O livro se apresenta como um diálogo entre Dominique Simonnet e vários estudiosos (na forma de entrevistas), a maioria dos quais historiadores, sobre diversos temas, todos contribuindo para avanços na compreensão do Amor. Gostaria de transcrever alguns trechos e, a partir deles, propor algumas questões para reflexão. Assim:
Dominique Simonnet (este é o entrevistador. Redator–chefe da revista L’ Express, encarregado de grandes entrevistas): Das origens do amor, do primeiro gesto terno e sensível, não possuímos vestígios, nenhum fóssil, nenhum relato, e jamais teremos provas nem certezas. Mesmo que os cientistas, dentre os quais o senhor se inclui, não gostem de especulações, podemos ainda arriscar algumas hipóteses a respeito desse misterioso e longínquo acontecimento?
Jean Courtin (pré-historiador, diretor de pesquisas no CNRS: Centre National dela Recherche Scientifique): De imediato nos defrontamos com a definição de amor. Mesmo no mundo animal, sempre existiu a necessidade dos indivíduos de um sexo procurarem os do outro sexo, a fim de perpetuar a espécie. Certos animais chegam a formar casais duradouros, como os animais de rapina, os corvos, os lobos, que se unem por toda a vida. Existe, pois, para eles, um apego entre sexos diferentes. Trata-se de amor? Eu creio que devemos falar propriamente de instinto. Para encontrar um verdadeiro sentimento profundo, que incite a avaliar as qualidades do outro, a escolher um parceiro, a decidir passar o tempo com ele, é preciso esperar o desenvolvimento do cérebro, e portanto o Homo Sapiens, ou seja, o homem moderno.
─ Nossos ancestrais australopitecos, Homo Habilis, Homo Erectus, não teriam tido esta graça, em sua avaliação? A pequena Lucy, a famosa australopiteco fêmea de 3 milhões de anos, não teria se apaixonado?
─ Eu a vejo como um pequeno macaco. Os macacos são enternecedores de se observar. Esse ser ereto talvez possa ter tido algum charme para seus semelhantes. Exercia a sedução e experimentava atração. Mas amor, no sentido que compreendemos hoje em dia, já não tenho tanta certeza... Também não consigo imaginar os Homo Erectus dotados de uma aptidão tão sutil. Eles não conheciam a sepultura, deixavam seus mortos ao abandono, encontramos esqueletos abandonados, despedaçados, no meio de ossos de animais...
─ O Homo Sapiens é, por sua vez, mais delicado.
─ Ele foi o primeiro a dispensar um grande cuidado a seus defuntos, o que denota uma forma inegável de apego aos semelhantes. Tendo a pensar que o sentimento amoroso se desenvolveu junto com a consideração para com os mortos, com o senso da estética, da ornamentação. Portanto, junto com características propriamente humanas que não foram desenvolvidas antes do surgimento do homem de Cro-Magnon, a partir de 100.000 anos atrás, na África e no Oriente Próximo, e por volta de 35.000 anos atrás, na Europa.
Comentários: Courtin oferece uma interpretação intrigante ao sugerir que o cuidado com os mortos “denota uma forma inegável de apego aos semelhantes...”. Ele encontrou produtos de comportamento; não há como saber que contingências de reforçamento (quais foram os determinantes) que produziram comportamentos de cuidar dos mortos. Seriam determinantes do segundo nível de seleção? É difícil pensar em “ganhos” individuais que selecionaram comportamentos de cuidar dos mortos. Estou mais inclinado em sugerir que a coesão, solidariedade entre os membros do grupo, cooperação etc. se fortaleceram quando, por alguma razão, a morte de um membro do grupo passou a controlar o comportamento dos sobreviventes em relação a cuidar do defunto. Lembremos que os grupos humanos foram inicialmente pequenos – para os padrões atuais –, cerca de 30 membros e a perda de um membro (um a menos para defender o grupo de predadores, um a menos para caçar e pescar...) poderia ter importância vital para a sobrevivência do grupo. (Pode-se, por outro lado, argumentar que a morte de um membro grupo poderia significar um a menos para ser alimentado, para ser defendido...). Se acrescentarmos às nossas considerações que a perda de alguém produz sofrimento e que os rituais de sepultamento e outros em relação à morte geram, disponibilizam e tornam acessíveis reforços positivos condicionados associados ao morto (o que é uma forma de torná-lo, parcialmente presente e acessível aos vivos para os quais ele é significativo), podemos inferir que a perda total de alguém reforçador (se à morte nada se acrescentasse) privaria os sobreviventes de todos os reforços advindos do morto, enquanto que a sepultura, objetos associados ao sepultamento e a preservação de sinais concretos do defunto etc. poderiam ter a função de manter presentes de maneira perene símbolos do morto. Convém deixar claro que o sofrimento pela perda de alguém é um sentimento instalado por influência de uma comunidade verbal e, como tal, quando as pessoas emitem comportamentos sob controle da morte do outro e estão aptas a sentir a perda, é porque a comunidade já desenvolveu contingências de reforçamento que podem instalar amplo repertório do que poderia ser chamado de sensibilidade ao que ocorre com alguém que é próximo e, em alguma dimensão, significativo para determinada pessoa. Assim, o intervalo entre ignorar o defunto e cuidar do morto deve ter sido longo e exigiu a atuação de contingências de reforçamento por processos que nos são desconhecidos. O que se sabe é que tal passagem de um estágio de repertório comportamental para outro ocorreu; conhecemos o produto de contingências de reforçamento; desconhecemos quais foram e qual o processo pelo qual se manifestaram. Em muitos aspectos os rituais aliviariam a dor de uma perda devastadora se privada de memória concreta. Acrescente-se que os rituais da morte, assim como os rituais de aniversário (tema que discuti por ocasião da análise da poesia Aniversário de Fernando Pessoa), demonstram para a comunidade a importância da existência e da convivência de cada um com todos os demais membros do grupo para a sobrevivência da comunidade e tais ritos devem, em ultima instância, contribuir para instalar e manter em cada membro do grupo comportamentos de cuidar do bem estar e da sobrevivência de cada um dos outros que o cercam. São especulações e poderíamos estender estes comentários, a fim de identificar origens daquilo que poderiam ser nomeados de comportamentos e sentimentos humanos no organismo humano. Os trechos da entrevista que se seguem sobre traços de solidariedade, nos desafiam a admitir a presença de sentimentos associados a comportamentos (que eu atribuiria, mais uma vez, ao terceiro nível de seleção). Assim:
─ A emergência de uma sensibilidade, em suma, que se teria revelado simultaneamente em diferentes domínios...
─ Sim, mas dispomos de muito poucos indícios para detectá-las. Nós, pré-historiadores, nos curvamos sobre nossas pedras, restos de ossos, nossos fragmentos de cerâmica, e temos alguma dificuldade para ler neles a realidade humana. Podemos analisar os achados arqueológicos, as tumbas por exemplo, e tentar imaginar quais teriam sido as estruturas sociais, as relações entre os indivíduos. Mas serão sempre apenas interpretações. Dispomos também de gravuras, de pinturas pré-históricas, de estatuetas de “deusas”... Mas a arte tem uma função simbólica, ela reflete uma mitologia e não uma realidade.
─ Mesmo assim tentemos brincar de detetives do amor. O que nos dizem essas famosas tumbas?
─ Tomemos exemplos: dentro das cavernas de Grimaldi, foram encontrados esqueletos de duas crianças pequenas (entre 6 e 10 anos), de 30.000 anos, exumadas [desenterradas] lado a lado, a bacia e as coxas recobertas de milhares de pequenas conchas perfuradas, decerto costuradas originalmente sobre suas tangas ou seus cintos. Na Dinamarca, em Vedbaek, em um sítio do oitavo milênio antes de nossa era, descobriu-se uma jovem mulher morta com a idade de 18 anos, acompanhada de seu recém-nascido: ela tinha um grande número de dentes de cervo perfurados, outrora costurados ou presos a suas vestimentas e seu cinto, e o bebê, provavelmente um menino, tinha uma lâmina de sílex [rocha resistente com a qual se produzia objetos] na mão, rito que era observado pelos homens adultos. O pequeno cadáver fora colocado sobre uma asa de cisne (cujos ossos se conservaram).
─ O que deduzir de tudo isso?
─ Que se dispensava um grande cuidado às crianças. Já se pode ver nisso o sinal de um apego profundo, de uma forma de amor. Outro indício: sabe-se também que os homens pré-históricos eram capazes de solidariedade.
─ E como é que se encontram traços dessa solidariedade?
─ Dentro de um abrigo sob uma rocha, no fundo da enseada de Bonifácio, na Córsega, um sítio de 8.000 anos, exumou-se o esqueleto muito bem conservado de uma mulher morta com a idade de 35 anos, enterrada com seus ornamentos e recoberta de ocre vermelho. Ela provavelmente sofreu, durante a juventude, uma queda dentro dos rochedos: seu braço esquerdo ficou paralisado em decorrência de diversas fraturas, não pôde mais se deslocar a não ser com muita dificuldade, e uma parte de sua mandíbula inferior foi destruída por uma osteíte, o que teria limitado sua alimentação a caldos. Em uma época na qual se vivia da caça, da pesca, da coleta de molusco, ela se tornou, portanto, inteiramente dependente dos seus. Foi, entretanto, alimentada, cuidada, ajudada e mantida viva por muitos anos.
─ Prova de uma real solidariedade, com efeito.
─ Os filhos teriam se encarregado dela? Ou o seu companheiro? Esses casos de solidariedade foram bastante difundidos, provas da existência, sem sombra de dúvida, de sentimentos de apego profundo entre determinados indivíduos. Foram observados mesmo entre os homens de Neandertal, os contemporâneos do Homo Sapiens, cuja espécie se extinguiu.
─ Que são descritos às vezes como seres rudes...
─ Eles eram mais evoluídos do que se pensa. Claro, eles tinham uma morfologia diferente do Homo Sapiens: pescoço de lutador de sumô, nuca poderosa, pernas curtas, braços muito musculosas, aletas olfativas mais importantes, o que lhes dava por sinal um faro de cão de caça. Mas possuíam certamente uma linguagem desenvolvida, e por vezes inumavam seus mortos... Pois bem, dentro de sepulturas neandertalenses antigas, que têm entre 60.000 e 80.000 anos, foram descobertos os restos de indivíduos gravemente deformados que, mesmo assim, sobreviveram durante muitos anos graças à ajuda mútua do grupo: o homem de Shanidar, por exemplo, exumado dentro de uma caverna do Curdistão, no norte do Iraque, ou um outro indivíduo que teve uma perna quebrada e a mandíbula esfacelada durante sua adolescência... Também foi encontrada uma tumba neandertalense de mulher, forrada de flores de pântanos, que foram colhidas em um vale mais abaixo, a muitas horas de caminhada. É a utilização mais antiga que se conhece de flores nos ritos funerários.
─ O Neandertal e o Cro-Magnon teriam inventado a solidariedade, de forma independente. E o amor, então?
─ É uma bela hipótese. Mas, ao contrário dos neandertalenses, que enterravam somente alguns de seus semelhantes, os Cro-Magnon, por sua vez, faziam isso de maneira sistemática: homens, mulheres e crianças eram inumados [sepultamento] com o mesmo cuidado, indiscriminadamente, qualquer que fosse a idade. Eu vejo nisso, sem dificuldade, o sinal dos primeiros sentimentos amorosos.
Comentários: As limitações metodológicas – compreensíveis quando se estuda a pré-história – nos limitam aos produtos materiais de comportamentos, aquilo que, através do tempo, não se perdeu. Não temos acesso às contingências de reforçamento que selecionaram e mantiveram tais comportamentos, mas uma conclusão parece indiscutível: o ser humano era sensível a conseqüências não imediatas e era sensível ao outro. Tanto uma capacidade como a outra dependem do comportamento verbal. Courtin (p.21) afirma: “Os homens e mulheres de Cro-Magnon devem ter tido uma linguagem elaborada, o nível de sua tecnologia a requeria: para cortar grandes lâminas a partir de fragmentos de sílex, com um cortador feito de chifre de rena, um martelo de madeira, é preciso bater segundo um determinado ângulo, no lugar correto, preparar o golpe com precisão, desbastar no ponto adequado... Essa técnica refinada, que nada tem a ver com os rústicos seixos talhados dos contemporâneos de Lucy, não pode ser unicamente explicada com gestos e exige uma verdadeira comunicação.”
Não sei como vocês reagiram às informações apresentadas (virão outras!). Particularmente, fiquei fascinado com o que podemos aprender com outras disciplinas. Admirei também o cuidado que Courtin demonstrou ao apoiar suas inferências em evidências que, embora escassas, se apóiam em uma forma de ordem e regularidade derivadas de dados. Por outro lado, nossa disciplina nos direciona para propor inúmeras questões. Apenas como exemplos, fico me perguntando: como foi modelado o longo encadeamento de alguém trazer de um pântano distante flores que foram depositadas num sepulcro; que condições ambientais (acho que poderia dizer sociais) selecionaram o repertório de ficar sob controle das flores ao ponto de colhê-las; selecionaram o repertório de trazê-las até o morto; selecionaram o senso estético (ou até mesmo diferentemente de qualquer preocupação estética) selecionaram o repertório de depositá-las, (por qual razão?) na tumba? São apenas algumas (das incontáveis) questões que poderiam ser sugeridas para se ter mais clara a efervescência das interações humanas nas pequenas, mas complexas comunidades de então!
Nota.
Cro-Magnon: extraímos do Google algumas informações básicas sobre estes nossos ancestrais. Assim:
“Os Cro-Magnon são os restos mais antigos conhecidos na Europa de Homo sapiens, a espécie à qual pertencem todos os humanos modernos. A designação não se enquadra totalmente nas formas convencionais de denominação dos hominídeos, sendo frequentemente usada para designar, em sentido genérico, os povos mais antigos conhecidos na Europa que podem ser integrados entre os modernos humanos.
No Paleolítico Superior, os neandertais desapareceram, por volta de 30.000 a.C. A teoria mais aceita na Antropologia, hoje, é de que ocorreu um encontro entre os Neanderthais e os Homens de Cro-Magnon há cerca de 40 mil anos. Eles entraram em um conflito que durou cerca de 10 mil anos que, por fim, acarretou o extermínio do Homem-de-neandertal.
Os principais fósseis foram encontrados na França e na Espanha, mas também existem sitios arqueológicos em outras partes da Europa, Oriente Médio e do Norte da África, donde se supõe que tenham originado (embora a origem asiática não seja descartada). De acordo com os fósseis, eram homens altos, entre 1,8 e 2 metros de altura, a capacidade craniana era de 1.500c³ a 1.790c³. Distribuíram-se por toda a Europa, fundamentando, de uma certa maneira, os primeiros alicerces da civilização, pelo menos no pensar de algumas correntes antropológicas.
Como seus anteriores, os Cro-Magnon moravam em cavernas. Mas são notáveis seus progressos culturais. Os utensílios, instrumentos e armas já apresentavam um acabamento razoável, e outros materiais, além da pedra, são lascados, como o chifre da rena e o marfim. Fabricavam o arpão, o anzol e acabaram inventando a agulha de osso, que lhes serviu para costurar suas roupas, feitas de peles de animais, pois ainda não conheciam a tecelagem. Deviam comer seus alimentos cozidos, pois foram encontrados nas cavernas inúmeros vestígios de fogões rústicos.
A vida social dos Cro-Magnon apresentava sintomas bastante significativos de organização. A sua fixação e permanência nas cavernas, embora não fosse definitiva, pois suas atividades ainda eram a caça e a pesca, era prolongada de tal modo a lhes dar condições de esquematizar os princípios básicos de uma comunidade.
A divisão do trabalho, por exemplo, existia entre eles sob a forma de um cooperativismo primário. A caça era um objetivo comum e a sua partilha entre os membros do grupo era obrigatória. Este "cooperativismo" era, em grande parte, motivado pelas próprias circunstâncias geo-econômicas em que viviam: os animais eram, em sua maior parte, de grande tamanho e difíceis de serem caçados por um homem sozinho. Caçavam juntos, enfrentando os mesmo perigos mas, em cerimônias festivais, faziam também a partilha coletiva.
Referência
Simonnet, D. et al. (2003). A Mais Bela História do Amor . Difel: R.J.
HÉLIO JOSÉ GUILHARDI
(2010)
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