09 setembro 2026

O enfoque do processo psicoterapêutico não deve ser molecular.

As queixas espontâneas são recortes arbitrários que o cliente faz por diferentes razões. Ao lado das queixas existem outras dificuldades comportamentais, não necessariamente conhecidas pelo cliente, mas identificadas pelo psicoterapeuta, que se mostram, frequentemente mais relevantes para o processo de mudanças necessárias do cliente do que a queixa propriamente dita. Há casos em que há urgência em manejar a queixa em si porque há riscos para o cliente e as pessoas que o cercam. Justifica-se, então, a adoção de procedimentos que visem a mudanças focadas na queixa. De qualquer maneira, quando há urgências, o psicoterapeuta deve ter claro e deixar isso explícito para o cliente ou para seus familiares que o eventual uso de procedimentos para lidar com episódios agudos tem por objetivo mudar comportamentos específicos e por tempo limitado. Não substitui o processo psicoterapêutico que visa a mudar o cliente (isto é, seu repertório comportamental com a abrangência necessária para viver melhor, a qual vai além das queixas iniciais), portanto tem um alcance muito mais abrangente, para que ele mudado encontre caminhos próprios para viver melhor consigo mesmo e com aqueles que o cercam. 

Guilhardi (2004) (Caso Raul) relatou o estudo de caso conduzido com um cliente de 40 anos que procurou ajuda para se livrar de “ataques de pânico” que ocorriam em lugares públicos – desencadeados sem uma causa que ele conseguisse detectar –, suficientemente intensos para levarem-no a se afastar do trabalho por licença médica e que o mantinham a maior parte do tempo em casa, sempre acompanhado pela mãe. Após trocar de sucessivos psiquiatras e de remédios por eles prescritos, resolveu afinal testar as orientações unânimes dos médicos consultados: seu problema é psicológico.

O psicoterapeuta identificou que as crises e as ameaças delas (“Estou sentindo que vou ter um novo ataque...”) produziam atenção por parte dos familiares e de pessoas amigas que permaneciam ao seu lado, o confortavam, levavam-no para “passear” de carro em lugares que ele considerava seguros etc. 

A história de contingências revelou que sua infância se caracterizou por padrões de comportamentos de fuga-esquiva dos comportamentos severos e exigentes do pai. Relatou que era muito criticado, com frases ásperas, por qualquer desempenho que não atendesse aos critérios de qualidade do pai. A mãe, receosa das reações do marido, não interferia nas interações dos dois. Quando estava perto do pai, o cliente sentia o coração palpitar, sentia falta de ar, medo, tremor nas mãos, mas se calava diante da iminente repreensão por se mostrar um menino “fraco”.

Adulto, passou a morar sozinho, distante do pai, e começou, em situações em que poderia ser avaliado (provas da universidade, reuniões de trabalho em que precisava apresentar relatórios de suas atividades etc.), “sentir o corpo em extremo sofrimento” (sic). Lembrava-se dos sintomas da infância. Progressivamente, tais estados corporais passaram a ser mais frequentes em contextos aleatórios: “É como se meu corpo acordasse para morrer” (sic), agora sem causa aparente. Procurou, então, ajuda médica, pois “Meu problema é com meu corpo” (sic). Sem sucesso!

O psicoterapeuta sistematizou com o cliente a história de contingências dele e levou-o a constatar sua posição de “desamparo” diante do pai, basicamente fruto de contingências coercitivas intensas, que evocavam comportamentos de fuga-esquiva na forma de submissão, alto nível de desempenho e, no caso de insucesso, chorar diante do pai, que assim “Parece que caía em si e reduzia a pressão sobre mim, como se nada houvesse ocorrido...” (sic). O cliente compreendeu assim a origem aversiva adquirida por pessoas com função de autoridade (agora na vida adulta) e por contextos nos quais poderia ser criticado, punido com ironias ou sarcasmo, enfim, passou a viver para evitar fracasso, não para produzir sucesso! Reconheceu também a origem dos sintomas orgânicos (em geral eliciados) aversivos, que se mantinham, progressivamente com maior intensidade, e em relação aos quais se sentia impotente. Tornou-se ciente, enfim, de que a maneira de se esquivar ou fugir das ameaças do pai era, no extremo, mostrar fraqueza (chorar), o que na idade adulta passou a se expressar de forma amplificada, catastrófica, pelos sinais da chegada do pânico ou por entregar-se a alguém para socorrê-lo no episódio de pânico. Pânico não é (para o doente) fracasso nem fraqueza nem incompetência; é doença organiza, que não precisa (e “nem pode”) ser escondida nem negligenciada, mas “curada”!

Ao mesmo tempo, um acompanhante terapêutico (AT) passou a acompanhá-lo para andar em lugares públicos – devidamente selecionados de comum acordo – a fim de elaborar uma hierarquia de aversividade crescente, desde aqueles pouco aversivos (andar numa praça) até outros muito aversivos (entrar no cinema no shopping). Aos poucos, o AT incentivou-o a começar a dirigir e foi transferindo seu papel de motorista para o de passageiro e, em etapas sucessivas, foi esvanecendo sua presença nos “passeios” até o ponto de acompanhá-lo até a porta do cinema e cada qual assistir ao seu próprio filme.

Finalmente, o psicoterapeuta identificou com ele algum comportamento que ele emitia com segurança em sua rotina privada: cantar foi o selecionado por ambos. Tinha boas amizades, mas estava afastado dos amigos há razoável tempo. Foi orientado a se reaproximar dos amigos, a deixar de pegar carona e ir a encontros dirigindo seu próprio carro, a viajar acompanhado e, finalmente, sozinho. Entendeu que os amigos não tinham função de “autoridade” e que podia se comportar de forma espontânea com eles, sem submissão, sentindo-se livre para dizer o que pensava, o que preferia fazer etc. Atendeu à sugestão do psicoterapeuta e, num churrasco entre amigos, tomou a iniciativa de cantar para eles. Foi um sucesso. Relatou que no churrasco estava se sentindo bem, mas se perguntava: “Como será à noite, quando estiver sozinho em casa? ” Lembrem-se de uma orientação do psicoterapeuta: “Quando estiver sentindo os primeiros sinais de ansiedade... logo no início... faça alguma coisa que produza consequências reforçadoras positivas, vindas de outras pessoas (reforço social arbitrário) ou produzidas por você mesmo (reforços naturais). Isso controlou seu comportamento de tomar iniciativa de cantar...  Passou a sair regularmente com os amigos em happy hours e outros encontros. Passaram a incentivá-lo a cantar em barzinhos e outros ambientes em que isso era apropriado e percebeu que não só se sentia bem cantando, mas também com os olhares de atenção que lhe dirigiam no palco. Assim, começou uma relação de namoro. Em casa, aprendeu a usar mais o celular e mensagens para se manter conectado com pessoas “do bem” (para ele). Conseguia assim, apesar de a sós, sentir-se acompanhado. Começou a dar aulas em um cursinho, a frequentar aulas de natação e descobriu um lado “teatral”, sempre interagindo de forma engraçada que cativava a atenção dos presentes. Era um showman por onde circulava. O namoro se firmou, assumiu o filho da namorada como seu e ampliou, dessa maneira, seu mundo de bons momentos. Aprendeu a dizer “não” quando a negativa era pertinente, a apresentar seus argumentos em uma conversa (“Não preciso ganhar a discussão, mas apresentar meus pontos de vista...”), a se mostrar seguro e competente no trabalho. Não teve mais ataques de pânico, a partir do início da psicoterapia, sem que tivesse havido necessidade de lidar diretamente com os sintomas orgânicos, nem com as crises de pânico. O sucesso psicoterapêutico pode ser devido a análises e procedimentos que poderiam ser caracterizados como derivados de uma visão molar das dificuldades do cliente. Ele compreendeu a origem de seus sintomas como produtos de contingências de reforçamento aversivas e não por causa de alguma doença orgânica; passou a enfrentar contextos aversivos do cotidiano com base no conceito de “aprendizagem sem erro”, ou seja, com a proteção total de um acompanhante e do psicoterapeuta em lugares progressivamente mais aversivos, com o cuidadoso e lento esvanecimento da presença deles sem ocorrência de sintomas corporais de ansiedade, e com desenvolvimento e ampliação de repertório social desejado que produzia consequências sociais reforçadoras, de tal maneira que acolhimento, companhia, atividades gratificantes não precisavam ser produzidos por queixas sobre seu organismo.

Esboça-se assim um modelo de atuação psicoterapêutica que pode ser denominada de molar (não no sentido que Baum [2001, 2002] e Rachlin [1985] atribuíram ao termo, mas influenciado por eles no uso os termos) em contraste com o modelo molecular.

No resumo do estudo de caso apresentado nos parágrafos anteriores, ao invés de lidar diretamente com a queixa (propondo, por exemplo, exercícios respiratórios, técnicas de mindfulness  e de inibição recíproca, entre outras), o que poderia ser nomeado como uma técnica de atendimento (não um processo psicoterapêutico) molecular, optou-se por conhecer (apesar de possíveis limitações ao uso de relato verbal de eventos passados) a história de contingências em que viveu Raul, confrontada (e confirmada) por relatos independentes da mãe do cliente e por fotografias da infância que levaram o psicoterapeuta a identificar a origem das funções aversivas de comportamentos emitidos por pessoa adulta com função de autoridade ou de comando (o pai na infância, os gestores, professores na adolescência e idade adulta), bom como a origem e os processos de seleção dos comportamentos de fuga-esquiva emitidos pelo cliente diante de “autoridades” e de pessoas adultas de um modo geral, por processos de generalização e de relações de equivalência. Os comportamentos de fuga-esquiva foram substituídos por comportamentos produtores de reforçamento positivo, arbitrário e natural (por exemplo, cantar em público e fazer “palhaçadas” nas aulas de natação produziam reações sociais arbitrárias, com função de reforço generalizado: elogios, aplausos, risos etc. e sentimentos naturais e bem-estar, resultantes de cantar de modo quase profissional e de achar graça nas próprias palhaçadas), e por comportamentos de fuga-esquiva apropriados em diversos contextos (por exemplo, completar uma tarefa profissional de muita responsabilidade em tempo hábil e com qualidade técnica – é comportamento de fuga-esquiva valorizado e necessário – ao invés de se omitir na tarefa e faltar às responsabilidades documentado com atestado médico autorizando afastamento de atividades profissionais por “doença”). Passou a se comportar de forma mais independente em situações que anteriormente geravam fugas e esquivas, tais como dirigir sozinho na cidade e em longos percursos nas estradas, frequentar lugares “fechados” como cinemas, bares noturnos, shoppings etc. Finalmente, estabeleceu e consolidou um relacionamento afetivo marital satisfatório e reduziu a convivência com os pais, de uma maneira harmoniosa e discreta. Pode-se dizer que Raul não se “curou”, mas foi “curado” de uma suposta doença orgânica de pânico (interpretação atribuída por ele ao que sentia), mas se desenvolveu como ser humano e se integrou de modo harmonioso nos múltiplos contextos de vida que se espera de uma pessoa adulta. Desenvolveu-se significa: passou a programar e a responder a contingências de reforçamento amenas, benéficas para ele e para as pessoas com as quais convive.

Padrões abrangentes de comportamentos (extended patterns of behavior, expressão cunhada por Baum [2002, p.95]) devem ser entendidos, no contexto deste texto, como um fenômeno comportamental que inclui vários padrões, que se estende no espaço e no tempo. Assim, uma pessoa que viveu sua infância num ambiente rural, colhendo algodão, que viveu sua adolescência numa escola pública numa pequena cidade, sua mocidade em um campus universitário e tem vivido a idade adulta numa grande cidade como gestor de uma multinacional desenvolveu um repertório comportamental único e abrangente que não pode ser comparado com o repertório comportamental de nenhuma outra pessoa; cada uma delas terá tido sua própria história de contingências espaço-temporal.  A abrangência deve se estender até os limites passados e presentes que permitam compreender e modificar as funções dos eventos-estímulo e dos eventos-respostas na direção almejada pelo processo psicoterapêutico.

Por outro lado, como as interações entre classes de comportamentos que compõem um todo funcional, o qual não necessariamente inclui todo o repertório comportamental de uma pessoa em particular – todo esse que constitui o conjunto de dificuldades do cliente, que precisam ser conhecidas e modificadas no processo psicoterapêutico. Assim, os repertórios de comportamentos sociais e culturais desde a infância podem facilitar em alguns aspectos ou dificultar em outros o desempenho de uma pessoa quando adulta nas áreas profissional, social, afetiva, familiar etc. Como foi dito, uma pessoa que na infância colheu algodão, sangrando a mão com espinhos, ao lado de pais analfabetos, provavelmente desenvolveu, por um lado, notável tolerância a frustrações, disciplina e autocontrole diante de adversidades, submissão a autoridades de pessoas toscas, mas, por outro lado, terá que superar as deficiências de repertório cultural, de habilidades refinadas no trato social, adquirir repertório social para discriminar interações sutis de controle e contracontrole num ambiente profissional competitivo, terá que superar preconceitos contra si e os dela própria (contra outras pessoas, num mundo em ágil mudança de valores), alterar regras prejudiciais para sua inserção no mundo adulto. De maneira equivalente, uma pessoa que teve seu desenvolvimento desde a infância  gozando de privilégios materiais, superprotegida pela família e pelo sobrenome que herdou, cursando escolas mais capazes de oferecer acesso à cultura mais sofisticada, terá na sua vida adulta que superar sua baixa tolerância a frustrações, acatar diretrizes e ordens de superiores em ambientes profissionais, adquirir repertório de disciplina, maior respeito às pessoas com as quais convive, quebrar preconceitos contra grupos minoritários ou menos favorecidos, possivelmente viver com menos etc. Em suma, a origem dos comportamentos e sentimentos não determina e não permite prever o fim de pessoa alguma, mas conhecer o processo de desenvolvimento comportamental do cliente é necessário para bem cuidar do seu crescimento pessoal e de sua relação com aqueles com os quais convive.

Uma visão molar, que inclua os conceitos de agregação e abrangência, pode ser reconhecia nas atividades psicoterapêuticas quando ocorrem: 

a. descrição e análise da história de contingências de reforçamento das pessoas envolvidas no processo psicoterapêutico (ou seja, a descrição e análise devem se expandir no tempo desde a seleção da origem das funções dos eventos-respostas e dos eventos-estímulos até as contingências que vêm mantendo tais funções); 

b. descrição e análise das múltiplas classes de comportamentos que interagem entre si e se influenciam reciprocamente, do que decorre, por exemplo, que o processo psicoterapêutico não se basta com descrição, análise e intervenção de classes de respostas que compõem a queixa espontânea do cliente. Pode-se dizer que o psicoterapeuta não lida com uma queixa do cliente, mas sim com as dificuldades que interagem e são parte funcional da queixa (ou das queixas) espontânea do cliente. Nenhuma dificuldade comportamental é isolada de outras dificuldades. Assim, por exemplo, quando uma pessoa vem à psicoterapia porque se sente marginalizada afetivamente, cabe investigar quais são seus déficits ou excessos comportamentais na área social como um todo. Assim, será ela prepotente e se comporta para tirar vantagens daqueles que a cercam? Será ela sensível ao que seus comportamentos causam de aversivo e de reforçador para as pessoas com quem interage? Seus comportamentos são gerados predominantemente por regras desajustadas para o ambiente social em que pretende viver ou ela é suscetível para se comportar de acordo com as contingências sociais que vigoram no seu ambiente social? Ela sabe ouvir aquele que lhe dirige a palavra ou se comporta quase o tempo todo exclusivamente como falante? Ela tem bom autoconhecimento do fenótipo de seus comportamentos e das possíveis consequências sociais desse fenótipo? Ela é exageradamente dependente ou independente em excesso? Ela “compartilha o pão”? Ela sabe mediar conflitos de interesses com esclarecimento e senso de justiça? Ela é razoavelmente informada sobre o que ocorre no mundo ao seu redor? Ela é dogmática e inflexível nos seus julgamentos e valores? Ela é fundamentalista em suas crenças e ideologias? Ela é ética? Ela é confiável? Etc.;

c. descrição, análise e implementação das contingências que levam em conta as dimensões: (1) históricas (o processo de aquisição e manutenção das funções ambientais e comportamentais); (2) de integração das classes comportamentais atuais que se influenciam reciprocamente, desde as desejadas (que devem ser mantidas e ampliadas) até as indesejadas (sobre as quais as funções adquiridas no passado precisam ser enfraquecidas e substituídas por funções atualizadas e próprias para os novos contextos de vida); (3) de integração social, pois o cliente é um indivíduo que pertence a várias comunidades socioverbais e precisa se integrar a cada uma delas sem romper, necessariamente, com quaisquer outras (assim, dar-se bem com sua esposa e filhos, não deve implicar em romper com pais e sogros, mas em estabelecer relacionamentos equilibrados que levem em conta particularidades de cada grupo sem submissão, nem opressão); (trabalhar com comprometimento e qualidade profissional não deve ser incompatível com ter interações familiares plenas, se engajar em atividades de lazer e sociais, cuidar da saúde etc.); 

d. avaliação continuada da evolução (ou não) dos novos repertórios comportamentais adquiridos, o que pode ser feito pelo psicoterapeuta em um trabalho de follow-up, ou pelo próprio cliente sensível, isto é, se deixando influenciar pelas consequências que seus comportamentos produzem nos ambientes em que vive. Saber se comportar inclui saber o que seus comportamentos produzem e saber alterá-los, ampliando sua variabilidade de maneira a se adequar às inevitáveis mudanças de contextos e pessoas que estão sempre se atualizando. Fala-se em generalização dos repertórios adquiridos na psicoterapia no tempo, para diferentes situações e com diferentes pessoas (Baer, Wolf e Risley, 1968). Com diferentes pessoas não significa apenas pessoas com diferentes cédulas de identidade, mas uma mesma pessoa no processo de seu desenvolvimento. Não se admite um jargão tolo, mas comumente usado: “Você me conheceu assim”; as pessoas mudam e o conhecê-las é um processo em contínua atualização.

Neste ponto, cabe um esclarecimento à pergunta: até onde se deve incorporar outras pessoas no processo psicoterapêutico de um adulto? Tal investigação pode parecer estranha: o cliente não basta como informante? Não basta. O psicoterapeuta trabalha com funções; assim, há dois problemas: 

1. O cliente pode editar suas narrativas, como recurso para evitar sanções do psicoterapeuta e assim são emitidos comportamentos de fuga-esquiva, tais como mentir, dividir com outrem ou atribuir a outro a ocorrência de comportamentos que o próprio cliente julga indesejáveis (“Ele me levou a agir de modo ríspido”, por exemplo). O psicoterapeuta precisa estar atento à ocorrência de tactos verbais e intraverbais distorcidos e ao uso insidioso de autoclíticos que podem confundir o justo acesso do psicoterapeuta ao ocorrido;

2. O cliente descreve o fenótipo de seus comportamentos (“Tenho sido atencioso com....”, “apenas me vigio para evitar conflitos”), mas desconhece as funções que seus comportamentos têm para as pessoas com quem interage mais proximamente. A pergunta mais razoável que o psicoterapeuta tem a fazer é como levar o cliente a descrever com precisão como se comporta, a fim de detectar o que há de aversivo no seu modo de agir que afasta as pessoas dele. Assim, Mário é um craque no futebol; na formação do time no clube é sempre o primeiro a ser escolhido; no entanto, nunca é convidado para participar “das cervejas” no final da manhã, nunca lhe oferecem carona etc. No campo se comporta criticando seus companheiros de modo agressivo pelos passes errados (ele diz que fala através do “coração emocionado”) e humilha os adversários com suas habilidades técnicas e com gestos e risos sarcásticos. Esta forma de alienação dos fenótipos comportamentais e as funções aversivas que têm para o outro são muito comuns. Lembrar sempre que comportamento é interação; no caso, interação com o outro. O que o cliente diz que faz é parte, muitas vezes equivocada ou distorcida, de um todo interacional. Diante de tais ponderações, o psicoterapeuta deve se manter atento e ativamente buscar informações com o cliente sobre que efeitos têm seus comportamentos com aqueles com quem interage. No caso de Mário, ele próprio informa as consequências de seus comportamentos; embora não tenha consciência de que os comportamentos de se afastarem dele ou de o evitarem são produzidos pelas maneiras como interage com os demais, e permite orientações do psicoterapeuta. Eventualmente, o psicoterapeuta pode solicitar a presença de familiares, por exemplo, com o devido consentimento do cliente, para avaliar a precisão os tactos verbais deste. Deve ficar claro, para o cliente e para o informante, que se trata de sessão para coleta de informações e não de orientação. Assim sendo, o sigilo profissional deve ser mantido com um e com outro, o que deve ser explicitamente acertado. Podem ocorrer sessões de orientação para familiares e, neste caso, não cabe manter sigilo sobre as orientações: ambos os lados devem saber o que foi dito pelo psicoterapeuta. Caso orientações possam prejudicar o sigilo, então não devem ser feitas. Se há perigo ao bem-estar e à segurança do cliente ou de pessoa próxima a ele, ele deve ser orientado a dizer para as pessoas envolvidas o que ocorre e, em casos extremos (tentativa iminente de suicídio, por exemplo), ser avisado de que o psicoterapeuta fará contato com a família, visando à segurança dele.

Tudo começa por algum episódio comportamental relatado pelo cliente, pode, inclusive, partir da queixa da qual o psicoterapeuta pode pedir para o cliente apresentar exemplos (são episódios comportamentais) daquilo que está citando. O passo seguinte é decompô-lo e organizá-lo em paradigmas de contingências de reforçamento. Não é neste estágio do processo que se deve iniciar a intervenção psicoterapêutica, salvo exceções bem justificadas (tais intervenções, conforme já exposto, não são o processo psicoterapêutico, mas aplicação isolada e provisória de procedimentos de mudança comportamental). Avança-se, então, para a história de contingências de reforçamento do cliente. Tal história não se define como momento causal no processo de desenvolvimento da pessoa (um trauma, por exemplo, não é explicação suficiente, nem necessária de um padrão atual de comportamentos e sentimentos), mas como um processo contínuo dinâmico, tão remoto quanto haja interesse clínico em conhecê-lo – ou até onde a pesquisa clínica conseguir adentrar – e tão próximo quanto possa informar quais são as funções comportamentais presentes que tenham significado para o processo clínico. É na história de contingências que se encontra a origem das funções dos eventos-estímulo e dos eventos-resposta e suas sucessivas transformações como resultados dos ininterruptos contatos das pessoas com contingências de reforçamento que continuamente interagem com elas e constituem o que se denomina de Vida.

Ao psicoterapeuta cabe reconhecer quais contingências de reforçamento causam sofrimento e comportamentos–problema do seu cliente e, em conjunto com ele, proceder para alterar as funções que o prejudicam, em favor de outras funções que possibilitem uma vida pessoal melhor e interações mais saudáveis com as pessoas que são significativas para ele. Não se modificam ambientes e nem se alteram comportamentos sem conhecer suas respectivas funções e sem haver justificativas positivas e construtivas para o indivíduo e para seu ambiente socioafetivo para alterar-lhes as funções. Somente depois que o cliente desenvolveu o necessário autoconhecimento do porquê se comporta, como o faz e porque sente o que sente (em linguagem técnica as contingências que deram origem, mantêm ou alteram as funções do ambiente e de seus comportamentos) cabe ao psicoterapeuta apresentar procedimentos que produzam mudanças – isto se o próprio cliente não os encontrou por si mesmo – e o comprometimento do psicoterapeuta passa a ser tecnológico e não ideológico. 

A ideologia de Vida do cliente deve ser deixada para ser construída por ele próprio, com os acréscimos e eventuais alterações que resultem do processo psicoterapêutico. Como ele se vê como pessoa, como membro de uma família, como profissional, como cidadão, quais são suas crenças, quais são os fundamentos que guiam seus comportamentos, quais os limites de sua ética, qual seu papel nas interações com as pessoas em geral, quais são suas características positivas, quais são seus pontos fracos, o que o influencia e o faz aumentar sua variabilidade comportamental em prol do bem para si e para os que o cercam (religião), leitura, filmes, conversas...), o que o diverte e lhe faz bem, quais são seus exageros e vícios, quais suas fraquezas e temores, como cuida de seu corpo, quais são suas regras, autorregras, normas, códigos de conduta, quais são seus valores (aquilo que lhe é reforçador ou aversivo). Em suma, precisa construir honestamente o conhecimento de si mesmo. 

O próximo passo é identificar as “motivações” que levam o cliente a procurar ajuda psicoterapêutica. Nem todas as “motivações” visam a benefícios para o próprio cliente, nem todas as “motivações” respeitam o que melhor pode ser feito pelo outro. As “motivações” dos seres humanos são produtos de contingências de reforçamento. Conhecer as “motivações” é identificar as contingências de reforçamento que o estão influenciando. Todo e qualquer comportamento é funcional, uma vez que é função de contingências de reforçamento. No entanto, nem todo comportamento funcional é desejado por quem se comporta, nem todo comportamento funcional é desejado pela  comunidade à qual pertence quem se comporta. Cabe por isso uma análise das consequências positivas e perniciosas do comportamento funcional. Se for o caso mudem-se as contingências de reforçamento na direção de produzir comportamentos funcionais que favoreçam o bem-estar do indivíduo e contribuam para o bem-estar, a harmonia e, em última instância, a permanência e a sobrevivência da comunidade a que pertence. 

A psicoterapia foca no indivíduo, mas não é fenômeno individual. O cliente está inserido num contexto sociocultural e o que faz e o que sente atingem aqueles que o cercam. Qualquer mudança significativa nos comportamentos e sentimentos de Dinah repercutirá na mãe e em Valdo para destacar apenas duas das pessoas mais próximas dela. Valdo e a mãe também têm suas histórias de contingências e estão expostos às contingências de reforçamento atuais. Seus comportamentos e sentimentos são frutos desses determinantes e não lhes cabe méritos nem culpas se considerarmos o paradigma do ser humano proposto por Skinner: além da liberdade e da dignidade. O psicoterapeuta não deve ter como objetivo pessoas, mas contingências de reforçamento que as tornam pessoas melhores. 

Durante o processo psicoterapêutico o psicoterapeuta não deve dizer às pessoas o que elas devem fazer, mas guiá-las para descobrirem o que devem fazer. Skinner (1953, p. 382; 1967, p. 216) assim escreveu:  “A terapia consiste, não em levar o paciente a descobrir a solução para seu problema, mas em mudá-lo de tal modo que seja capaz de descobri-la”. 

O psicoterapeuta deve evitar consequências arbitrárias de aprovação. É preferível consequenciar verbalizações que não tenham fenótipo de aprovações contingentes ao conteúdo. Assim, para uma pessoa que se mantém reclusa dentro de casa, evite dizer: “Que bom que você saiu de casa! ” (Considere, antes de falar, que a saída por ter sido desastrosa...); “Você foi corajosa; quebrou sua timidez ao convidar uma amiga para irem jantar sozinhas! ” (Porém, depois de mandar a mensagem, mandou outra cancelando o encontro com a desculpa “Mamãe está com enjoo! ”); “Você está mais magra, com melhor aparência... está indo bem no seu regime! ” (Não foi bem assim: “Perdi peso porque meu corpo não aceitou o regime e fiquei três dias seguidos com diarreia e vômito. Tive que abandonar tudo! ”). 

Lembre-se que consequências naturais do comportamento são mais eficientes do que as arbitrárias (estas, de modo geral, dispensáveis; podem ser necessárias com indivíduos com desenvolvimento atípico, ou no início do processo psicoterapêutico); são mais confiáveis e genuínas. Peça para o cliente detalhar melhor os episódios sob análise (“Explique melhor”, “Diga o que falou, ou fez, ou pensou, ou sentiu”). Procure detectar as consequências dos comportamentos: foram naturais ou arbitrárias? Reforçadoras positivas ou aversivas? Previstas ou inesperadas? Acolhedoras para o outro ou críticas? etc. O que evocou as respostas dele? Etc. Assim, por exemplo, ir à loja sozinha está sob controle de antecedentes diferentes de ir à loja com uma amiga. Se, por exemplo, a dificuldade comportamental da cliente é interação social, convidar uma amiga ou aceitar um convite é mais apropriado do ponto de vista dos objetivos da psicoterapia do que ir sozinha; se a dificuldade, por outro lado, é ser excessivamente dependente de outras pessoas é melhor ir sozinha... Desta maneira, é mais aconselhável consequenciar os relatos feitos pelo cliente depois que tiver acesso ao episódio comportamental completo com palavras ou frases, tais como: “Continue”; “Estou entendendo”; Você está sendo claro”; “Dê mais detalhes”; “Não entendi qual foi exatamente a sequência do que ocorreu”; “O que mais você disse?” “O que mais você fez? ” “Como ele (o parceiro, o amigo, o filho...) reagiu? ” “Como você se sentiu? ” etc. São questões que têm função de SD para evocar mais esclarecimentos, mais detalhes ao mesmo tempo que podem ser consequências sociais reforçadoras que mantêm o cliente falando. Note que o psicoterapeuta está sempre em busca da organização dos termos da contingência de reforçamento (Funções evocadoras, eliciadoras e supressoras; Manifestações funcionais; Funções das consequências selecionadoras). Aos poucos o cliente passa a fazer narrativas incorporando o modelo descritivo dado repetidamente pelo psicoterapeuta.

Outra classe de verbalizações envolve definir procedimentos a partir de interações sociais e familiares. Assim: “Quando seu marido disse que na sexta-feira ia sair com os amigos e você lhe disse ‘tudo bem’ e que aproveitaria para visitar sua mãe, você provavelmente reforçou o relato que ele fez dos planos para a sexta-feira (você quis dar um apoio a ele e provavelmente ele entendeu seu ato e intenção). Por outro lado, poderia dizer: ‘Que bom! Vou aproveitar e sair com a Maria Rita. Faz tempo que não fazemos um happy sozinhas...’ (Você, da mesma forma, teve a intenção de apoiar o programa dele, mas não sei que função esse convite para a Maria Rita teve para ele! O que ele pensa sobre a companhia dela em uma sexta à noite, em um happy, em um barzinho onde ela está sempre ‘enturmada’?) Atenção: o papel do psicoterapeuta não é censurar a cliente nem julgar a Maria Rita, mas deixar claro que o objetivo não é “dar o troco” para o marido por estar saindo e isso precisa ficar claro para ele. A interação que importa é a que existe entre a cliente e seu marido, e não com os amigos dele e nem com a Maria Rita. O que importa é a clareza na comunicação. Os clientes precisam ter claras as consequências de seus comportamentos para o outro com quem interagem e tomar suas decisões com base nesse conhecimento! Outra situação poderia ser: Quando você disse para seu filho que, se empurrasse mais uma vez a irmã, você tiraria o celular até o jantar, você pretendia usar um procedimento de punição negativa. Poderia acrescentar mais informações sobre o procedimento: por exemplo, o que se espera é que o procedimento de empurrar diminua, mas pode acontecer o contrário (“Já que vou perder o celular por causa de minha irmã, vou bater nela...”, seria uma possibilidade). O psicoterapeuta poderia sugerir outras possibilidades. Assim, por exemplo: “A punição deve ser breve. Deixe claro que devolverá o celular tão logo acabe o programa de TV a que estão assistindo ou logo depois do jantar... E cumpra rigorosamente o combinado. “ Uma alternativa melhor: “Se não houver ‘confusão’ entre vocês, e sabe o que eu quero dizer, né, Junior? Sem empurrar nem provocar choro... poderão assistir a mais um programa de TV juntos no sofá...”; neste caso o procedimento seria de reforçamento positivo por emitir o comportamento desejado.  Veja que o importante é deixar claro para o cliente pontos positivos e negativos de determinadas ações, propor alternativas e acompanhar os resultados produzidos pelos procedimentos. Estes devem prever alternativas quando os resultados não forem os esperados. O ponto principal é que procedimento é instrumento de ação, deve ser tecnologicamente descrito e deve principalmente ser uma ação guiada por um conceito comportamental. “Vamos pensar em reforços nos comportamentos desejados incompatíveis com o indesejado”. Veja que, se o cliente conhecer os termos técnicos e os princípios comportamentais em jogo, será capaz de dialogar com o psicoterapeuta até chegarem a soluções realistas para as características de cada família, e o cliente terá condições de introduzir mudanças tecnicamente cabíveis e, com mais experiência, planejar e implementar sozinho procedimentos eficazes.

A seguinte citação de Skinner (1974, p. 171; 1993, p. 148) dá uma clara dimensão do outro como agente do autoconhecimento: 

“É importante, contudo, examinar razões de nosso comportamento tão cuidadosamente quanto possível, porque elas são essenciais, como eu disse, ao controle de nós mesmos. Não nos devemos surpreender com o fato de que quanto mais soubermos sobre comportamento alheio, melhor nos compreenderemos a nós mesmos (negrito adicionado). Foi um interesse prático pelo comportamento do ‘outro’ que levou a este novo tipo de autoconhecimento. A análise experimental do comportamento, junto com um vocabulário autodescritivo especial, dela derivado, tornou possível à pessoa aplicar a si mesma muito daquilo que foi aprendido acerca do comportamento alheio.” 

Decorre deste último parágrafo, que tal aprendizagem inclui ainda observar os comportamentos do outro com quem a pessoa interage e convive, e quais antecedentes vindos do outro evocam seus próprios comportamentos, e quais consequências vindas do outro os selecionam; dando, desta maneira, especial ênfase às funções de antecedentes e de consequências que seus próprios comportamentos têm para os comportamentos das pessoas significativas do seu cotidiano.

As interações entre psicoterapeuta e cliente durante as sessões têm como principal objetivo levar o cliente a ser capaz, sem ajuda do psicoterapeuta, de descrever com precisão qualquer episódio comportamental, sistematizá-lo na forma de tríplice contingência e atribuir funções aos eventos que compõem o episódio. O principal interesse clínico não é falar sobre o que ocorreu no dia a dia, mas fazê-lo de forma a transformar o que ocorreu em episódio comportamental descrito como tríplice contingência. O cliente deve chegar a ser um analista do comportamento de si mesmo. Para chegar a esse padrão de desempenho o psicoterapeuta usa modelos, orais e textuais, instrução oral, reforçamento diferencial de aproximações sucessivas ao comportamento desejado, fading in e out de ajuda, além de programar generalização do que foi aprendido pela cliente no consultório para seu mundo cotidiano fora dele. 

Todas essas intervenções psicoterapêuticas, visam, enfim, basicamente, a apresentar modelos alternativos de comportamentos que poderiam ser emitidos em situações descritas e levar o cliente a prever possíveis consequências (possivelmente aversivas), bem como a prever como se sentiria se chegasse a emitir os comportamentos apresentados nas sessões como modelos. Não se trata de adivinhação do futuro, mas de um exercício de generalização a partir de história de contingências do cliente em situações semelhantes ou equivalentes. É um engano imaginar que aquele que se comporta é quem melhor se conhece. Por isso é essencial o psicoterapeuta insistir na identificação e descrição das contingências responsáveis pelos comportamentos e sentimentos do cliente. Skinner (1974, pp. 170-171; 1993, p. 148) dá o seguinte alerta:

“A passagem de indícios introspectivos para indícios ambientais não garante que o autoconhecimento será preciso, entretanto. Nem sempre observamos as contingências às quais estamos expostos. [...]. Não estamos sempre atentos ao que ocorre enquanto agimos e, quando nos perguntam como nos comportamos em determinadas circunstâncias, frequentemente fazemos conjecturas erradas, ainda que tenhamos enfrentado circunstâncias semelhantes no passado. Então, como de costume, tendemos a explicar o inexplicável atribuindo-o à herança genética – afirmando ‘Eu nasci assim’ ou ‘Esse é o tipo de pessoa que sou’. ”

Finalmente, após uma análise molar, o psicoterapeuta pode orientar o cliente em cada um dos passos necessários para compor e implementar contingências de reforçamento, especificar procedimentos tecnologicamente descritos, relacionar as ações do cliente com o referencial da Análise do Comportamento, o que permite que ambos sejam capazes de prever consequências positivas e adversas, benefícios e ônus que mais provavelmente advirão, tudo decidido de comum acordo entre ambos, visando a alcançar objetivos consensualmente delineados. 

A análise molar inclui ensinar ao cliente os princípios que regem os comportamentos humanos. Tal aprendizagem inclui auto-observação, identificar os antecedentes que evocam e eliciam comportamentos e as consequências produzidas por eles que os selecionam. A seguinte asserção de Skinner (1974 pp. 170-1; 1993, pp. 147-48) apresenta algumas informações relevantes associadas às orientações propostas acima: 

“A comunidade verbal pergunta ‘Como você se sente? ’ [embora o nome que se atribua aos sentimentos seja arbitrário e sofra variação em diferentes comunidades verbais] em vez de ‘Por que você se sente assim? ’ [essa maneira de perguntar levaria o ouvinte a buscar os determinantes do que está sentindo, o que aproximaria o cliente do que está sentindo contingências de reforçamento?] porque terá então maior probabilidade de obter uma resposta. [Descrever um estado corporal sentido ou nomeá-lo é mais fácil do que descrever as condições externas que o produziram. ] Até há bem pouco tempo a comunidade verbal não induzia as pessoas a examinarem as condições externas nas quais viviam. Conforme a importância da história ambiental se tornou mais clara, questões práticas começaram a ser propostas, não sobre sentimentos e estados mentais, mas acerca do meio ambiente, e as respostas vêm se revelando cada vez mais úteis." 

Em suma, uma das funções do psicoterapeuta é levar o cliente a adquirir, manter e se comportar como analista do comportamento de si mesmo no mundo em que vive. Isso significa mudar os comportamentos do cliente para que ele se capacite a ser sujeito ou agente ativo de sua vida pessoal e social. Ao alcançar este objetivo o psicoterapeuta reduz significativamente seu papel de fonte de soluções para os problemas do cliente, uma vez que este se torna ele próprio capaz de encontrar as melhores soluções para as dificuldades de sua vida. Esse é um dos processos comportamentais usados pelo psicoterapeuta, conforme citado, para o cliente mudar comportamentos de interesse clínico por si mesmo (Skinner, 1953, p. 382; 1967, p. 216).

Há necessidade de um passo além. Equívoco comum cometido por psicoterapeutas e clientes é simplificar a condução do processo psicoterapêutico, como se bastasse que estes encontrassem as soluções para as queixas e dificuldades que apresentam. O cliente busca em primeiro lugar, se aliviar de suas dores, se livrar dos seus conflitos e, em geral, negligencia que ele é parte de um todo social, e suas mudanças comportamentais têm, necessariamente, que incluir, em um grau de relevância funcional, os comportamentos aqueles com quem convive: ganhos podem gerar perdas; perdas podem gerar ganhos e cabe a ambos, psicoterapeuta e cliente, equacionar as funções das mudanças comportamentais buscadas! Há necessidade de incluir, e usar nas mudanças, repertório comportamental para alterar de maneira construtiva inclui mudar em certo grau os comportamentos daqueles que o cercam. para influenciar de maneira construtiva as pessoas significativas da sua vida. Segundo Skinner (1953, p. 380; 1967, p. 214): 

“Algumas vezes o terapeuta deve construir um novo repertório que seja eficiente no mundo em que o paciente se encontra. Talvez um comportamento conveniente já integrante do repertório do paciente precise ter sua probabilidade de emissão aumentada, ou respostas adicionais talvez precisem ser acrescentadas. Como o terapeuta não pode antever todas as circunstâncias com as quais o paciente vai se defrontar, deve também estabelecer um repertório de autocontrole através do qual o paciente seja capaz de se ajustar às circunstâncias à medida que surjam. ” 

Cabe destacar mais uma vez, que o psicoterapeuta precisa transmitir para o cliente duas coisas: tecnologia e conceitos comportamentais. Assim, a tecnologia envolve descrições precisas de procedimentos a serem implementados. A descrição deles deve ser tão precisa que basta para levar a uma aplicação adequada: habilita o cliente a replicar com precisão os procedimentos comportamentais mais apropriados para seu contexto de vida, bem como o alerta sobre os benefícios e os riscos que tais procedimentos envolvem para si e para o outro. Se necessário, o psicoterapeuta pode ensaiar ao vivo com o cliente (atividade de ensaio comportamental) o uso dos procedimentos em situações simuladas, análogas às que encontrará no seu dia a dia. Cabe lembrar mais uma vez que os procedimentos básicos foram rigorosamente testados experimentalmente e validados empiricamente. Mesmo as necessárias adaptações para o contexto de vida de cada cliente derivam de evidências experimentais empíricas. A Análise do Comportamento neste particular adota a atitude científica do pragmatismo: prática bem-sucedida. 

Outro ponto a ser transmitido ao cliente é a íntima ligação que existe entre os procedimentos comportamentais e os conceitos da Análise do Comportamento dos quais eles derivam. Desta maneira, dentro do possível, o cliente deve se desenvolver na direção de se tornar um cientista do Comportamento, desejar saber algo da Ciência do Comportamento e conhecer a concepção de Ser Humano do Behaviorismo Radical. Em suma, dominar conceitos e princípios comportamentais, assim como pressupostos filosóficos permite à pessoa generalizar procedimentos e adaptá-los a novas realidades. Este tema será retomado mais adiante.

O psicoterapeuta dá instruções, apresenta regras e modelos – sempre na forma de descrição de contingências de reforçamento – para instalar comportamentos que modificam os comportamentos do próprio cliente e daquelas pessoas que são funcionalmente relevantes na sua vida. A manutenção de tais comportamentos recém-adquiridos pelo cliente pode ser mantida por reforço arbitrário apresentado pelo psicoterapeuta, mas devem ser programados de maneira a serem progressivamente removidas, deixando que as consequências naturais assumam o controle. As mudanças do cliente começam em um ambiente razoavelmente programado, mas esse é apenas o início para melhor ele se adequar às seleções que ocorrem no seu viver cotidiano. O que o psicoterapeuta pode fazer com o cliente é limitado pelo contexto psicoterapêutico. Apenas uma pequena parte do seu comportamento, uma pequena amostra de seu contexto de vida, podem ser identificadas e manejadas no ambiente clínico. Assim sendo, ao psicoterapeuta cabe programar a generalização das análises e intervenções para mudanças de comportamentos de interesse para diferentes pessoas, diferentes contextos e com persistência na sua vida cotidiana (Baer, Wolf e Risley, 1968). Tais generalizações são possíveis quando o psicoterapeuta prontamente transforma uma instrução, regra ou modelo para ação eficiente e funcional em conceitos comportamentais. Assim, por exemplo, “Toda vez que seu marido chegar do trabalho irritado, sugira para ele que vá tomar um banho relaxante e que depois ele tome tranquilo seu aperitivo preferido,” deve ser substituída por “Toda vez que seu marido chegar do trabalho de uma maneira aversiva para você (note que há muitas maneiras de o marido se comportar que podem ter função aversiva para a esposa), procure evocar nele comportamentos incompatíveis com os aversivos (para você) e que, ao mesmo tempo, produzam reforços positivos para ele.” Note que o psicoterapeuta deve ser capaz de dar orientações na forma de conceitos e operacionalizar os conceitos na forma de exemplos específicos. Os conceitos são abrangentes e servem para diversos comportamentos (quer os aversivos, quer os reforçadores), têm abrangência e pertinência para diferentes casos e estimulam o cliente a variar e adaptar procedimentos específicos e apropriados para sua vida cotidiana real. Ou seja, evocam variabilidade comportamental com maior probabilidade de ser funcional no seu contexto de vida, o que o psicoterapeuta terá muita dificuldade de propor se assumir que lhe cabe dizer ao cliente o que deve especificamente fazer. Uma possível frase que resume a função do psicoterapeuta poderia ser: cabe a ele ensinar princípios, dos quais o cliente deriva ações específicas. Há limites, porém. Assim, Skinner (1974, p. 242;1993, p.205) escreveu:
“A psicoterapia tem se preocupado naturalmente com o indivíduo. Seu cabedal é a história do caso, com sua infinita fascinação, e o conhecimento intensivo de outra pessoa, adquirido em sessões de terapia, está sem dúvida além do alcance de uma ciência que dá ênfase às generalidades. Assim como se pode conhecer o mundo de uma maneira diferente daquela que é conhecido pela ciência física e biológica, também se pode conhecer pessoas num sentido muito diferente daquele de conhecê-las pela ciência do comportamento. Seria tolice questionar o interesse que uma pessoa tem por outras — nos mexericos, nas autobiografias, nos romances, nos dramas, nos noticiários de jornal e assim por diante. Os indivíduos são partes importantes do meio e embora uma ciência do comportamento permita a uma pessoa interpretar de forma mais eficiente aquilo que vê, tal ciência nunca lhe relataria toda a história do caso individual.”

A análise do comportamento se caracteriza como uma maneira de pesquisar experimentalmente o comportamento humano; como uma maneira de selecionar e sistematizar os dados experimentais; como uma prática de intervenção, visando a mudanças nos comportamentos humanos de interesse; e, finalmente, como uma visão e definição de Ser Humano apresentada pelo Behaviorismo Radical, compatível e restrita à adoção de todas as práticas experimentais, conceituais e de aplicação delimitada pela Análise do Comportamento. Como decorrência de todos esses pressupostos, deve ser entendido que a Análise do Comportamento é uma dentre várias maneiras de estudar, compreender e influenciar o Ser Humano; não é uma proposta definitiva, não é completa e não está terminada. Assim sendo, o psicoterapeuta comportamental deve ter a humildade de reconhecer que sua compreensão e atuação com o Ser Humano têm limites: não sabe tudo, nem pode tudo! Não se conclua, porém, que o preenchimento das lacunas de conhecimento e do poder de intervenção deve ser realizado com a adoção de modelos ecléticos que tentam fazer um amálgama – nunca harmonioso; sempre envolto em conflitos de conceitos e de ações – das diversas maneiras de estudar o Ser Humano. A Análise do Comportamento deve se envolver com uma contínua e sistemática autocrítica proposta por seus estudiosos e praticantes, visando à contínua avaliação de seus produtos conceituais, experimentais e de aplicação. Há muito ainda por avançar; não é o momento de declarar o esgotamento de seu desenvolvimento e de suas contribuições.

Cada cliente é um novo desafio que exige soluções para os problemas trazidos por ele. De acordo com Skinner (1953, p. 247; 1967, p. 144): 

“Simplesmente emitir uma solução, contudo, não é resolver um problema. Preocupamo-nos aqui com o processo de ‘achar a solução’. A solução de problemas pode ser definida como qualquer comportamento que, através da manipulação de variáveis, torne mais provável o aparecimento de uma solução.” 

Veja a citação de Skinner (1953, p. 381-82; 1967, pp. 215-216) que complementa essa afirmação:

[...] “Quando um terapeuta se encontra com o cliente pela primeira vez, este se apresenta com um ‘problema’. O paciente geralmente mostra um padrão novo de comportamento desvantajoso ou perigoso, junto com uma nova história em termos da qual aquele comportamento deve ser entendido. O curso particular da terapia necessária para alterar ou suplementar essa história pode não ser imediatamente claro. Entretanto, o terapeuta finalmente pode ‘Ver o que está errado’ e ser capaz de sugerir um curso de ação corretiva; essa é a sua solução do problema. Hoje a experiência terapêutica tem mostrado que, quando essa solução é proposta a um indivíduo, pode não ser eficiente, mesmo que, até onde saibamos, seja correta. Mas se o paciente chega sozinho à solução é muito mais provável que adote um curso de ação eficiente. A técnica do terapeuta leva esse fato em consideração. [...] o terapeuta espera pela emergência de uma solução vinda do paciente. Mas aqui novamente podemos facilmente interpretar mal a relação causal. ‘Achar uma solução’ não é terapia, não importando quem faz a descoberta. Contar ao paciente que ele está errado pode não trazer nenhuma mudança substancial nas variáveis independentes relevantes, e por isso representar pouco progresso em relação à cura. Quando o próprio paciente vê o que está errado, não é o fato de que a solução partiu de dentro dele que é importante, mas o que importa é que para descobrir sua própria solução seu comportamento com relação ao seu problema deve ter se alterado enormemente. Dependendo da natureza do comportamento desvantajoso ou perigoso, é preciso que o cliente atinja mudanças significativas, se cabe a ele identificar as variáveis relevantes. Uma solução que parte do sujeito representa assim um considerável grau de progresso. Nenhum progresso semelhante está implícito quando o terapeuta apresenta a solução. A terapia não consiste em levar o cliente a descobrir a solução para seu problema, mas em mudá-lo de tal maneira que ele seja capaz de descobri-la” [por si mesmo] 

 

 
A citação de Skinner acima evoca alguns comentários. O cliente modificado pode ser capaz de encontrar ele próprio a melhor solução para os problemas atuais que têm enfrentado, mas que processos o levariam a mudar? Acredito que a psicoterapia é o mais eficiente dos processos e sem ela dificilmente os comportamentos do cliente seriam consistentemente selecionados pelas consequências provenientes de sua rotina cotidiana, até chegar a mudá-lo para encontrar uma boa solução para sua vida. O caminho de mudanças comportamentais do cliente numa direção desejada deve ser preparado na interação psicoterapeuta-cliente; não pode ser aleatório, mas guiado sistematicamente por reforçamento diferencial. O cliente durante o processo psicoterapêutico deve aprender as leis que regem comportamentos, sistematizar as dificuldades comportamentais que experiencia em contingências de reforçamento, desenvolver um elaborado repertório de autoconhecimento e autocontrole, compreender que as leis que regem seus comportamentos e os das pessoas significativas com as quais convive são exatamente as mesmas. O cliente estará, provavelmente, em vantagem em relação ao psicoterapeuta no acesso privilegiado que tem aos dados de sua vida cotidiana, uma vez que à distância o psicoterapeuta tem restrições de observação. Nesta condição, se o cliente adquiriu repertório conceitual e de intervenção dentro do modelo da Análise do Comportamento estará habilitado a delinear procedimentos mais harmoniosos com seu contexto de vida e se antecipar a sugestões do psicoterapeuta. Mas tal aprendizagem requer um processo de instalação de padrões comportamentais muito elaborado e consistente. Por tal razão, o cliente deve ser alertado de que as soluções a que chega devem ser discutidas com o psicoterapeuta, a fim de que sejam adequadamente ajustadas. Assim, o cliente não tem o mesmo domínio de refinamento dos procedimentos a serem implementados, de maneira que seja capaz de refiná-los a ponto de harmonizar suas ações com as sutilezas do ambiente social onde e com quem serão aplicados; sua capacidade de previsão dos resultados  também precisa ser avaliada, pois o cliente tem que se manter atento ao fato de que palavras e gestos têm funções próprias para cada pessoa (um elogio, que se pretende que tenha função reforçadora, pode ser entendido como uma ironia, aversiva portanto; uma sugestão ou conselho pode ter a função de crítica etc.); a situação em que ocorre a introdução dos procedimentos pode sofrer alterações inesperadas, o que exige adaptações momentâneas naquilo que foi programado (propor algumas limitações de contatos sociais com um adolescente com problemas de desempenho escolar pode não ser apropriado quando acabou de perder a namorada...); manter o autocontrole na análise e na intervenção quando o outro emite comportamentos agressivos e ofensivos pode ser muito difícil e a pessoa pode ter dificuldades para apresentar a necessária variabilidade comportamental. Em suma, todos esses pontos fazem parte do melhor preparo do cliente para assumir o controle das mudanças. Como consequência, a implementação da solução deve ser minuciosamente discutida com o psicoterapeuta, que lhe dará polimentos e a monitorará com suficiente atenção para evitar desvios indesejados. 

Pode-se concordar com a frase de Skinner que para o paciente descobrir sua própria solução, seu comportamento com relação ao problema deve ser alterado enormemente, mas deve ficar claro que o cliente não chegará a tal grau de mudança por si mesmo: modificar seus comportamentos para descobrir sua própria solução e para implementá-las de forma bem-sucedida é resultado do trabalho do psicoterapeuta na interação com o cliente.

Hélio

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