A TCR trabalha com o conceito de unidade comportamental funcional (UCF), que é definida como o conjunto de todas as contingências de reforçamento atuais e históricas das pessoas envolvidas nos episódios comportamentais de interesse, que tenham relevância funcional para analisar e intervir com sucesso nos problemas comportamentais em estudo. O manejo de tal unidade envolve identificar as interações de tantas contingências de reforçamento quantas forem necessárias, até se chegar a uma compreensão funcional do episódio comportamental de interesse, que seja conceitualmente satisfatória, isto é, que permita a compreensão do que está ocorrendo no presente, levando em conta simultaneamente a história de contingências que deu origem às funções do ambiente e das ações das pessoas envolvidas no que estamos denominando de unidade comportamental funcional. A UCF deve envolver análises e intervenções que levem em conta as necessidades de todas as pessoas relevantes que participam dessa unidade.
Segue-se um outro exemplo de unidade comportamental funcional. Severo é um pai exigente com os comportamentos do filho Otávio, de 10 anos, excelente aluno, bem quisto na Escola por ser uma criança que se relaciona bem com os professores, com as orientadoras etc. No entanto, a professora alertou os pais de que é um tanto isolado e pouco envolvido com atividades de lazer e, em certa medida, distante dos outros alunos da classe nos horários de recreio. Quando Severo recebeu o boletim de notas do primeiro bimestre, expressou para o filho sua satisfação com todas as excelentes notas do garoto e contou com orgulho para os avós, tios e eventuais amigos como se sentia bem com o sucesso de Otávio. Uma análise molecular levaria à conclusão de que os produtos dos comportamentos de estudar de Otávio e de entregar os trabalhos de casa exigidos pela escola, foram muito valorizados e elogiados arbitrariamente pelo pai, professores, parentes etc. Otávio estaria sendo reforçado positivamente por seus esforços acadêmicos e disso resultariam sentimentos de autoconfiança na área acadêmica, autoestima (“Meu pai se sente feliz comigo, me ama, me valoriza” etc.), de bem-estar com o sucesso e fortaleceria comportamentos de estudar.
A unidade comportamental funcional (UCF) não se encerra aqui, porém! O foco nos comportamentos de estudar de Otávio (desdenhando os déficits dele nas áreas sociais, de lazer, esportiva etc.) atende a desejos, crenças e prioridades do pai, dos professores e demais pessoas do convívio do Otávio que compartilham esses valores (“estudar é a prioridade na vida e o caminho para o sucesso financeiro e a felicidade... “) e que reforçam os comportamentos de “bom aluno” dele de forma arbitrária e alheia aos desejos, necessidades e sentimentos de Otávio. Como consequência dessa classe de interação das pessoas mencionadas com Otávio pode resultar o fortalecimento exagerado de classes de comportamentos de estudar: ele se distancia ainda mais de atividades de lazer, se recusa a participar das atividades não acadêmicas com os colegas de classe, estende os horários de estudo para altas horas na noite, se mantém ligado aos livros e cadernos nos fins de semana, sente-se continuamente preocupado com as notas (consequências arbitrárias), não em conhecer mais e mais os conteúdos acadêmicos (consequências naturais), antecipa com medo quais serão as reações negativas do pai se as notas piorarem, como os professores reagirão a perdas de qualidade nas avaliações, se manterá em constante estado de ansiedade, começa a apresentar “tiques nervosos” e a tensão vai crescendo até a entrega do boletim do segundo semestre. Se os resultados forem bons, Otávio sentirá alívio (sentimento produzido por comportamentos de fuga-esquiva de condições ameaçadoras, tal como nota baixa) e não satisfação (sentimento associado a reforçamento positivo) e o ciclo se repetirá. Podemos, agora, concluir que a unidade comportamental funcional se estende minimamente até as reações do pai diante da segunda avaliação e que Otávio estuda sob contingências de reforçamento aversivas (ou seja, estudar é comportamento de fuga-esquiva) e que estudar compete com o saudável desenvolvimento de outras áreas de convivência cotidiana com amigos, com atividades de lazer etc. É provável que venha a ter — se nada for feito — comportamentos de isolamento social e afetivo, compulsão por estudar e outros comportamentos de agradar aos outros, viva sob controle de regras e autorregras que causam sentimentos aversivos e que generalize tais padrões de comportamentos e sentimentos para a idade adulta. Não será surpreendente que venha a ter ataques de pânico, fobias, fracasso na área afetiva, isolamento social, problemas orgânicos resultantes de viver sob contingências coercitivas. A missão do psicoterapeuta é identificar a unidade comportamental funcional e atuar a partir dela. Neste caso, orientar o pai para aplicar contingências de reforçamento amenas aos comportamentos de estudar, incluir contingências contingentes ao desenvolvimento de comportamentos de outras áreas comportamentais: social, esportiva, de lazer, de afeto etc. No entanto, para o pai aceitar e praticar as orientações do psicoterapeuta, devem ser identificadas as contingências de reforçamento que o levaram a lidar com o filho da maneira como vem fazendo. Pode ser que a orientação comportamental baste; no entanto, Severo pode não compreender a necessidade de mudar apontada pelo psicoterapeuta, pode até mesmo se opor às análises dele. Neste caso o processo psicoterapêutico pode ser interrompido ou pode ser necessário encaminhar o pai para psicoterapia individual.
A investigação psicoterapêutica deve ir até a infância? Quais contextos da vida da pessoa (escola, família, lazer, esporte, amizades, trabalho etc.) devem ser incluídos? As consequências futuras devem ser consideradas? Por outro lado, que classes de comportamento importam ser identificadas e analisadas? Há uma resposta para essas questões: Análise do Comportamento tem por objetivo fazer análise funcional de interações entre ambientes e organismos. Não se preocupa em fazer inventário exaustivo dos contextos da vida de uma pessoa; não se preocupa em fazer um inventário das classes de respostas que uma pessoa emitiu ou emite. Importa interações que tiveram influências coercitivas, isto é, aversivas e quais comportamentos foram selecionados por eles; importa interações que tiveram influências reforçadoras positivas e quais comportamentos foram selecionados por elas. Análise Funcional das interações entre organismo e ambiente (contingências de reforçamento) define o que é contexto e o que é ato que importam.
Uma análise deve avançar até o ponto que baste para alcançar ação “bem-sucedida”. Ação bem-sucedida confirma o valor da análise — ela muda a unidade de análise de comportamento indeterminada em unidades determinadas de um dado exemplo de análise de contingência, o que viabiliza sua avaliação em um ambiente físico e social real como bem-sucedida ou não. Para Skinner (1997, p.48):
“Em primeiro lugar devemos sempre olhar para as consequências. Mas, se distinguirmos entre consequências imediatas e últimas – entre aquilo que funciona a curto prazo e o que funciona a longo prazo – podemos preservar nossa ênfase pragmática sobre as consequências, ao mesmo tempo que evitamos suas aparentemente desastrosas implicações. O mais importante para qualquer sistema são suas consequências últimas. As práticas de qualquer sistema têm como consequências últimas a promoção do fortalecimento ou sobrevivência daquele sistema? Deve-se sempre olhar para as consequências, e a consequência última tem a ver com a sobrevivência do modo de vida. [...] eu não devo agir porque as pessoas me comovem (“I feel sorry for people”); devo agir por causa do que sua condição miserável de vida está fazendo com todo mundo. Levo em consideração todos e não apenas uma pessoa ou grupo em particular”.
Na análise do comportamento o nome para trabalho bem-sucedido é “previsão e controle”. Sabemos que um dado evento deve ser chamado de estímulo discriminativo e outro de Sr+, por exemplo, porque os efeitos de assim nomeá-los que nos permitem melhor lidar com o comportamento de interesse. Enquanto a precisão, sozinha, provê alguma confirmação do valor de uma análise, apenas o controle (manipulação experimental ou minimamente introdução e remoção sistemáticas das consequências e do antecedente (Sidman, 1989, p.80; 2011, p.104) “prova” que as unidades que selecionamos (as divisões que fizemos no contexto e no comportamento) são válidas. [...]. Sem manipulação, as unidades que selecionamos podem ser completamente equivocadas.
No caso de Otávio, supor que o seu comportamento de estudar produz reforço positivo é um equívoco. Seu comportamento de estudar é de fuga-esquiva de possíveis e prováveis consequências aversivas provindas do pai na forma de mostrar desagrado com desempenho escolar menos brilhante. Os sentimentos de Otávio são predominantemente de ansiedade (antes da prova) e de alívio (quando a nota é positiva). Seu repertório comportamental de estudar “muito”, arbitrariamente fortalecido pelas agências de controle, compete com o desenvolvimento de outros repertórios fundamentais no desenvolvimento harmonioso de um jovem: participar ativamente e com satisfação de atividades esportivas, de lazer, de interesse social, de amizades etc. Assim, os comportamentos do pai de Otávio não tem função de SD, mas de estímulos pré-aversivos (Sac1); os comportamentos de Otávio não são de produção de reforços positivos, mas de fuga-esquiva de consequências aversivas; seus sentimentos são de ansiedade e de alívio, não são sentimentos de liberdade, satisfação, bem estar; seus comportamentos de sofrimento, tais como tiques, crises de pânico, fóbicas, sintomas orgânicos independentes de causas fisiológicas ou patológicas etc. são efeitos de contingências aversivas. Um trabalho bem-sucedido, neste caso, incluiria identificar que a suposta análise de que estaria sendo empregada contingência de reforçamento positivo pelas agências controladoras (“fenótipos” de eventos não são necessariamente “funções” de eventos) deveria ser substituída pela análise de que o pai e as professoras estavam usando contingência de coerção (reforçamento negativo contingente ao produto de estudar, qual seja as notas altas, camuflada pelo fenótipo de elogios, que disfarçavam a real consequência funcional para Otávio: sentir-se criticado, sentir-se responsável pela decepção do pai, sentir-se culpado etc.). As implicações práticas da correção das análises das contingências seriam levar o pai a mudar as práticas de “pseudo reforçamento” por desempenho acadêmico de Otávio, valorizando estudar para aprender, ter ativa participação nas atividades escolares, esportivas, sociais, de recreação, interações gratificantes com os colegas e, por outro lado, incentivar e participar de atividades de lazer com Otávio fora do contexto acadêmico e escolar: viajar, assistir a competições esportivas na TV ou presencialmente, sair com amigos etc. É possível e necessário harmonizar atividades ditas de responsabilidade (por exemplo, estudar) com atividades de lazer, nas quais os comportamentos desejados e indesejados são selecionados por contingências amenas.
A Análise do Comportamento dispõe de um vasto arsenal de conceitos e de procedimentos para mudanças comportamentais, que permitem ao psicoterapeuta fazer previsões do que poderá resultar de uma conceituação correta dos problemas comportamentais se determinadas práticas clínicas foram adotadas. No entanto, prever não garante que o fenômeno esperado irá ocorrer de acordo com a previsão. É preciso manipular as variáveis que supostamente estão controlando os comportamentos de interesse, de maneira ordenada, sistemática, estabelecendo rigoroso controle delas, a fim de demonstrar seus efeitos funcionais (selecionadores). Os principais modelos de controle de variáveis experimentais são reversão (ABAB) e linha de base múltipla, entre outras. Essas manipulações demonstram controle. Há necessidade de introduzir variáveis de controle sobre os comportamentos e testar seus efeitos, retirá-las e comparar os resultados, reintroduzi-las, ou alterá-las, ou substitui-las por outras até se alcançar os resultados desejados.
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