Nunca pensei que isso ocorreria comigo. Muito menos desejei mudar a vida de minha família através da minha transformação.


T - Você está correto. Vou iniciar a explicação do que ocorreu. Você vivia basicamente sob controle de contingências coercitivas, isto é, sob controle aversivo. Tal situação produz repertório de comportamentos de fuga-esquiva fortes (frequentes, intensos), estereotipados (há pequena variabilidade) e com alta resistência à extinção. Na prática isso tudo significa: a pessoa trabalha muito, não experimenta outras alternativas (que poderiam ser mais favoráveis) e, mesmo que as condições controladoras possam ter mudado, ela não constata a mudança (não testa se a condição adversa ainda está em operação ou foi removida). No que concerne aos sentimentos, a pessoa vivencia estados corporais de ansiedade, medo, preocupação, culpa (quando não se comportou da forma esperada), ou seja, sentimentos ruins, que fazem sofrer. Além disso, quando os comportamentos apropriados para as contingências aversivas – da classe de fuga-esquiva  − ocorrem, tais sentimentos são reduzidos (isto é, ocorre alívio), pois a consequência aversiva é adiada ou removida. Some-se, para agravar mais o quadro, que a remoção da condição aversiva é temporária, o alívio é breve e o ciclo reaparece. Ocorre um estado corporal de exaustão. Ao mesmo tempo, o ambiente não disponibiliza consequências reforçadoras positivas: não há situações que gerem prazer, satisfação, alegria. As contingências de extinção, produzem sentimentos de depressão e de agressão (que não aparecem no seu caso porque  comportamentos agressivos foram praticamente eliminados do seu repertório. Não temos exemplos dessa classe de ação, porque provavelmente, foram exemplarmente punidos nas suas primeiras ocorrências na infância). Comportamentalmente, a isso você se resume. Que combinação desastrosa de contingências atuando anos a fio! Foi essa combinação que o levou a tal estado –; que o levou a sentir que você sofreu uma “metamorfose”. A mudança, como pode ver, ocorreu no âmbito dos seus comportamentos e sentimentos em função de contingências adversas que atuaram cotidianamente, o tempo todo. Você foi sendo vitimado por um processo comportamental – atuação ininterrupta das contingências – e sua transformação foi gradual. Não existiu no seu ambiente social nenhuma influência que o levasse a fazer auto-observação, nem que o levasse a ficar sob controle das relações dos comportamentos que você emitia com eventos antecedentes e consequentes. Seu repertório de comportamentos foi sendo alterado sem que você desse conta das transformações graduais e progressivas.


G - Não entendo como eu posso me comportar e sentir sem saber quais são os comportamentos e sentimentos...


T - A pessoa se comporta e sente em função das contingências de reforçamento em operação, quer tenha ou não conhecimento delas. Já lhe falei sobre isso. É necessário que haja contingências que produzam auto-observação para ocorrer o comportamento de ficar sob controle dos próprios comportamentos e sentimentos.


G - Como assim?


T - As contingências, que produzem auto-observação podem ser, por exemplo, questões tais como: O que você está fazendo agora? O que você está sentindo? O que o leva a se comportar desta exata maneira e a sentir o que está sentindo? (em outras palavras: quais são os antecedentes que alteram a probabilidade de você emitir este e não aquele comportamento e quais são as consequências que selecionam os comportamentos que você se mantém emitindo? )


T - Quando tal interação de contingências descritas acima ocorrem por um tempo limitado, e elas são eliminadas e as contingências mais favoráveis reassumem o controle – prevalecem as consequências reforçadoras positivas e os eventos aversivos são esparsos, evitáveis e pouco intensos – o repertório mantido, previamente por consequências reforçadoras positivas, temporariamente suprimido, reaparece plenamente e os sentimentos adversos – medo, ansiedade, insegurança etc. – são substituídos por sentimentos positivos – prazer, satisfação, segurança, paz etc.


T - Quando, no entanto, as contingências coercitivas permanecem por períodos muito longos, são intensas, e não há história relevante de contato com contingências reforçadoras positivas, o repertório básico de comportamentos se compõe quase exclusivamente de comportamentos de fuga-esquiva, a pessoa chega a uma exaustão funcional e os comportamentos não são mais emitidos, independentemente de não mais evitarem as consequências aversivas. E, há alterações no estado corporal, que são percebidas pela pessoa e nomeadas de acordo com termos arbitrários, que lhes atribuem a comunidade verbal: exaustão, desânimo, depressão, stress, desespero, falta de vontade (de viver). Quando a comunidade não propõe um nome, por ser um estado corporal ímpar ou pouco conhecido, então a pessoa cria um nome, um neologismo, ou recorre a uma metáfora: o estado corporal é sentido como se fosse... Daí, expressões do tipo: a vida me pesa como chumbo, sinto-me um verme etc. Como a metáfora tende a aproximar-se do real estado sentido, a pessoa pode, literalmente, acreditar na metáfora e se comportar como ou se sentir como se comporta ou se sente o elemento da metáfora.


T- O repertório comportamental pode ser suprimido a tal nível que a pessoa não consegue mais emitir comportamento de buscar ajuda. A sobrevivência da pessoa passa a depender exclusivamente dos outros. Essa é a razão pela qual estou aqui no seu quarto e não estamos no meu consultório.


G- Aliás, é uma questão que lhe queria fazer: como você veio parar aqui?


T- Fico lhe devendo esse relato. Estou aqui. Basta. Vamos retomar outros pontos.


G - Você fala que vivi sob controle coercitivo, sob contingências aversivas. Queria entender melhor isso tudo. A vida é difícil. Temos que vivê-la sem nos queixarmos. Foi assim que aprendi. Senti a vida pesada. Mas, o que se há para fazer? Nada. Ir em frente, sempre.


T - Começarei repetindo algumas frases suas. Depois responderei a cada ponto enfocado por você. Na manhã da “metamorfose” você pensou: “Ah, meu Deus! Que profissão cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia – viajando. A excitação comercial é muito maior que na própria sede da firma e além disso me é imposta esta canseira de viajar, a preocupação com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, um convívio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso. O diabo carregue tudo isso!” (p. 8) Na mesma manhã, no seu quarto, seus pensamentos continuaram: “Acordar cedo assim deixa a pessoa completamente embotada. O ser humano precisa ter o seu sono. Outros caixeiros viajantes vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto no meio da tarde ao hotel para transcrever as encomendas obtidas, esses senhores ainda estão sentados para o café da manhã. Tentasse eu fazer isso com o chefe que tenho: voaria no ato para a rua. Aliás, quem sabe não seria muito bom para mim? Se não me contivesse, por causa dos meus pais, teria pedido demissão há muito tempo; teria me postado diante do chefe e dito o que penso do fundo do coração. Ele iria cair da sua banca! Também, é estranho o modo como toma assento nela e fala de cima para baixo com o funcionário... Bem, ainda não renunciei por completo à esperança: assim que juntar o dinheiro para lhe pagar a dívida dos meus pais – deve demorar ainda de cinco a seis anos – vou fazer isso sem falta. Chegará então a vez da grande ruptura. Por enquanto, porém, tenho de me levantar, pois meu trem parte às cinco.” (p. 9)


T - Você tinha consciência das agruras do trabalho, da relação autoritária do chefe. Por que condicionar sua libertação ao pagamento da dívida de seus pais, o que devia demorar ainda de cinco a seis anos?


T - Você sabia como se esquivar do chefe: trabalhando arduamente, levantando-se às quatro para pegar o trem das 5 horas... Sabia também como se esquivar das críticas e da decepção do seu pai, bem como da humilhação que ele poderia sentir se não saldasse a dívida: dando-lhe todo seu salário mensalmente, economizando energias para suportar o trabalho e se privando de lazer para poupar dinheiro. Você em nenhum momento se propôs a alterar as contingências aversivas. Bastava-lhe se comportar da melhor maneira possível dentro delas, mas sem modificá-las. Em nenhum momento você procurou exercitar o contracontrole: estabelecer um controle – através de seus comportamentos – que alterasse o poder do chefe e do pai sobre você.  


G - Não havia alternativa.


T - Você não exercitava alternativas. Após a “metamorfose”, as alternativas surgiram apesar de você.


T - Sua subserviência era tão grande, que mesmo tendo constatado que a metamorfose o impedira de pegar o trem das 5 horas, você se sentiu responsável pelo atraso no horário do trabalho, uma vez que o trem das 7... “E mesmo que pegasse (este) trem não podia evitar uma explosão do chefe, pois o contínuo da firma tinha me aguardado junto ao trem das cinco e fazia muito tempo que havia comunicado minha falta... E se anunciasse que estava doente? Mas isso seria extremamente penoso e suspeito, pois durante os cinco anos de serviço, eu não tinha chegado doente uma única vez. Certamente o chefe viria com o médico do seguro de saúde, censuraria meus pais por causa do filho preguiçoso e cercearia todas as objeções apoiado no médico, para quem só existem pessoas inteiramente sadias, mas refratárias ao trabalho. E neste caso estaria tão errado assim? Com efeito, abstraindo-se uma sonolência realmente supérflua depois do longo sono, eu me sentia muito bem e estava até mesmo com uma fome especialmente forte.” (p. 10) 


T - Você notou que estava negando sua própria dificuldade? Você aceita que não vão acreditar mesmo em você; além disso, até se “sentia  muito bem!” Como? 


G - É verdade. Eu não me sentia bem...


T - Primeiro sua mãe o chamou quando se deu pelo seu atraso. Foi quando você “se assustou quando ouviu sua própria voz responder.” (p. 11) Depois seu pai por duas vezes, em seguida sua irmã por duas vezes. Você percebe como um atraso seu era considerado uma falha importante? E, qual foi sua primeira reação? Atender aos chamados e não chamá-los para lhes contar o que estava ocorrendo. Você “queria primeiro levantar-se, calmo e sem perturbação, vestir-se e sobretudo tomar o café da manhã, e só depois pensar no resto, pois percebia muito bem que, na cama, não chegaria, com as suas reflexões, a uma conclusão sensata.” (p. 12) Você continuou negando a “metamorfose”, a fim de não faltar ao compromisso: achou que a dor que sentia se dissiparia quando se pusesse de pé; que a alteração na voz seria o prenúncio de um severo resfriado, mesmo quando se deu conta que não conseguia sair da cama, pois as “numerosas perninhas que faziam sem cessar os movimentos mais diversos e que, além disso você não podia dominar.” (p. 12) Você perdeu o controle sobre seus movimentos e ainda assim procurava se engajar nos comportamentos responsáveis sem pedir ajuda, nem socorro: “Antes de soar sete e um quarto preciso de qualquer modo ter deixado completamente a cama. Mesmo porque até então virá alguém da firma perguntar por mim, pois ela abre antes das sete horas.” (p. 14) Na situação em que se encontrava ainda se preocupava com o estrondo produzido pelas costas duras quando ocorreu sua  queda da cama “e que provavelmente causaria, se não susto, pelo menos apreensão atrás de todas as portas.” (p. 15)


T - Você estava mais sob controle dos comportamentos de sua rotina matinal que precisavam ser emitidos, mesmo com atraso, do que sobre seu estado: seus sofrimentos, a maneira como percebia e lidava com o seu corpo eram secundários. Quando tocou a campainha da porta...


G - “É alguém da firma, disse a mim mesmo e quase gelei, enquanto as perninhas dançavam mais rápidas por causa disso. Eles não vão abrir, disse para mim mesmo, preso a alguma esperança absurda... Só precisei ouvir a primeira palavra de saudação do visitante para saber quem era – o gerente em pessoa. Por que eu estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão se levantava logo a máxima suspeita?... Tinha de vir o próprio gerente, era preciso mostrar com isso à família inteira – inocente – que a investigação desse caso suspeito só podia ser confiada à razão do gerente?” (p. 16)


T - Você entrou em ansiedade. A campainha foi um sinal de que algo horrível iria lhe acontecer: a repreensão do chefe, a humilhação da família por ter um filho irresponsável. Nenhuma resposta sua, nenhum argumento impediria o desfecho da avaliação condenatória do gerente. Você estava “doente”. Você próprio demorou para aceitar que suas transformações justificavam seu atraso. Como poderia acreditar que seus argumentos convenceriam o gerente e sua própria família?


G - De onde vem esse temor horrível do julgamento do gerente?


T - Observe como seus pais reagiram ao gerente. Não terão sido eles que lhe deram o modelo de como reagir e como se sentir diante de alguém com poder? Veja a fala de sua mãe: “Ele não está bem, disse ao gerente quando seu pai ainda falava junto à porta. Ele não está bem, acredite em mim, senhor gerente. Senão como Gregor perderia o trem? Esse moço não tem outra coisa na cabeça a não ser a firma. Eu quase me irrito por ele nunca sair à noite; agora esteve oito dias na cidade, mas passou todas as noites em casa. Fica sentado à mesa conosco e lê em silêncio o jornal ou estuda horários de viagem... Aliás, eu estou feliz, senhor gerente, pelo fato de o senhor estar aqui; sozinhos não iríamos conseguir que Gregor abrisse a porta; ele é teimoso, e certamente não está bem, embora tenha negado isso de manhã.” (pp. 17 e18) E também – por que não lembrar? – pela própria postura do gerente. Lembra-se do que ele disse à sua mãe?


G - “De outro modo, cara senhora, também não sei como explicar isso. Esperemos que não seja nada grave. Embora por outro lado eu tenha de dizer que nós, homens do comércio, feliz ou infelizmente – como se quiser – precisamos muitas vezes, por considerações de ordem comercial, simplesmente superar um ligeiro mal-estar.” (p. 18)


T - Não bastassem tais considerações, ele não hesitou em ameaçá-lo, diante da sua demora – plenamente justificável – em sair do quarto...


G - Lembro-me do que me disse elevando a voz. “Senhor Samsa, o que está acontecendo? O senhor se entrincheira em seu quarto, responde somente sim ou não, causa preocupações sérias e desnecessárias aos seus pais e descura – para mencionar isso apenas de passagem – seus deveres funcionais de uma maneira realmente inaudita. Falo aqui em nome de seus pais e do seu chefe (observação do T: o gerente os coloca juntos como agentes repressores) e peço-lhe com toda a seriedade uma explicação imediata e clara. Estou perplexo, estou perplexo. Acreditava conhecê-lo como um homem calmo e sensato e agora o senhor parece querer de repente começar a ostentar estranhos caprichos. O chefe em verdade me insinuou esta manhã uma possível explicação para suas omissões − ela dizia respeito aos pagamentos à vista que recentemente lhe foram confiados −, mas eu quase empenhei minha palavra de honra no sentido de que essa explicação não podia estar certa. Porém, vendo agora sua incompreensível obstinação, perco completamente a vontade de interceder o mínimo que seja pelo senhor. E o seu emprego não é de forma alguma o mais seguro. No começo eu tinha a intenção de lhe dizer isso a sós, mas uma vez que o senhor me faz perder o meu tempo inutilmente aqui não sei porque os senhores seus pais não devam também ficar sabendo. Nos últimos tempos seu rendimento tem sido muito insatisfatório; de fato não é época de fazer negócios excepcionais, isso nós reconhecemos; mas época para não fazer negócio algum não existe, senhor Samsa, não pode existir.” (pp. 19 e 20)


T - Entendo por que você não os enfrentava. Seu estado físico, emocional e comportamental era sua única e melhor defesa. Por que não o usou? Porque faz parte de suas autorregras que não há desculpa aceitável para uma falha. Assim, você não estar em perfeita forma, trabalhando e obedecendo, é fracasso pessoal, é omissão, é fraqueza. É objeto de crítica; não de compreensão. E, o mais triste, você concordava com eles. Veja como você respondeu a ele: completa submissão.


G - “Mas, senhor gerente eu abro já, num instante. Um ligeiro mal-estar, um acesso de tontura impediram-me de me levantar. Ainda estou deitado na cama, mas agora me sinto novamente bem-disposto. Já estou saindo da cama. Só um instantezinho de paciência! As coisas não vão tão bem como eu pensava. Mas já estou bem. Como é que uma coisa assim pode acometer um homem? Ainda ontem à noite estava tudo bem comigo, meus pais sabem disso, ou melhor: já ontem à noite eu tive um pequeno prenúncio. Eles deviam ter notado isso em mim. Por que não comuniquei à firma? Mas sempre se pensa que se vai superar a doença sem ficar em casa. Senhor gerente, poupe meus pais! Não há motivo para as censuras que agora o senhor me faz; também não me disseram uma palavra a respeito. Talvez o senhor não tenha lido os últimos pedidos que eu remeti. Aliás, ainda vou viajar com o trem das oito, as horas de repouso me fortaleceram. Não se detenha mais, senhor gerente; logo mais estarei pessoalmente na firma: tenha a bondade de dizer isso e de apresentar minhas recomendações ao senhor chefe.” (p. 20) 


T - Que triste submissão, Gregor! Foi-lhe tão aversivo o que lhe disse seu gerente. Ele sabe como feri-lo com maestria: o ataca com palavras com a agilidade de um esgrimista recortando o espaço com sua arma. Ele sabe também o papel de seus pais na sua vida. Dizer tudo o que disse na presença deles acrescenta-lhe um componente opressivo mais insuportável. Você passou a falar, falar... foram comportamentos verbais de fuga-esquiva preocupantes. Você omitiu seu estado corporal real. Você próprio negou sua condição física e emocional presente. Prometeu o que não poderia cumprir... quantas vezes na vida já deve tê-lo feito: prometer e cumprir às custas de sua própria existência? Seu organismo deu-lhe um basta, como se lhe desse um mando: chega de fazer o impossível (que isso você ainda fazia); agora é impossível continuar. Quero ver como você vai se virar... Essa é uma metáfora. A metáfora do “basta disso”, mesmo que parar  custe até sua exclusão social. Nada mais importa. Você chegou ao seu limite.


T - Você, sem compreender exatamente sua própria existência: como se comportava e sob que contingências se comportava, participou do seu suicídio. As contingências foram matando-o progressivamente sem que você tivesse consciência de que participava ativamente do processo de destruição. A vida é um organismo que se comporta. O corpo pode ser destruído – por uma doença incurável, por um acidente – e os comportamentos não são mais possíveis. Ou as contingências são tão adversas que vão inviabilizando os comportamentos e sem comportamentos o corpo se cristaliza inerte e morre por falta de comportamentos que lhe inoculavam vida. As contingências esvaziaram-no de comportamentos e, desta maneira, prenunciaram a morte do seu corpo. 


G - Não sei se quero viver. Você tem razão. Ou se ainda consigo viver se o quiser.


T - Você teria que se tornar agente ativo da transformação de seu destino: se comportando, de tal maneira a alterar as contingências adversas e substituí-las por outras mais favoráveis para devolver-lhe a vida.


G - Posso escolher a vida ou a morte?


T - Não, diretamente como um ato de vontade. Sim, mudando ou não as contingências. Não querer viver é estar insensível a contingências reforçadoras ou extremamente impossibilitado do acesso a elas. Para mudar seu sentimento sobre a vida você terá que despir-se da mortalha de contingências aversivas que o recobrem e que migram para todo o seu corpo, passando a fazer parte dele. É o primeiro passo.


G - Como posso reconhecer a função de tais contingências adversas sobre mim?


T - Pense nas suas relações interpessoais. Pense nos comportamentos do seu gerente, por exemplo.  


G - Eu estranhei meu gerente. Ele nunca falou assim comigo. Nunca me tratou assim.


T - Ele precisou fazer isso antes? Ele não era bom, compreensivo, razoável nas exigências que impunha para você. Seus comportamentos de eficiência, de subserviência, de abnegação controlavam as relações que ele mantinha com você. Não é que o chicote não estivesse à mão. Não precisava ser brandido.


T - Vamos voltar um pouco mais atrás. Há vários pontos que estão sem resposta.


T - Respondendo à questão que você propôs: não há intencionalidade na emissão dos comportamentos e nos estados sentidos. São produtos constatados de um longo e intrincado processo de operação das contingências aversivas. Você só percebe o produto final, por isso tudo lhe pareceu estranho e repentino. Escapou-lhe completamente o processo. Já lhe falei sobre processo comportamental em outra ocasião. Às vezes, em terapia alguns temas são recorrentes. É um recurso para tornar pontos obscuros mais claros e aumentar a probabilidade de que novos conceitos controlem comportamento.


T - Respondendo à outra questão: a “metamorfose” não teve por objetivo ou intenção produzir mudanças nos comportamentos das pessoas da família. Você mudou drasticamente seu comportamento diante da nova realidade, isto é você deu origem a novas contingências para cada pessoa da família e tais novas contingências modelaram e selecionaram novos repertórios de comportamentos, ou reinstalaram comportamentos enfraquecidos, em seu pai, em sua mãe e em sua irmã. Não há lugar numa análise de comportamento para intenções como causa de comportamentos.  


T - Acho importante deixar de lado uma visão romântica das relações humanas. As pessoas, e nisso devo incluir você, descrevem as relações interpessoais sob o controle de regras e depois passam a acreditar nessas regras como se fossem formuladas por elas próprias. Tornam-se autorregras. As pessoas ficam sob controle (se influenciam por) de tais regras e autorregras e deixam de observar como as interações realmente se dão. Deixam de lado os fenômenos comportamentais em si e respondem às próprias crenças sobre os fenômenos comportamentais. 


G - Não estou entendendo nada dessa história de regras, autorregras, crenças...


T - Desde pequenos ouvimos frases que parecem descrever como ocorrem as interações entre pessoas. Por exemplo, se João é pai de Pedro, então João ama Pedro. Tal enunciado pode ser chamado de regra, pois descreve uma relação de possibilidade. O equívoco consiste em transformar uma possibilidade (razoavelmente provável quando se baseia em observações fatuais: muitos pais amam seus filhos) em uma certeza: todos os pais necessariamente (por serem pais) amam os seus filhos, o que não é verdade. De tanto ouvir tal tipo de asserção a pessoa passa a acreditar que as relações entre pais e filhos são assim regidas (e não “podem ser” assim regidas), independente de outras pessoas continuarem ou não repetindo tal enunciado. O que começou como uma regra, passou a ser uma autorregras. E, existe uma implicação importante: uma autorregras pode levar a elaboração de outras autorregras. Uma que se aplica diretamente no seu caso, Gregor, é “se meu pai me amou a vida toda, então, em circunstâncias nas quais ele precise de mim, devo retribuir o amor que me dedicou”. Na prática isso ocorreu. Você em grande medida, renunciou ao desenvolvimento de sua própria vida: renunciou ao lazer, a construir uma relação afetiva duradoura, a buscar alternativas profissionais mais gratificantes e menos coercitivas, a ter uma vida mais equilibrada na alimentação, nas atividades físicas e no repouso. E, por que o fez? Para atender às necessidades que você supôs que seu pai tinha. Foi a forma de retribuir com seu amor ao amor dele. Seu amor se manifestou com comportamentos de trabalhar; manter-se empregado do empresário com quem seu pai contraiu uma dívida; não gastar com supérfluos (tudo que não fosse absolutamente essencial, passou a ser supérfluo, portanto, dispensável); não ter uma poupança pessoal etc.


G - Não sei se entendi claramente o que são autorregras. Elas correspondem às “ideias” de Platão?


T - Não exatamente. Comecemos pelas regras: são enunciados de contingências com função de SD (estímulo discriminativo), sinalizando que se determinados comportamentos forem emitidos serão reforçados; de SDp (estímulo discriminativo de punição), sinalizando que se determinados comportamentos forem emitidos serão punidos; de S pré-aversivo, sinalizando que se determinados comportamentos forem emitidos eliminarão ou evitarão a ocorrência de um evento aversivo. São enunciados na forma de se (determinado comportamento for emitido) então (determinada consequência ocorrerá).


G - Ficaria mais fácil com exemplos...


T - Se você estudar, então tirará boas notas (SD); se você fumar neste recinto, então será advertido (SDp); se você se agasalhar, então evitará o frio da rua (S pré-aversivo).


G - Então, as regras nos ajudam?


T - Sim, quando descrevem corretamente as contingências. É o caso do conhecimento científico em geral. Você, ao se comportar de acordo com as regras, não precisa entrar em contato com as consequências do comportamento. São especialmente úteis quando a consequência é aversiva ou a função aversiva aparece com atraso. Por exemplo: se beber, então não dirija. Não ajudam, porém, quando não descrevem corretamente as contingências. Neste caso tornam a pessoa alienada da realidade, uma vez que se ela se comportar de acordo com a regra neurótica, supersticiosa ou incorreta não entrará em contato com as consequências naturais dos seus comportamentos. Por exemplo, a regra explicitada por uma mãe que tem medo de cachorro: “Filho, nunca brinque com um cachorro” (formalmente, poderia ser reescrita assim: se você brincar com um cachorro, então alguma coisa ruim certamente ocorrerá). Se a criança se comportar sob controle da regra enunciada pela mãe, não entrará em contato com os prazeres de lidar com cachorros.


G - E, em relação as autorregras?


T - Quando a pessoa aprende a se comportar de acordo com uma regra ditada por uma pessoa que lhe é socialmente relevante, passa, após algum tempo, a se comportar sob controle da regra, agora repetida por ela própria. É como se a regra fosse elaborada por ela mesma e dispensa, portanto, a influência direta e presente do outro. A pessoa pode, ainda, através dos processos de generalização ou de relações de equivalência de estímulos enunciar regras novas e próprias, sem que ninguém as tenha formulado para ela. 


T - Concluindo, as regras e autorregras não são “ideias” no sentido que lhes atribuiu Platão. São comportamentos verbais que explicitam quais comportamentos – se emitidos – serão consequenciados pela pessoa que formulou a regra (por exemplo, o filho se comporta segundo a contingência descrita na regra apresentada pela mãe, isto é, ele a obedece, e como consequência ela o elogia, dá-lhe um afago etc.) ou pelas consequências naturais explicitadas na regra (por exemplo, “Não toque: superfície quente”, que corresponde à: se você tocar a superfície indicada, então queimará a mão).


G - Como posso saber se uma regra é correta ou não?


T - Há dois caminhos: testar a consequência enunciada na regra, quando isso for possível. Questionar as evidências em que a pessoa se baseou ao formular a regra e submeter tais evidências aos critérios das atitudes básicas da Ciência: empirismo (evidências a partir de dados), determinismo probabilístico (os fenômenos são regidos por leis), parcimônia (deve-se optar pela explicação mais simples) e manipulação de variáveis (a fim de eliminar relações funcionais espúrias ou supersticiosas entre o fenômeno a ser explicado e a explicação proposta).


T - Quando uma pessoa interage amplamente com diferentes pessoas ou grupos sociais, há uma boa probabilidade de se questionar as regras, uma vez que diferentes grupos têm, em geral, diferentes regras (exceto aquelas que tem status de demonstração científica), permitindo à pessoa discriminar as formulações de regras antagônicas sobre um mesmo tema. Inversamente, uma pessoa, como você Gregor, que se expõe pouco às contingências oriundas de outras pessoas ou grupos sociais (mantém-se calado, afastado de outras pessoas) tende a aceitar regras “neuróticas” (aquelas que são formuladas tendo por base déficits ou excessos comportamentais da pessoa que as formula, ao invés de ter por base o funcionamento demonstrado das contingências de reforçamento que elas propõem explicitar) ou supersticiosas (aquelas que explicitam relações entre comportamento e “consequência”, que se segue a ele exclusivamente por proximidade temporal, sem nenhuma relação funcional ou causal) como verdadeiras e a se comportar sob controle delas.   


G - De fato, posso entender como meu comportamento era controlado por autorregras referentes às minhas obrigações como filho. “Na sala de estar, como pude ver pela fresta da porta, o gás estava aceso, mas ao passo que nessa hora do dia meu pai em geral costumava ler, em voz alta, o jornal que saía à tarde, para a minha mãe e às vezes também para minha irmã, agora não se ouvia som algum. – Que vida tranquila a família levava! - disse a mim mesmo e senti, enquanto fitava o escuro diante de mim, um grande orgulho por ter podido proporcionar a meus pais e à minha irmã uma vida assim, num apartamento tão bonito. Mas, como seria agora, se todo o sossego, todo o bem-estar, toda a satisfação chegasse assustadoramente ao fim? Para não me perder nesses pensamentos, preferi por-me em movimento, rastejando de cá para lá no quarto.” (p. 34)


G - “Quando ocorreu a falência do negócio do meu pai... minha preocupação na época tinha sido apenas fazer tudo para a família esquecer o mais rápido possível a desgraça comercial, que havia levado todos a um estado de completa desesperança. E assim comecei a trabalhar com um fogo muito especial e, quase da noite para o dia, passei de pequeno caixeiro a caixeiro viajante, que naturalmente tinha possibilidades bem diversas de ganhar dinheiro e cujos êxitos no trabalho se transformaram imediatamente, na forma de provisões, em dinheiro sonante que podia ser posto na mesa diante da família espantada e feliz... mais tarde ganhei tanto dinheiro que era capaz de assumir – e de fato assumi as despesas de toda a família.” (p. 41)


T - Você dirá que se sentiu feliz assumindo esse papel. Há um lado gratificante em poder ajudar, mas não acredito que tal sentimento tenha sido o mais relevante. As contingências de reforçamento que produzem satisfação são amenas e o comportamento gerado não é tão compulsivo, nem tão estereotipado. Você viveu sob contingências coercitivas – e estas produzem comportamentos fortes de fuga-esquiva (por ex., trabalhar exaustivamente e entregar o salário para o pai) e sentimentos de responsabilidade, ao lado de ansiedade, preocupação... No momento em que os negócios de seu pai desabaram, caíram sobre você condições aversivas, às quais você aprendeu a enfrentar com muita eficiência. Passou a responder a elas trabalhando e gerando, desta maneira, dinheiro para a família e tendo sentimentos de responsabilidade, de dever cumprido como filho. Você vivenciou sentimentos de alívio, principalmente; de satisfação, talvez, mas secundariamente.


G - Você me fala em contingências coercitivas, mas não me lembro de ter sido punido pelo meu pai. Nossa relação era tranquila ... 


T - Provavelmente, porque você se comportava de acordo com as expectativas do seu pai. A consequência aversiva (crítica, repreensão, castigos etc.) estava potencialmente disponível, mas poderia ser evitada se seu comportamento atendesse às exigências dele. Você se comportava da forma esperada por ele, não havia, portanto, razão para ele puni-lo; poderia até elogiá-lo. Você não experimentou as consequências aversivas muito mais pela sua eficácia comportamental, do que por generosidade do seu pai. Você saberia me dizer o que ele faria se você, por assim dizer, falhasse aos olhos dele?


G - Tenho um exemplo atual. Quando saí do quarto... o gerente se assustou e saiu correndo. “Infelizmente a fuga do gerente pareceu perturbar por completo meu pai, que até então tinha estado relativamente sereno, pois ao invés de correr, ele próprio, atrás do gerente, ou pelo menos não me impedir de persegui-lo, agarrou com a mão direita a bengala do gerente, que este havia deixado com o chapéu e o sobretudo em cima de uma cadeira, pegou com a esquerda um grande jornal da mesa e, batendo os pés, brandindo a bengala e o jornal, pôs-se a me tocar de volta para o quarto. Nenhum pedido meu adiantou, nenhum pedido também foi entendido; por mais humilde que inclinasse a cabeça, com tanto mais força meu pai batia os pés... Mas quando enfim estava com a cabeça diante da abertura da porta, feliz, verifiquei que meu corpo era demasiado largo para passar por ela. Ao meu pai, naturalmente, na sua condição atual, não ocorreu nem mesmo remotamente abrir a outra folha da porta, para me oferecer passagem suficiente. Sua ideia fixa era, simplesmente, que eu voltasse o mais rápido possível para o quarto... forcei – acontecesse o que quisesse – a entrada pela porta. Um lado do meu corpo se ergueu, permaneceu torto na abertura da porta, um dos meus flancos se esfolou inteiro, na porta branca ficaram manchas feias, me entalei e não poderia mais me mover sozinho – as perninhas de um lado pendiam trêmulas no ar, as do outro comprimiam-se doloridas no chão – quando meu pai desferiu, por trás, um golpe agora de fato possante e liberador e eu voei, sangrando violentamente, bem para dentro do meu quarto. A porta foi fechada ainda com a bengala.” (pp. 29-31)  


T - Você não se comportou de acordo com as expectativas dele... você o frustrou, o decepcionou... 


G - Sim. E sabe qual era a minha preocupação? Após o gerente ter-me visto “compreendi que o gerente não podia de modo algum ir embora nesse estado de espírito; caso contrário meu emprego na firma ficaria extremamente ameaçado... O gerente precisava ser retido, tranquilizado, persuadido e finalmente conquistado; dependia disso o meu futuro e o de minha família... E, sem pensar que ainda não conhecia minhas atuais faculdades para me locomover, sem cogitar também que meu discurso possivelmente – na verdade, provavelmente – não tinha sido entendido mais uma vez, larguei a folha da porta e me enfiei pela abertura.” (pp. 27 e 28)


T - Você se expôs, na verdade, para tentar salvar seu emprego... Seu pai não pôde entender sua intenção, e não foi sensível às suas dificuldades para retornar ao quarto...


G - Noutra ocasião enquanto eu tentava entrar no quarto ele caminhou na minha direção... “Certamente ele mesmo não sabia o que estava querendo; de qualquer modo, levantava os pés a uma altura incomum e fiquei espantado como o tamanho gigantesco das solas de suas botas. Mas não ficou nisso, eu já sabia desde o primeiro dia de minha nova vida que, diante de mim, meu pai só considerava adequada a severidade máxima. E assim corri na frente do meu pai... precisei admitir a mim próprio que não poderia aguentar essa corrida por muito tempo, pois enquanto meu pai dava um passo, eu tinha que realizar inúmeros movimentos... A falta de fôlego começou a fazer notar... no meu torpor não pensava em outra maneira de me salvar senão correndo – quando nesse momento alguma coisa, atirada de leve, voou bem ao meu lado e rolou diante de mim. Era uma maçã; a segunda passou voando logo em seguida por mim, fiquei paralisado de susto; continuar correndo era inútil, pois meu pai havia decidido bombardear-me... ele havia enchido os bolsos de maçã e, por enquanto, sem mirar direito as atirava uma a uma... Uma, literalmente, penetrou nas minhas costas; eu quis continuar me arrastando, como se a dor surpreendente e inacreditável pudesse passar com a mudança de lugar, mas me sentia como se estivesse pregado no chão... vi minha mãe correr ao encontro do meu pai... e vi quando ela, tropeçando nas saias, chegou até o lugar onde ele estava e, abraçando-o, em completa união com ele, pedir, com as mãos na nuca do meu pai, que ele poupasse a minha vida.” (pp. 56-58).       


T - Questiono, enfaticamente, que você tenha trabalhado por amor e com satisfação. Havia condições aversivas continuamente presentes: dívida do seu pai com o  empresário; incapacidade física do seu pai de assumir um trabalho e manter a família e saldar a dívida, irmã jovem ainda sem idade para colaborar no sustento familiar; uma empresa exigente, excluindo privilégios e gratificações para os funcionários etc. A única saída para você era trabalhar, não gastar, não se divertir para reduzir a condição aversiva que pairava, como a esfera de Atlas, sobre seus ombros. Trabalhar, trabalhar não lhe produzia prazer, mas alívio dos sentimentos de culpa, de responsabilidade, de gratidão. Seu comportamento foi de fuga-esquiva, reforçado negativamente. Os estados emocionais, em tais condições, são tipicamente aqueles produzidos por contingências coercitivas: ansiedade, preocupação, temor etc. substituídos por alívio (não por prazer), quando o comportamento desejado pela agência controladora é emitido.


G - Há sentido no que você está dizendo. Veja as mudanças que ocorreram depois que sofri a “metamorfose” e não pude mais manter meu emprego. “A empregada pediu de joelhos à minha mãe que a dispensasse imediatamente do emprego, se despediu, agradeceu em lágrimas pela dispensa, bem como pelo grande favor que ali lhe faziam, prestando − sem que se exigisse isso dela – o solene juramento de não revelar a ninguém o mínimo que fosse.” (p. 40) “Minha irmã então teve também de cozinhar junto com minha mãe; no entanto isso não exigia muito esforço, pois não se comia quase nada.” (p. 40) “Já no decorrer do primeiro dia meu pai expôs toda a situação financeira e as perspectivas, tanto à minha mãe quanto à minha irmã. Essas explicações do meu pai foram em parte a primeira coisa agradável que escutei desde a minha reclusão. Eu achava que daquele negócio não havia sobrado absolutamente nada para meu pai – pelo menos meu pai não me dissera nada em sentido contrário, e seja como for, eu também não o havia interrogado a esse respeito.” (p. 41)


T - Vamos juntos relembrar algumas das mudanças em cada um deles. Comecemos com seu pai.


G - “Meu pai ia buscar o café da manhã para os pequenos funcionários do banco.” (p. 62) “Um quarto do apartamento fora alugado a três inquilinos” (p.66), como forma de melhorar os rendimentos da família. Mostrou-se extremamente submisso aos inquilinos. “Com uma espécie de obstinação, meu pai se recusava a tirar mesmo em casa o uniforme de funcionário; e enquanto o roupão pendia inútil no cabide ele cochilava na sua cadeira inteiramente vestido, como se estivesse sempre pronto para o serviço e aguardasse também aqui a voz do superior. Em vista disso, o uniforme, que desde o início não era novo, perdeu o asseio, apesar de todo o cuidado de minha mãe e da minha irmã; e frequentemente eu olhava durante serões inteiros para aquela roupa coberta de manchas e lustrosa nos seus botões dourados sempre polidos, com a qual o velho dormia de um jeito extremamente incômodo, mas apesar disso tranquilo.” (pp. 60 e 61)


T - Será que o modelo dele não influenciou você, sem que tenha se dado conta disso pela vida inteira?


G - Pode ser. Ele era ridiculamente submisso. Enquanto minha irmã ensaiava uma canção no violino ele perguntou aos inquilinos: “Por acaso a música incomoda os senhores?” (p. 69) “Meus pais nunca antes haviam alugado quartos e por isso exageravam na gentileza com os inquilinos, não ousavam sentar-se nas suas próprias cadeiras. Um dos inquilinos ofereceu à minha mãe uma cadeira e ela ficou sentada à parte, num canto da sala, por ter deixado a cadeira no lugar onde o senhor a havia posto.” (p. 69) e “a família ia mesmo comer na cozinha.” (p. 68)


G - Cheguei a me perguntar: “Era aquele ainda o meu pai? O mesmo que costumava ficar enterrado na cama, exausto, quando eu partia para uma viagem de negócios; que nas noites de regresso me recebia de roupão na cadeira de braços; que era absolutamente incapaz de se levantar, apenas erguendo os braços em sinal de alegria, e nos raros passeios de família, em alguns domingos do ano e nos feriados principais, caminhava com esforço entre mim e minha mãe – que por si sós já andavam devagar – um pouco mais devagar ainda, embrulhado no velho casaco, apoiando-se sempre com cuidado na muleta e que, quando queria dizer alguma coisa, quase sempre parava e reunia em torno de si os acompanhantes? Agora, porém ele estava muito ereto, vestido com um uniforme azul justo, de botões dourados, como usam os contínuos de instituições bancárias; sobre o colarinho alto e duro do casaco se desdobrava o forte queixo duplo; sob as sobrancelhas cerradas os olhos escuros emitiam olhares vívidos e atentos; o cabelo branco, outrora desgrenhado, estava penteado com uma risca escrupulosamente exata e luzidia.” (p. 56)


T - Pode-se concluir, que quando você assumia as necessidades da família o comportamento de seu pai era, digamos, “dependente”, já que era extremamente reforçado por se comportar assim. Quando as contingências de reforçamento mudaram os comportamentos dele também mudaram... Quem é seu verdadeiro pai? pode-se perguntar. Mas, a questão deve se dirigir a outro ponto: o que ocorre com os comportamentos de uma mesma pessoa quando as contingências mudam? Não é sobre os comportamentos que devemos dirigir nossa atenção; devemos ficar sob controle das contingências que modelaram e mantêm os comportamentos.


G - Consigo enxergar com mais clareza muitas coisas. E, eu não questionava as decisões do meu pai. Serve como exemplo, o dinheiro que meu pai reservou e que nunca me revelou...


T - E, que você também nunca procurou investigar.


G - E, veja como eu pensava no início desta minha tragédia. Ao saber do dinheiro pensei: “Esse dinheiro não bastava de maneira alguma para permitir que a minha família vivesse de renda; talvez fosse suficiente para sustentá-la um, no máximo dois anos, não mais que isso. Era, portanto, meramente uma soma que não se poderia tocar e que precisava ser reservada para uma emergência; mas o dinheiro para viver precisava ser ganho. Ora, meu pai era na verdade um homem saudável, porém velho, que não trabalhava fazia cinco anos e que, seja como for, não podia se exceder; nesses cinco anos, que foram as primeiras férias de sua vida estafante e, no entanto, malograda, ele havia engordado muito e com isso se tornado bastante moroso. E minha velha mãe, que sofria de asma, a quem uma caminhada pelo apartamento já era um esforço, e que, dia sim dia não, passava o dia no sofá, junto à janela aberta, com dificuldades de respiração – deveria ela agora, por acaso, ganhar dinheiro? E deveria ganhar dinheiro minha irmã, que com dezessete anos era ainda uma criança e cujo estilo de vida até agora dava gosto de ver, consistindo em vestir roupas bonitas, dormir bastante, ajudar na casa, participar de algumas diversões modestas e acima de tudo tocar violino? Quando a conversa chegava a essa necessidade de ganhar dinheiro, eu me soltava da porta e me atirava sobre o frio sofá de couro que se encontrava ao lado, pois ficava ardendo de vergonha e tristeza.” (pp. 43-44)


G - Minha irmã começou a trabalhar “corria de lá prá cá atrás do balcão ao comando dos fregueses” (p. 62), “teve também de cozinhar junto com minha mãe.” (p. 40). “Minha irmã tinha aceito um emprego como vendedora, à noite estudava estenografia e francês para conseguir talvez mais tarde um posto melhor”. O que mais me aturdiu na minha irmã foi a drástica mudança que demonstrou do início de minha “metamorfose” até o momento atual.


T - Não a condene, embora ela, de certa forma, o tenha condenado. Ele respondeu às contingências provindas das suas mudanças. Sua “metamorfose”, como você a chama, alterou de forma radical os controles de estímulos aos quais as pessoas de sua casa respondiam de modo ordenado. A sua disrupção, perturbou todo mundo... Você passou a se comportar de modo aversivo para eles. Seu aspecto também mudou e você lhes parecia um ser aversivo. Sua irmã e seus pais começaram a se afastar de você. Passaram a evitá-lo. Além disso, some-se que na sua família ninguém tinha um repertório comportamental alternativo para lidar com todas as mudanças ocorridas. Sua irmã tentou ajudá-lo, mas as consequências dos comportamentos dela eram aversivas – o que gera comportamento de fuga-esquiva − até o extremo de abandoná-lo e desejar que você sumisse de vez dali. Se as consequências fossem reforçadoras positivas um novo repertório comportamental poderia ser selecionado e seriam modelados comportamentos apropriados para enfrentar a nova realidade familiar. Você não tinha condições para assumir o papel de reforçar diferencial e progressivamente os comportamentos desejados nos seus familiares, que resultassem em cuidar mais propriamente de você. Aliás, nem você próprio tinha claro como deveriam proceder para ajudá-lo. Você estava impossibilitado de ensiná-los a ajudarem você; e até mesmo impedido de se ajudar. Lamentável déficit generalizado de repertório comportamental de todos só poderia resultar em fuga deles e abandono de você. 


G - De qualquer maneira, eu perdi minha irmã aos poucos.


T - De fato, ela deixou de fazer parte das contingências que modelavam e mantinham o melhor do seu repertório... E, o pior, passou a fazer parte das contingências aversivas que o puniam ou o abandonavam à sua própria sorte. Haverá algo pior do que depender de contingências programadas pelo outro e ser abandonado por esse outro? Há momentos em nossa vida, nos quais o repertório comportamental está tão suprimido, os sentimentos aversivos são tão intensos que nos tornamos dependentes de um ambiente especialmente desenhado, através de contingências de reforçamento de mudanças graduais (fading in, fading out, modelagem, intermitência gradual de liberar esforços etc.) para conseguir reinstalar comportamentos enfraquecidos. Tal ambiente tem que ser delineado e implementado por especialistas em análise de comportamento... sozinha uma família não consegue tal habilidade.


G - Então, passei a depender de você?


T - Não existe, precisamente tal alternativa. As relações humanas são sempre interacionais: um influencia o outro e é influenciado por ele. Você depende de mim, sim; mas, eu dependo de você; e, nós dependemos de sua família. E nem sempre temos aquilo que precisamos ter. Resta, então, “fazer acontecer... fazer o máximo a partir daquilo que você tem...” e, Gregor, não temos muito, convenhamos.


T - Gregor estamos no início de um processo comportamental. Não temos domínio de como isto tudo vai acabar...


G - Minha mãe também teve que mudar sua rotina. “A empregada foi embora. Em seu lugar uma faxineira cuidava das coisas mais pesadas. Minha mãe passou a cuidar da casa, fazia exatamente aquelas coisas que a faxineira não tinha tempo para fazer, além de toda a costura (p. 62); “ela se sacrificava pelas roupas de baixo das pessoas estranhas.” (p. 62) “Aconteceu até que diversas joias da família, que minha mãe e irmã antes tinham usado com o maior dos júbilos em festas e solenidades, foram vendidas.” (p.62) Ela cozinhava para os inquilinos que eram muito exigentes. “Os inquilinos sentaram-se (vi pela porta da sala que a faxineira havia deixado entreaberta) à cabeceira da mesa, onde antigamente meu pai, minha mãe e eu comíamos, desdobraram os guardanapos e empunharam a faca e o garfo. Imediatamente minha mãe apareceu à porta com uma travessa de batatas empilhadas alto, a comida soltava um calor forte. Os inquilinos inclinaram-se sobre as travessas colocadas à sua frente, como se quisessem examiná-la antes de comer, e efetivamente o senhor que estava sentado no meio e parecia valer como autoridade para os outros dois cortou um pedaço de carne ainda na travessa, sem dúvida para verificar se ela estava suficientemente mole ou se acaso não devia ser mandada de volta à cozinha. Ficou satisfeito e minha mãe e minha irmã, que haviam observado ansiosas, começaram a sorrir, respirando com alívio.” (p. 68)


T - Preciso interrompê-lo neste momento. Vou retomar o tema de suas dificuldades interpessoais. A cena descrita me comoveu muito. Veja a que humilhações seu pai, mãe e irmã se submeteram: ceder os lugares da família à mesa, sua mãe não se sentar na cadeira que lhe foi oferecida para ouvir sua irmã tocar, esperar ansiosamente pela aprovação, de qualquer modo arbitrária e autoritária, da carne preparada etc. Quando lhe sugeri que sua incapacidade para se relacionar naturalmente com outras pessoas tinha, provavelmente, origem nos modelos familiares, agora você pode verificar como funcionaram tais modelos. O padrão de seus pais apresentado atualmente na interação com os inquilinos deve ter sido maneira característica de se comportarem com pessoas fora do âmbito familiar. Que triste cena, que desolador modelo para os filhos.


T - Os modelos comportamentais podem ser descritos na forma de uma regra: Se me mostrar cooperativo, dócil, não enfrentar o outro, atender aos seus pedidos sem questionar, então ele me considerará uma pessoa educada, boa, cooperativa etc. e me consequenciará com elogios, aprovação e não me punirá, nem me prejudicará etc. Tais regras, embora neuróticas, são passadas dos adultos para as crianças, em geral na forma de uma instrução para agir: “Se uma pessoa lhe pedir algo, faça o possível para atendê-la”, “Não magoe os outros”; “Seja educado e cooperativo”. Tais instruções tem a função de um estímulo discriminativo que informa qual comportamento deve ser emitido para ser reforçado positivamente ou para evitar punição. O comportamento de seguir regras é mantido pelas consequências geradas por quem as formulou e pelas consequências naturais que produzem no ambiente em que os comportamentos prescritos por elas são mantidos. As regras têm origem social e, em função das consequências que produzem podem se tornar autorregras: a própria pessoa as formula (as repete) e se comporta sob controle delas.


T - Gostaria de discutir com você um pouco mais sobre os aspectos ambientais dos quais os comportamentos das pessoas são função. Enquanto, você era o provedor das necessidades da família, os comportamentos de seus pais e irmã se confinavam dentro de uma classe funcional, que poderíamos chamar “comportamentos dependentes e de acomodação”. Poucos comportamentos eles precisavam emitir para terem suas necessidades rotineiras preenchidas. Quando você deixou de ser provedor, então, as contingências mudaram e novas classes comportamentais, que poderíamos chamar de comportamentos ativos, os quais produziam as consequências que, anteriormente vindas de você, deveriam começar a serem emitidos por eles. A partir de sua mudança eles não tiveram outra opção: começaram a apresentar uma ampla variabilidade comportamental para responder à exigências da nova realidade familiar. 


G - Se eles se tornaram capazes, então me enganaram. Ou se aproveitaram de mim. Eles poderiam ter se comportado desde muito cedo em minha vida do modo como passaram a se comportar? Teriam me poupado inúmeros sofrimentos.


T - Não o enganaram. As contingências é que mudaram. 


G - Se eu fosse diferente, menos submisso e mais autêntico, então... 


T - Exatamente, se você desde o início tivesse criado contingências diferentes – as quais você só conseguiu introduzir adoecendo gravemente – todo o desenvolvimento comportamental seu, de seus familiares e as interações entre vocês todos, seriam diferentes. Provavelmente, com benefício para todos.


G  - O que faltou em mim?


T - Faltou emitir comportamentos apropriados nas interações sociais: em casa e fora dela, no trabalho e em situações de lazer, nas quais você nem se engajava.


G - Que são comportamentos apropriados...?


T - Boa questão. São aqueles comportamentos que a pessoa emite na interação com outra pessoa e que produzem consequências reforçadoras positivas para ela, ou minimizam consequências aversivas, mas de tal maneira que as contingências sejam amenas. Isso porque os reforços positivos intensos controlam exageradamente o comportamento; é como se a pessoa ficasse “escrava” deles. Por outro lado, as consequências aversivas intensas causam medo, atrapalham o repertório em operação, geram raiva, contracontrole, inibem iniciativas adequadas etc. Ainda mais, as contingências favoráveis para uma pessoa não devem ocorrer às custas de perdas evitáveis do outro. Sejamos realistas, é impossível evitar completamente o controle coercitivo, mas devemos insistir para que seja minimizado. Também é impossível evitar frustrações nas pessoas envolvidas; é melhor levá-las a lidar com as frustrações. Por essa razão se o controle coercitivo inevitável ocorrer, deve ser o mais brando possível para minimizar a frustração e não impedir a ocorrência de outros comportamentos que venham a produzir consequências reforçadoras.


G - Eu sempre ignorei tudo o que você está me dizendo: sempre atuei sob controle do que os outros esperavam de mim; sempre procurei agradar os outros.


T - Você só sabia oferecer consequências gratificantes...


G - Nunca avaliei como importante às consequências aversivas que me atormentavam. Só pensava no bem do outro, mesmo que achasse qualquer solicitação injusta ou pouco razoável, eu as atendia, como ordens a serem completa, perfeita e prontamente atendidas.


T - Você vivia o tempo todo como se estivesse sujeito a uma emboscada, sendo que o tiro fulminante seria uma crítica ou o descontentamento do outro.


G - Acho que nasci assim...


T - Não, exatamente. Todo esse repertório social seu foi forjado dentro do seio familiar, desde sua infância. O controle coercitivo vindo dos pais, exemplos dados por eles. Pudemos ver o modelo de subserviência de seu pai e de sua mãe com os inquilinos, bem como na relação deles com seu gerente quando veio até sua casa para saber o porquê de você ter faltado ao trabalho. Eles se comportaram como se estivessem diante de uma autoridade máxima que deveria ser obedecida e bajulada. Se eles se comportam assim no presente devem ter se comportado da mesma forma a vida inteira. E, finalmente, quando você apresenta comportamentos subservientes e eficazes ocorrem duas consequências: você evita a crítica e o descontentamento (que por serem evitados, parecem não estar operando; é como se não existissem); ao mesmo tempo você é, eventualmente, consequenciado com elogios, agradecimentos o que lhe dá o sentimento de dever cumprido.


T - Gregor, sua história de contingências caracterizou-se por uma rede intrincada de contingências que produziram sentimentos de autoconfiança profissional, de tolerância à frustração, de responsabilidade, mas quase nenhum sentimento de autoestima. Você nunca se amou, não aprendeu a sentir-se bem com você mesmo, e viveu para os outros. Está aí a origem de sua “metamorfose”. Não foi um acontecimento tão inesperado. Talvez, impressione a abrangência da disrupção do seu repertório e a intensidade dos seus sentimentos de tristeza, de solidão, de depressão, de abandono, de desamparo...


T - Quando você começou a observar que a família o estava abandonando a sua própria sorte? Sabe Gregor, quando uma pessoa deixa de ser capaz de lidar com seus próprios problemas ela se torna dependente dos outros. Perde autonomia.


G -  Estou completamente dependente dos meus familiares...


T - O pior é que os sentimentos e comportamentos das pessoas, das quais você depende, vão se modificando com o repetido e contínuo contato com as contingências de reforçamento aversivas. Você se tornou um ser aversivo para sua família. Além de que, eles não sabiam como lidar com situação tão nova e complexa: não tinham repertório para lidar com o “novo” Gregor.


T - No início, os sentimentos são de pena, culpa, compaixão e as pessoas procuram ajudar: aumentam a variabilidade comportamental. Lembro-me de suas palavras: “De qualquer forma já se acreditava que as coisas comigo não estavam em perfeita ordem, e a disposição era de ajudar-me. A confiança e a certeza com que foram tomadas as primeiras decisões fizeram-me bem.” (p. 22) Se os comportamentos de ajudar tiverem sucesso, isto é, se forem reforçados positivamente ou negativamente (por ex., a “melhora” da pessoa cuidada remove condições aversivas, ao mesmo tempo que explicita condições gratificantes), os comportamentos de ajudar se fortalecem e os sentimentos de alívio, de esperança, de satisfação vão se intensificando. Por outro lado, se as condições da pessoa não evoluem, pelo contrário até pioram, os comportamentos de ajudar são punidos, logo se enfraquecem, e os sentimentos de sofrimento, de impotência, de desconforto, de repulsa, de frustração etc. se intensificam. As contingências de reforçamento que se desenvolvem na interação entre aquele que cuida e aquele que carece dos cuidados produzem comportamentos de fuga-esquiva. Em geral, o cuidador se afasta e abandona o ser dependente à sua própria sorte. Não se trata de um problema moral ou ético abandonar o enfermo; trata-se de identificar as contingências em operação e constatar a impossibilidade de alterá-las. O triste abandono não é uma opção; é um comportamento determinado pelas contingências. 


G - As mudanças foram ocorrendo na rotina da casa, nos comportamentos de meu pai, de minha mãe e de minha irmã, conforme relatei. O comentário que mais me marcou como início das mudanças foi quando minha mãe concluiu, quando mexiam – ela e minha irmã – nos móveis do meu quarto: “Não é como se nós mostrássemos, retirando os móveis, que renunciamos a qualquer esperança de melhora e o abandonamos à própria sorte, sem nenhuma consideração? Creio que o melhor seria tentarmos conservar o quarto exatamente no mesmo estado em que estava antes, a fim de que Gregor, ao voltar outra vez para nós, encontre tudo como era e possa desse modo esquecer facilmente o que aconteceu no meio tempo”. (p. 49) Entendi a boa intenção de minha mãe, mas para ela eu não era mais o Gregor...  


G - Independente do que minha mãe disse, no entanto, “minha irmã tinha outra opinião; ela havia se habituado – seja como for, de uma maneira inteiramente justificada – a se apresentar diante dos pais, nas conversas sobre as questões a meu respeito, como perita, e assim, também agora, o conselho da mãe foi motivo suficiente para minha irmã insistir na retirada não apenas do armário e da escrivaninha – na qual ela no início havia pensado – mas também na de todos os móveis, com exceção do indispensável canapé.” (p. 50)


T - Você teve vontade, por seu lado, de romper com a família?  


G - Sim e não. “Às vezes, pensava em reassumir os assuntos da família, exatamente como antes, na próxima vez em que a porta se abrisse. Mas, depois eu já não estava mais com ânimo algum para cuidar da família, sentia-me simplesmente cheio de ódio pelo mau tratamento e embora não pudesse imaginar nada que me despertasse o apetite, fazia, no entanto, planos sobre como poderia chegar à dispensa para ali pegar tudo o que me era devido. Mesmo que não tivesse fome.” (63)


T - O processo de conscientização é lento e fruto de contingências sociais. Somente quando a forma pela qual uma pessoa é tratada se torna importante para ela é que ela fica sob controle dos comportamentos dos outros e passa a descrevê-los e a reagir a eles. Enquanto você era saudável e, como consequência, útil para a família eles o reforçavam positivamente (às vezes) e negativamente (você observava que seu dinheiro os protegia das privações) e, como tal, não tinha razão para se opor, aos comportamentos deles, pois não lhe eram aversivos. Quando você já não mais podia prover os recursos financeiros com os quais contavam, passaram a emitir comportamentos aversivos para você. Aí você discriminou as duas classes de comportamentos deles, ambas em função de sua capacidade de ajudá-los ou de criar-lhes problemas.


G - É muito difícil aceitar isso de minha família.


T - Os sentimentos são frutos das contingências em operação; não dos laços de parentesco, Gregor. São leis que regem os comportamentos humanos, quer gostemos delas ou não.


G - Lembro-me de uma questão que eu próprio me fiz: “Quem nesta família sobrecarregada e exausta tinha tempo para cuidar de mim mais que o absolutamente o necessário?” (p. 62)


T - Você nunca pensou em deixar de ficar sob controle do que os outros pensavam sobre você? Você notou que em toda sua vida, o que os outros esperavam de você lhe era mais importante do que seus próprios desejos, sentimentos e objetivos? Você era objeto do social e não sujeito ativo de transformação social?


G -  Suas palavras me esclarecem uma coisa sobre a qual nunca havia pensado antes. Era-me tão natural e óbvio que era assim que se devia viver, me comportar que essa questão nunca me ocorreu. Não antes da “metamorfose”. Naquela exata manhã pensei: “Ah, meu Deus. Que profissão cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia – viajando. A excitação comercial é muito maior que na própria sede da firma além disso me é imposta essa canseira de viajar; a preocupação com a troca de trens, as refeições irregulares e ruins, em convívio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso. O diabo carregue tudo isso!” (p. 8)


T - Foi preciso você se espantar com você mesmo para prestar atenção aos seus comportamentos e às condições adversas em que viveu. A pessoa somente fica sob controle das contingências de reforçamento que modelam e mantêm seus comportamentos e sentimentos quando há uma razão para fazê-lo. Novas contingências passaram a atuar sobre você e deram origem à perplexidade diante da transformação que você sofreu, fez com que se voltasse à sua vida.


T - Dá para entender o que se passou com você. Em primeiro lugar, um repertório bem instalado desde a infância e propriamente mantido durante o desenvolvimento da pessoa, torna-se tão parte da pessoa que levou William James a escrever que “o hábito é uma segunda natureza”. Em segundo lugar, a discriminação ocorre quando há duas condições de estímulos associados cada qual com consequências diferenciadas. Na sua vida, todas as condições de estímulo (seu pai, sua mãe, seu gerente) estavam associadas a um mesmo tipo de consequências: obedeça ao outro, submeta-se ao outro e será reforçado socialmente ou evitará uma consequência aversiva de natureza social (crítica, repreensão, remoção de atenção etc.). Por outro lado, qualquer desobediência, oposição, desacato à autoridade, será consequenciada com eventos sociais aversivos (críticas, repreensão, remoção de atenção etc.). Ou seja, as contingências às quais você respondia não produziam repertórios diferenciados sob diferentes controles de estímulos.


G - Então, não foi culpa minha?


T - Nem pense nisso. O seu repertório foi resultado das contingências a que foi exposto e à ausência de contingências diferenciadas. A falha não é sua; o seu comportamento é o resultado da atuação das contingências. É sobre elas que temos que atuar, não sobre você.


G - Mas, respondendo à sua pergunta houve um episódio em que me comportei completamente sem me preocupar com quem quer que fosse e pouco me preocupei com o que poderiam pensar a meu respeito.


T - Foi consciente de sua parte?


G - Não sei. Ousaria afirmar que em parte sim. “Atraído pela música (de minha irmã) ousei avançar um pouco e já estava com a cabeça dentro da sala de estar. Dificilmente me surpreendia o fato de que nos últimos tempos levava os outros tão pouco em conta; essa consideração tinha sido, antes o meu orgulho. E, no entanto, justamente agora eu deveria ter mais motivo para me esconder, pois por causa do pó, que se depositava em toda parte no meu quarto, e que ao menor movimento voava em volta, eu também estava todo coberto de poeira; sobre as costas e pelos lados arrastava comigo fios, cabelos, restos de comida; minha indiferença diante de tudo era grande demais para que, como antes, tivesse ficado de costas e se esfregado no tapete várias vezes durante o dia. E a despeito desse estado não tive pejo de me adiantar um pouco sobre o assoalho imaculado da sala de estar.” (p. 70)


T - Seus primeiros movimentos em direção a sala de estar foram emitidos sob controle do som do violino tocado pela sua irmã. O som funcionou como SD para você avançar. A partir daí você passou a ficar sob controle dos seus comportamentos, inclusive dos privados (“Dificilmente me surpreendia o fato de que nos últimos tempos levava os outros tão pouco em conta, essa consideração tinha sido antes o meu orgulho”), e de seus sentimentos (“Minha indiferença diante de tudo era grande demais... e a despeito desse estado não tive pejo de me adiantar”...). Você manifestou comportamentos de auto-observação. Eu diria que até aí você demonstrou consciência, no sentido de descrever comportamentos e sentimentos, pelo menos parcialmente.


T - Você mostrou um modo muito legítimo de lidar com o mundo que o cercava; foi se movendo em direção a sala de estar sem estar sob controle de regras e autorregras do passado (por ex., “Se me expuser às pessoas neste meu estado, então estarei sendo inconsequente, desrespeitoso e merecerei algum tipo de punição). Simplesmente, você se comportou e se expôs as consequências naturais que se seguiram aos seus comportamentos (comportamento modelado pelas consequências) e não restringiu seu comportamento a regras e autorregras previamente aprendidas e com função de instrução para a ação desejada por aquele que a formulou (comportamento governado por regras). 


T - Se você tivesse aprendido – seria melhor dizer, se em função de sua história de contingências, tivesse ousado – a se comportar durante sua vida com essa desenvoltura em relação aos outros, isto é, menos sob controle do que você pensava que os outros iriam pensar de você e que consequências (aversivas) lhe aplicariam e mais sob controle dos seus objetivos, preferências, desejos (do que você aprendeu, na sua história de contingências que lhe era reforçador, enfim), toda sua vida teria se desenvolvido de outra maneira. Quando falo em objetivos, desejos, valores etc. não entenda que o comportamento humano é controlado por eventos futuros. Comportamentos, que no passado foram emitidos, produziram consequências reforçadoras positivas. O efeito de tais consequências é aumentar a probabilidade de ocorrência de outros comportamentos da mesma classe funcional (aqueles que produzem a mesma consequência): é pelo que ocorreu no passado e não pelo que ocorrerá no futuro que o indivíduo se comporta de determinada maneira.


G - Eu tinha medo do que pensariam de mim, de como iriam me punir...


T - O sentimento de medo não é característica inerente à pessoa. É resultado de contingências aversivas intensas. Se as contingências forem reforçadoras positivas os sentimentos serão outros. Se elas forem contingentes a comportamentos desenvolver-se-á sentimento de autoconfiança. Se os reforços positivos forem dados, sem ficar sob controle das contingências, então será desenvolvido sentimento de autoestima.


G - Explique melhor a diferença.


T - Toda vez que você emitir um comportamento e ele produzir uma consequência reforçadora positiva ocorrem dois efeitos: fortalecimento do comportamento consequenciado e sentimentos de bem-estar e de autoconfiança. Poderia se resumir na seguinte frase: “Sei exatamente o que tenho que fazer nesta situação”. Se o comportamento eliminar uma consequência reforçadora negativa ocorrem também dois efeitos: fortalecimento do comportamento consequenciado pela remoção do estímulo e sentimentos de alívio e de autoconfiança. Poderia se resumir na seguinte frase: “Sei exatamente o que tenho que fazer para evitar ou remover tal condição aversiva”. Na área profissional você tem repertório comportamental amplo e apropriado e sentimentos de autoconfiança. Não tem nem repertório comportamental apropriado e nem sentimentos de autoconfiança nas relações interpessoais.


T - Vamos falar agora dos sentimentos de autoestima. Tal sentimento é resultado de contato com consequências sociais reforçadoras positivas generalizadas (sorrisos, beijos, carinho, elogios, afagos etc.) sem relação de contingência entre o comportamento (definido como apropriado pela agência controladora) e a tal consequência social. Se fosse usar uma analogia, poderia sugerir que a consequência social é dada à pessoa e não ao seu comportamento. Você, Gregor, foi completamente privado desta condição. Você se lembra de ter sido acarinhado, afagado, apoiado, beijado sem “pagar” tais afetos com bons comportamentos? Não me estranha que sua autoestima seja tão baixa. E, quando falta autoestima surge o medo do julgamento do outro: só mereço atenção e aceitação do outro se me comportar da forma apropriada do ponto de vista do outro, logo não posso falhar, não posso decepcionar, nem frustrar o outro. A autorregras implícita é: “se me comportar de forma diferente daquela esperada pelo outro, então ele deixará de me amar, se afastará de mim, me abandonará etc.  


T - Pena que você tenha que chegar a esse extremo sofrimento; tenha se sentido abandonado e maltratado por todos – familiares e gente do trabalho – para se tornar mais independente em relação às consequências sociais: se elas forem amenas e reforçadoras, tais consequências sociais influenciam seus comportamentos; se forem aversivas ou muito intensas você emite comportamentos de contracontrole, isto é, comportamentos que controlarão o comportamento do outro, de tal maneira que ele modifique as consequências, tornando-as mais amenas e reforçadoras. Quando uma pessoa desenvolve tal padrão de interação com as pessoas do seu ambiente social, familiar e profissional, pode-se dizer que ela se tornou livre. Liberdade é um sentimento gerado por contingências amenas de reforçamento positivo. 


T - Você estava mais sob controle da música produzida pela sua irmã do que sob controle de qualquer outro aspecto do ambiente. Acho, extremamente, cabível a observação: Gregor, será você um animal, já que a música o comove tanto? Eu tenho a convicção de minha resposta. Você é humano; chegou a tal condição por ser demasiado humano.


G - Agora entendo muito do que ocorreu comigo naquele momento. Vou lhe contar o que pensei: “Seria eu um animal. Já que a música me comovia tanto? Era como se me abrisse o caminho para o alimento almejado e desconhecido. Estava decidido a chegar até minha irmã, puxá-la pela saia e com isso indicar para ela que devia ir a seu quarto com o violino, pois ali ninguém apreciava sua música como ela desejava. Não queria mais deixá-la sair do quarto, pelo menos não enquanto eu vivesse; pela primeira vez minha figura assustadora deveria tornar-se útil; queria estar em todas as portas de seu quarto ao mesmo tempo e bufar contra os agressores; mas minha irmã não deveria ficar comigo coagida, e sim voluntariamente; deveria permanecer ao meu lado, sentada no canapé, baixar o ouvido até mim, quando então eu confiaria a ela que tivera a firme intenção de mandá-la ao conservatório e que, se nesse meio tempo não houvesse acontecido a desgraça, teria contado isso a todos no Natal passado – será mesmo que o Natal já tinha passado? – sem me preocupar com quaisquer objeções. Depois dessa explicação, a minha irmã romperia em lágrimas de comoção e eu me levantaria até o seu ombro e beijaria o seu pescoço, que ela conservava sem fita ou colar desde que entrara na loja.” (pp. 71 e 72)


T - Que linda declaração de amor fraterno. Você é um ser humano muito especial. Sinto urgência em promover a retomada de seu desenvolvimento pessoal. Mas, para isso, preciso de sua participação ativa.


T - Gregor, estou muito preocupado com seu estado orgânico. Você está descuidado com sua higiene pessoal, seu ferimento nas costas piorou, você perdeu muito peso e recusa qualquer alimento que lhe oferecem... Temo que com o organismo enfraquecido e sob contingências de reforçamento adversas – você está completamente abandonado do ponto de vista afetivo e sendo constantemente maltratado, até agredido fisicamente – você não consiga mais se comportar. Aí se esvairá nossa única esperança. O poder do homem em definir e atingir ativamente seu destino é se comportando. O destino não existe; é construído com comportamentos. 


G - Você parece não acreditar que minha transformação é orgânica. Eu me transformei num inseto; eu sou outro ser. Só você insiste em me tratar como pessoa. Por que, se todos me tratam como um bicho asqueroso?


T- As pessoas reagem aos comportamentos que emitimos. São seus comportamentos que o tornam um inseto para os outros e para si mesmo. Já lhe disse isso. Quando, nas histórias encantadas, a princesa beija o sapo e ele se transforma num príncipe estamos diante de uma alegoria. O príncipe – como você – se sente um sapo e se comporta como tal. A princesa ao vê-lo com os olhos do amor beija o príncipe, que está escondido no perfil de sapo, devolve-lhe a autoestima e propicia a ocasião para a emissão de comportamentos capazes de produzir consequências sociais reforçadoras generalizadas; nas histórias ele passa a se comportar como príncipe. Numa linguagem comportamental, a princesa com seu beijo cria uma operação estabelecedora, que altera o valor dos reforçadores (assim como a privação de água é uma operação estabelecedora para tornar a água um reforço positivo) e ao mesmo tempo ela tem função de SD, estímulo diante do qual a emissão de comportamentos desejados será reforçada. Como as histórias encantadas têm muitas funções mágicas, a transformação do sapo em príncipe é imediata. Na realidade, a transformação é um processo lento: as respostas devem ser reforçadas diferencialmente, com grau de exigência crescente, de modo gradual e no ritmo em que a pessoa consegue avançar (modelagem). A transformação do sapo em homem – insisto na metáfora, Gregor – depende da interação entre a princesa e o sapo: ela tem que ter a habilidade de estabelecer uma operação estabelecedora (motivação), prover apropriados eventos antecedentes com função de estímulos discriminativos e ser perspicaz para reforçar imediatamente qualquer comportamento desejado e ir alterando gradualmente as exigências de emissão de comportamentos, progressivamente mais complexos, para liberar os reforços. O sapo, por sua vez, deve emitir comportamentos, apresentar variabilidade comportamental e ser sensível às consequências reforçadoras. A transformação que esperamos aqui na terapia depende de você e de mim. Ambos nos transformamos no processo terapêutico: eu e você ensinamos e aprendemos um com o outro. É por isso que preciso de você mais forte organicamente para contribuir com sua parte na tarefa da sua transformação. Eu gostaria de ter na sua vida a função da princesa. 


G -   Mas, eu insisto na pergunta: por que só você... 


T - Vou lhe responder com uma frase: porque as pessoas ficam sob controle de seus comportamentos; eu fico sob controle das contingências de reforçamento que determinam seus comportamentos.


T - As pessoas ficam sob controle do comportamento do outro. Você parece ser aquilo que você demonstra com seus comportamentos. As pessoas ficam sob controle das ações do outro. Acontece que muitas ações são semelhantes, no entanto não são iguais. Considere, por exemplo, o ato de correr. Uma pessoa pode estar correndo porque está avistando o ônibus e se não se apressar pode perder aquela viagem. Outra pessoa está correndo de um cachorro que o ataca. Ainda uma outra pode estar correndo da polícia. Ou para abraçar uma pessoa querida. O ato se torna comportamento quando conseguimos relacionar a ação da pessoa com eventos antecedentes e consequentes do ambiente. O terapeuta é especialmente preparado para relacionar atos com os eventos que o determinam, ou seja, é capaz de detectar a história de contingências e as contingências atuais das quais o comportamento é função. Seus familiares, seus pares do trabalho ficam sob controle de seus atos ou ações e o veem como um inseto. Eu fico sob controle de todos os determinantes atuais, de seu passado recente e de seu passado remoto (até onde posso detectar as informações relevantes) das quais seus atos são função. Eu conheço seus comportamentos e, por isso, não o vejo como um inseto, mas como uma pessoa com um repertório abrangente de comportamentos drasticamente suprimido. Quando você se vê ou se sente como um inseto, sem o saber, você está usando uma metáfora: você se sente e se comporta como imagina que um inseto se sente e se comporta. A metáfora poderia ser qualquer outra. Há tantas na língua portuguesa que expressam os sentimentos: sinto-me um idiota, sinto-me impotente, sinto-me um lixo etc. 


T - A metáfora lhe serviu tão plenamente que você passou a se comportar segundo autorregras ou autoinstruções como você pretende que se comporte o inseto em que você se transformou. A personagem metafórica que você criou ocupou o papel do criador: Se agora sou um inseto, então devo me locomover, me alimentar, me comunicar etc. como imagino que um inseto o faria. Eu o compreendo e não misturo a metáfora criada com o criador da metáfora: as pessoas não o compreendem e respondem aos seus comportamentos metafóricos, como se tais comportamentos definissem você.


G - Tenho, então, duas personalidades?


T - Não, exatamente. Você tem dois amplos repertórios de comportamentos sob controle de estímulos diferentes. Diante de seus familiares e pessoas do seu trabalho você se comporta como um inseto. Diante de mim atualmente (e, antes da “metamorfose”; quando ficava sob controle do mundo que o cercava em casa) você se comporta como Gregor. Você observa e descreve os comportamentos das pessoas, relaciona o que dizem e fazem com comportamentos que você emite, você tem um repertório crítico em relação ao que fazem e fizeram em relação a você. Você está mais consciente agora do que jamais esteve antes. Nossa interação tem a função de levá-lo a ficar sob controle das contingências de reforçamento, passadas e presentes, que modelaram e mantêm seus comportamentos e sentimentos. Por outro lado, sua família reage aos seus comportamentos atuais diferencialmente e vão selecionando os comportamentos que lhes são menos aversivos: você se manter no quarto, o mais imóvel possível; manter-se calado; aceitar sem protestar os alimentos que lhe oferecem... e, ouso concluir, que preferem se livrar de você, já que não lhes parece possível recuperar  em você o Gregor (recuperar seu repertório comportamental, que lhes era reforçador: trabalhar, trazer dinheiro para casa, aceitar a rotina da família sem protestar etc.)


G - Eles desejam que eu morra?


T -  Eles não se comportam para salvá-lo... Sendo justo, não sabem como fazê-lo.


G - Você tem razão. Lembro-me claramente de alguns comportamentos deles. “Da fruteira em cima do bufê (meu pai) havia enchido os bolsos de maçãs e, por enquanto, sem mirar direito, as atirava uma a uma... Uma que logo se seguiu, pelo contrário, literalmente penetrou nas minhas costas.” (p. 85) “Agora sem pensar mais no que pudesse me agradar, minha irmã, antes de correr de manhã e ao meio-dia rumo à loja, empurrava com o pé para dentro do quarto, na maior pressa, uma comida qualquer, para ao anoitecer, não importa se esta tinha sido apreciada ou – caso mais frequente – sequer tocada, arrastá-la para fora com uma vassourada. A arrumação do quarto, que ela agora providenciava sempre à noite, não podia ser feita com maior rapidez. Estrias de sujeiras percorriam as paredes, aqui e ali havia novelos de pó e lixo.” (p. 64) E, pensar que no início da metamorfose: “Ela trouxe, para testar o meu gosto, todo um sortimento espalhado sobre um jornal velho. Havia ali legumes já passados, meio apodrecidos; ossos do jantar, rodeados por um molho branco já endurecido; algumas passas e amêndoas; um queijo que, dois dias antes, eu tinha declarado intragável; um pão seco, um pão com manteiga e sal. Além de tudo ela ainda acrescentou a tigela, na qual havia despejado água.” (p. 37)


T - As coisas mudaram muito mesmo...


G - Há mais, infelizmente. “Com a chegada dos três inquilinos – que eram obcecados pela ordem não só no seu quarto, mas também – uma vez que haviam se mudado para lá − na casa inteira, principalmente na cozinha. Não suportavam tralha inútil, muito menos suja. Além disso haviam trazido, em sua maior parte, o próprio mobiliário. Por esse motivo tinham se tornado supérfluas muitas coisas que na verdade não se podia vender, mas que também não se queria jogar fora. Todas eles migraram para o meu quarto – mesmo a lata de cinzas e a lata de lixo da cozinha. Agora a faxineira, que estava sempre com muita pressa, simplesmente arremessava ao meu quarto o que não era usado no momento.” (p. 67)


G - Mas, o que ouvi de minha família me doeu muito mais: ocorreu logo após o inquilino – horrorizado ao me ver na sala – ter declarado: “levando em conta as condições repulsivas reinantes nesta casa e nesta família – aqui ele cuspiu no chão, rápido e decidido –, rescindo neste momento a locação do meu quarto. Naturalmente, não vou pagar o mínimo que seja nem pelos dias que aqui passei; pelo contrário, vou ainda refletir se não movo contra o senhor alguma ação com reivindicações que serão – acredite-me muito fáceis de fundamentar”... os dois amigos completaram: “Nós também rescindimos neste momento a locação.” (p. 73)


G - Creia no que ouvi depois disso: “Queridos pais – disse minha irmã e como introdução bateu com a mão na mesa –, assim não pode continuar. Se vocês acaso não compreendem, eu compreendo. Não quero pronunciar o nome do meu irmão diante desse monstro e por isso digo apenas o seguinte: precisamos tentar nos livrar dele. Procuramos fazer o que é humanamente possível para tratá-lo e suportá-lo e acredito que ninguém pode nos fazer a menor censura”. “Ela tem mil razões – disse meu pai consigo mesmo.” (p. 74)


T - Realmente, sua irmã o estava condenando ao abandono...


G - Não parou aí, continuou Gregor. “Precisamos nos livrar disso” – disse então minha irmã exclusivamente ao meu pai, pois minha mãe não ouvia nada com a tosse. – Isso vai matar a ambos, eu vejo esse momento chegando. Quando já se tem de trabalhar tão pesado, como todos nós, não é possível suportar em casa mais esse eterno tormento. Eu não aguento mais.” (p. 75)


G - “Filha – disse meu pai, compassivo e com evidente compreensão. – Mas o que devemos fazer?... – Se ele nos entendesse... – Se ele nos entendesse – repetiu meu pai e com um fechar de olhos acolheu a convicção de minha irmã sobre essa impossibilidade – então talvez fosse possível um acordo com ele. Mas assim...” (p. 75)


G - “É preciso que isso vá para fora – exclamou minha irmã –, é o único meio, pai. Você simplesmente precisa se livrar do pensamento de que é Gregor. Nossa verdadeira infelicidade é termos acreditado nisso até agora. Mas como é que pode ser Gregor? Se fosse Gregor ele teria há muito tempo compreendido que o convívio de seres humanos com um bicho assim não é possível e teria ido embora voluntariamente. Neste caso, não teríamos irmão, mas poderíamos continuar vivendo e honrar a sua memória. Mas como está, esse bicho nos persegue, expulsa os inquilinos, quer certamente ocupar o apartamento todo e nos fazer pernoitar na rua. Veja, pai – gritou de repente –, ele já começa de novo!” (p. 76)


G - Não me reconhecem, eu os atrapalho, querem me pôr na rua... Não tenho amigos, não tenho destino, não me conheço, tudo que ocorre comigo me é muito estranho. Compreendo muita coisa agora, mas não sei como me comportar. “Logo descobri que não podia absolutamente mais me mexer. Não me admirei com esse fato, pareceu-me antes pouco natural que até agora tivesse conseguido me mover com aquelas perninhas finas. No restante, sentia-me relativamente confortável. Na realidade tinha dores no corpo todo, mas para mim era como se elas fossem ficar cada vez mais fracas e finalmente desaparecer por completo. A maçã apodrecida nas minhas costas e a região inflamada em volta, inteiramente cobertas por uma poeira mole, quase não me incomodavam. Recordava-me da família com emoção e amor. Minha opinião de que precisava desaparecer era, se possível, ainda mais decidida que a da minha irmã.” (p. 78) 


G - Então, o que me resta? Morrer?


T - O que lhe resta é voltar a se comportar como Gregor, não como um inseto, por mais simples que sejam seus comportamentos: você tem que voltar a andar, nem que seja dar um passo; a falar, nem que sejam frases curtas e pouco audíveis; a se alimentar. Você precisa apresentar variabilidade comportamental e readquirir sensibilidade às consequências reforçadoras positivas, por mais modestas que sejam, pois tais são os pré-requisitos básicos para recuperar seu repertório comportamental como homem. Eu posso e quero ajudá-lo; mas, você precisa começar... 


T - Quando você estiver mais saudável fisicamente, eu o ajudarei a andar pelo quarto, depois pela casa. Pretendo orientar sua família sobre a melhor maneira de lidar com você. Um médico fará uma avaliação da sua precária saúde e nos orientará sobre sua alimentação e o que mais for necessário para sua recuperação. Posteriormente, sairei com você pelas ruas, frequentaremos alguns lugares onde haja grupos de pessoas (bares, praças, centros comerciais etc.), a fim de dessensibilizá-lo dos olhares curiosos e ameaçadores... Vou participar diretamente da reconstrução do seu repertório comportamental e de sua reinserção no mundo das pessoas. Programarei com você a generalização do seu novo repertório comportamental para outras situações e para interação com novos grupos de pessoas. Nada poderei fazer sozinho, repito. 


G - Não sei se quero retomar minha vida...


T - Gregor, se você se sentisse amado, se você fosse de fato amado, então, eu poderia afirmar que o amor o condenaria a viver. Não se sentindo amado, então você fica completamente livre para escolher a morte.


G - Se bem entendi: o amor me impõe a vida, o desamor me liberta para morrer.


T - Você está sendo exageradamente sensível às consequências aversivas. E, no pior sentido possível. Antes as contingências levavam-no a emitir comportamentos de fuga-esquiva para minimizá-las ou eliminá-las. Consigo entender que quase todo seu repertório comportamental era de fuga-esquiva. Seus sentimentos eram quase que exclusivamente de ansiedade, de medo, de alívio fugaz, de desamparo em muitas situações, de incompetência em outras. Seu repertório não produzia consequências reforçadoras positivas e você não conheceu sentimentos de prazer, de satisfação, de liberdade etc.


G - Sempre pensei que a vida era exatamente como eu a vivia. A vida sempre me foi difícil. Por incrível que possa parecer nunca me ocorreu que poderia vivê-la de forma diferente. Para mim viver é sofrer. E deve-se sofrer de forma resignada. 


T - Gregor, você não discriminava a possibilidade de viver de outra maneira porque todas as contingências às quais você respondia tinham a mesma função: contingências coercitivas intensas diante das quais você emitia de forma eficiente, comportamentos de fuga-esquiva. Você era completamente inconsciente dos controles dos quais seus comportamentos eram função, simplesmente, porque não havia contingências diferenciadas que produzissem repertórios discriminativos. A conscientização é uma forma de conhecimento. E, tal conhecimento não se obtém na ausência de uma comunidade social que cria contingências que produzem o conhecimento das contingências que estão operando em sua vida. Ser consciente é ser capaz de descrever as contingências que estão atuando, mas não basta para mudar a vida de alguém. É necessário mudar as contingências que são impróprias para aquela pessoa. Mudar a vida é uma forma metafórica de dizer: mudar os comportamentos. E, só mudamos nossos comportamentos alterando as contingências.


T - Então, você capitulou diante do peso das contingências coercitivas e passou a responder a elas com menos e menos comportamentos. Você desistiu de se esquivar, de fugir. As contingências coercitivas adquiriram a função de procedimento de punição positiva e seu repertório, praticamente, desapareceu. Todo seu repertório atual cabe dentro de um inseto.


G - Eu me sinto um inseto.


T - Você prefere ser um inseto. Melhor, as contingências coercitivas permanentes e intensas reduziram seus comportamentos e sentimentos a níveis tão baixos e tão sofridos que você se metamorfoseou em um inseto, não organicamente, mas comportamental e emocionalmente.


T - O mito de Sísifo se aplica a você. Ele foi condenado a empurrar uma enorme pedra até o cume de um monte e de lá deixá-la rolar até o sopé, para reiniciar o movimento de levá-la novamente até o alto infinitas vezes até o fim dos tempos. A condenação de Sísifo não podia ser violada. A sua pôde. Você se cansou de empurrar sua vida para onde lhe mandavam empurrá-la, sem nenhuma razão sua para fazê-lo. Você se cansou de recomeçar sua vida cada dia para atender aos outros. Você superou Sísifo: deixou que a enorme pedra rolasse sobre você e o esmagasse para inviabilizar, por extinção do próprio organismo, a permanência da condenação. Você fez o que Sísifo não conseguiu fazer contra Zeus; por um instante ser mais poderoso que o deus que o condenou. A escolha é sua. Vou deixá-lo sozinho por hoje.


Após a última sessão...


T - Mas, no fundo, nem eu mesmo acredito na recuperação de Gregor... Tenho consciência que há redes de contingências aversivas tão intrincadas e poderosas que não é possível dissolvê-las, nem substituí-las. As contingências vencem sempre; nem sempre podemos alterá-las a nosso favor. Mas, prefiro não desistir nunca. Vou até o fim...


T - Saí desta sessão desalentado. Não acredito que Gregor participará do projeto de voltar a se ver e a se sentir como Gregor...


T - Temo pela morte de Gregor. Os seus comportamentos estão se tornando tão escassos que só restará um organismo sem comportamentos... ele, está cometendo um suicídio muito peculiar: se matará pela eliminação absoluta de comportamentos. Sem comportamentos o corpo não vive.


T - Não acredito que haja tempo suficiente para interromper o processo de autodestruição de Gregor: ele está desligando todos os interruptores de luz para mergulhar na escuridão da nova vida que se nega a provar sua existência. Se não há nova vida, a escuridão é a metáfora da morte. Ele até se imaginou morto, como seria seu velório comandado por uma vassoura guiada pela faxineira. Ele tomou consciência, no sentido de saber que a morte era inevitável; porém, seu conhecimento não se estendeu para usar o que já compreendera para ressuscitar. Depois de tantas perdas, a Vida impõe seus limites; saber sem fazer não basta!


T - De que morrerá Gregor?


T - Da interrupção radical de comportamentos. Sem comportamentos não há Ser; apenas inércia.


No dia seguinte...


G - “Permaneci nesse estado de meditação vazia e pacífica até que o relógio da torre bateu a terceira hora da manhã.” (p. 78)


T - Temo as reflexões sobre a vida nesses horários tardios. Na madrugada solitária a pessoa doente se torna vulnerável. A morte espreita o seres que mal respiram e os recolhe para o mais recôndito de seus esconderijos numa marcha ininterrupta que adentra hospitais, asilos, lares desfeitos. Exatamente, naqueles lugares onde há fraquezas e dores a presença da morte é acolhida como bálsamo para o derradeiro alívio.


G - “Bateu a terceira hora da manhã. Eu ainda vivenciei o início do clarear geral do dia lá do lado de fora da janela. Depois sem intervenção da minha vontade, a minha cabeça afundou completamente.” (p. 78) Senti que meu fim estava próximo.


T – Não me cabia insistir mais. Acredito que a escolha acontece em função da desnecessidade de viver. Saí mortificado; aceitarei a decisão dele, pelo menos está ciente para decidir.


T - Pelo que posso concluir, “Depois, sem intervenção da sua vontade, a cabeça afundou completamente e das suas ventas fluiu fraco o último fôlego.” (p. 78) Estava só como nos últimos momentos de sua triste sina. O pensamento de que Gregor estava só me precipitou em direção à sua casa.    


T- Bati à porta da casa de Gregor. Atendeu-me a faxineira.


F- Gregor morreu! Eu mesma dei conta de enterrá-lo. Não houve velório. Nem choro. Ninguém falou sobre Gregor aqui em casa. Eu só o conheci “naquilo” em que ele se transformou. Nenhuma palavra foi dita sobre como ele era antes...


F - Deixou no chão este envelope escrito: “Para o Dr. Hélio”.


T - Fiz-lhe algumas perguntas. Veja seu relato:


F - “Pensei que ele estava deitado ali premeditadamente imóvel e que fazia o papel de ofendido, pois lhe creditava todo o entendimento possível. Por estar casualmente segurando na mão a comprida vassoura, tentei, da porta, fazer cócegas com ela em Gregor. Quando isso também não deu resultado, fiquei irritada, espetei Gregor um pouco e só depois que o havia empurrado do lugar sem achar resistência é que prestei mais atenção. Ao reconhecer a verdade dos fatos arregalei os olhos, dei um assobio, mas não me detive muito tempo: escancarei a porta do quarto de dormir e bradei em voz alta para dentro do escuro: “Venham só ver uma coisa, ele empacotou; está lá empacotado de uma vez! 

      “O casal Samsa ficou sentado no leito conjugal fazendo um esforço para superar o susto comigo antes que chegassem a entender o que eu comunicava. Mas depois o senhor e a senhora Samsa, cada um do seu lado, desceram da cama o mais rápido possível; o senhor Samsa atirou sobre os ombros o cobertor, a senhora Samsa saiu só de camisola e assim entraram no quarto de Gregor. Nesse meio tempo tinha sido também aberta a porta da sala de estar, na qual Grete dormia desde a entrada dos inquilinos; estava completamente vestida, como se não tivesse dormindo nada; o rosto pálido parecia comprová-lo.

        – Morto? – disse a senhora Samsa e ergueu os olhos interrogativamente para mim, embora pudesse verificar por si mesma e até reconhecer tudo sem verificação.

      “É o que estou tentando dizer – disse e para provar empurrei o cadáver de Gregor com a vassoura mais um longo trecho para o lado.

      “A senhora Samsa esboçou um movimento, como se quisesse deter a vassoura, mas não o fez.

        – Bem – disse o senhor Samsa −, agora podemos agradecer a Deus. Fez o sinal-da-cruz e as três mulheres seguiram o seu exemplo. Grete, que não desviava o olho do cadáver, disse:

        – Vejam como ele estava magro. Também já fazia muito tempo que não comia nada. Assim como entrava, a comida saía de novo.

        – De fato o corpo de Gregor estava completamente plano e seco, na verdade só agora se reconhecia isso, uma vez que ele já não estava erguido sobre as perninhas e nada mais distraía o olhar.

        – Grete, entre um instantinho conosco – disse a senhora Samsa com um sorriso melancólico e Grete, não sem olhar para trás, na direção do cadáver, seguiu os pais até o quarto de dormir. 

       Fechei a porta e abri completamente a janela. Embora fosse de manhã cedo já se misturava ao ar fresco um pouco de mornidão. Afinal já era fim de março.

      “Abriu-se então a porta do quarto de dormir e o senhor Samsa apareceu na sua libré, a esposa num braço e a filha no outro. Todos tinham o ar de quem havia chorado um pouco; de vez em quando Grete comprimia o rosto no braço do pai. 

     “Decidiram dedicar o dia ao repouso e ao passeio; não só mereciam, como também necessitavam absolutamente dessa interrupção no trabalho. E assim sentaram-se à mesa para escrever três cartas de desculpa, o senhor Samsa à direção do banco, a senhora Samsa ao seu empregador e Grete ao proprietário da loja. Enquanto escreviam entrei para dizer que ia embora, pois o meu trabalho da manhã havia terminado. A princípio os três simplesmente menearam a cabeça, sem erguer os olhos; só quando não fiz menção de me afastar é que eles olharam irritados para mim. 

        – E então? – perguntou o senhor Samsa. Eu estava junto à porta, sorridente, como se tivesse de anunciar à família uma grande boa notícia, mas só o faria se interrogada a fundo. A pequena e reta pena de pavão em cima do meu chapéu, com a qual o senhor Samsa já se irritara durante todo o seu tempo de serviço, balançava leve em todas as direções.

         – O que é que a senhora está querendo? – perguntou a senhora Samsa, pela qual eu ainda tinha o máximo respeito.

     “Ah, sim – respondi, que por causa do riso amigável não pude continuar falando. – A senhora não precisa se preocupar com o jeito de jogar fora a coisa aí do lado. Já está tudo em ordem. (pp. 69-74)


T - Gregor foi rotulado de “a coisa aí do lado” pela faxineira, diante do olhar cúmplice da mãe. Triste o velório onde não estão as pessoas e não vertem lágrimas de nenhum olho. Ainda bem que o morto disso nada sabe. A morte o poupa de conhecer o derradeiro desprezo, o desfecho de uma separação que não produz dor. Sorriram no seu nascimento, não choraram na sua morte.  


 F – “Depois os três deixaram juntos o apartamento, coisa que não faziam havia meses, e foram de bonde elétrico para o ar livre no subúrbio da cidade. O bonde em que ficaram sentados sozinhos estava totalmente iluminado pelo sol cálido. Recostados com conforto nos seus bancos, conversaram sobre as perspectivas do futuro, descobrindo que, examinadas de perto, elas não eram de modo algum más, pois os três tinham empregos muito vantajosos e particularmente promissores – sobre os quais, na verdade, nunca tinham feito perguntas pormenorizadas um ao outro. É claro que a grande melhora imediata da situação viria, facilmente, da mudança de casa; eles agora queriam um apartamento menor e mais barato, mas mais bem situado e, sobretudo mais prático do que o atual, que tinha sido escolhido ainda por Gregor. Enquanto conversavam assim, ocorreu ao senhor e à senhora Samsa, quase que simultaneamente, à vista da filha cada vez mais animada, que ela – apesar da canseira dos últimos tempos, que empalidecera suas faces – havia florescido em uma jovem bonita e opulenta. Cada vez mais silenciosos e se estendendo quase inconscientemente através de olhares, pensaram que já era tempo de procurar um bom marido para ela. E pareceu-lhes como que uma confirmação dos seus novos sonhos e boas intenções quando, no fim da viagem, a irmã se levantou em primeiro lugar e espreguiçou o corpo jovem”. (p.75)


T - Gregor virou passado. Não há razões para recordá-lo. Um herói que lutou por uma guerra que não existiu e na qual foi o único soldado a morrer por completa falta da única munição que poderia salvá-lo: o amor agápico. 


T - Abri o envelope. Havia uma breve mensagem: “Morro convencido de que sempre fui um ser humano. Descobri tarde demais...”


T – Perguntei-me: terá sido melhor assim?



* O presente trabalho se baseou em Kafka, F. (1997). A Metamorfose, São Paulo: Companhia das Letras. Tradução de Modesto Carone. Publicação original em 1915.


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