09 setembro 2026

Reforçamento Natural e Arbitrário

A distinção entre as duas classes de reforçamento – arbitrário e natural – é de suma importância no processo psicoterapêutico. Tal distinção se aplica quer quando se trata de reforçamento positivo, como aversivo. Assim, por exemplo, cortar limão, espremê-lo e manter as mãos no sol, sem tê-las lavado adequadamente pode produzir “queimaduras” dolorosas: consequência aversiva natural! Abrir uma gaveta pouco usada e encontrar lá aquela faca preferida que há tempos não sabia onde estava é um exemplo de consequência reforçadora positiva natural. Subir em um banquinho para alcançar o balde na oficina, se desequilibrar e cair é outro exemplo de consequência aversiva natural, enquanto pegar o balde com sucesso e lá dentro encontrar o alicate que havia sumido da caixa de ferramentas é uma consequência reforçadora positiva natural. Em suma, o reforçamento natural ocorre quando a pessoa emite respostas (comportamentos) que produzem consequências que têm funções reforçadoras positivas ou negativas para ela própria. Deve-se incluir nesta categoria comportamentos verbais – que exigem a mediação de outra pessoa pertencente à mesma comunidade socioverbal –, que produzem reforços sociais (positivos ou negativos). Assim: “Onde fica a Igreja do Bom Pastor? ” pode produzir indicações do acesso ao local desejado: “Siga por três quadras em frente e então vire à direita...” Por outro lado: “Pode me emprestar 50 reais? ” pode resultar em uma ironia (em geral, uma frase aversiva): “Não! Não quero perder meus 50 reais e o amigo! ”

O reforçamento arbitrário, por sua vez, é mediado por uma pessoa, em geral na posição de controle em uma interação. O reforço é definido por esse agente: “Se você acertar todas as questões, terá a nota 10” (supõe-se, portanto, que nota 10 é reforço positivo). Ou então: “É a segunda vez que vejo você olhando para as respostas da prova do seu colega. Entregue a prova e ficará com nota zero” (supõe-se que a nota zero é uma consequência aversiva para o aluno). O agente do controle, por sua vez, define o que é comportamento desejado ou indesejado. Assim, permanecer quieto em sala de aula, olhando para o professor e acenando de quando em vez com a cabeça em sinal de “entendo”, “concordo”, é desejado pelo mestre. Conversar com o colega do lado é considerado comportamento indesejado. Fazer uma “piadinha” em sala de aula pode produzir repreensão do professor: interromper a aula com gracejos é indesejado. Porém, se o professor não conseguir se conter e rir da piada, então é um reforço social natural para o aluno. Finalmente, o reforço arbitrário tende a selecionar comportamentos que privilegiam o controlador e não o outro: aluno quieto em sala (que assim ganha boa nota por se comportar de forma disciplinada) favorece o professor. Obediência às normas da casa favorece os pais. Há comportamentos que a curto prazo são aversivos para a pessoa, tais como estudar, fazer a lição, manter a casa em ordem, dirigir de acordo com asa leis do trânsito etc.; no entanto, são comportamentos que a médio - longo prazo beneficiarão o aprendiz. Neste caso, a comunidade socioverbal utiliza reforçamento arbitrário, tendo como objetivo instalar comportamentos até que se tornem suficientemente fortes para se manterem por reforçamento natural.

O psicoterapeuta comportamental tem sido associado com o uso fácil de reforçamento social arbitrário. Infelizmente, tal visão não pode ser facilmente contestada. Cabe, então, um alerta. O psicoterapeuta comportamental deve priorizar em sua atuação levar o cliente a produzir consequências naturais pelos seus comportamentos. Ao ouvir um relato da cliente, tal como: “Fiz aquilo que nós combinamos na última sessão. Estou tão animada porque parece que funcionou”, o psicoterapeuta não deve dar seguimento ao diálogo com um “Que bom”; “Muito bem” etc. Tais verbalizações têm a pretensão de funcionarem como reforços positivos... O que o psicoterapeuta estaria de fato reforçando, se seus comentários de fato têm função reforçadora positiva, seria o relato da cliente a respeito de um consenso estabelecido entre eles. Trata-se de um tacto verbal puro (sob controle do antecedente, ou seja, o que de fato ocorreu no cotidiano do cliente) ou um tacto verbal impuro (selecionado pela consequência social esperada advinda do psicoterapeuta)? Aplica-se aqui a questão posta quando alguém segue uma regra: a consequência que reforça e mantém o comportamento de seguir a regra é aquela provinda da pessoa que enuncia a regra (é um exemplo de aquiescência) ou é a consequência prevista produzida pela emissão do comportamento sugerido pela regra (é um exemplo de rastreamento). No caso da psicoterapia também pode pairar essa dúvida. O psicoterapeuta deve sempre verificar quais foram as consequências naturais, produzidas pela emissão de comportamentos no contexto da vida do cliente fora da sessão, na interação com as pessoas de seu ambiente familiar, profissional, social, afetivo. 

Lembre-se que o controle coercitivo não tem fenótipo necessariamente aversivo; ele pode ser exercido através de comportamentos com fenótipo agradável, positivo. O reforço positivo também produz escravos, mais provavelmente escravos alienados de sua submissão. Ou seja, não é o fenótipo do controle que importa, mas a função que ele tem. A conclusão sobre a natureza do controle – se aversivo ou positivo – deve ser alcançada conjuntamente pelo cliente e pelo psicoterapeuta, apesar de não importar que este já tenha detectado a natureza do controle. O cliente também precisa chegar a identificá-lo em um ritmo compatível com seu repertório de comportamentos para enfrentá-lo.

Skinner (1953, p. 380; 1967, pp. 214-5) fez as seguintes considerações teóricas sobre alguns papeis do psicoterapeuta:

“Algumas vezes o terapeuta deve construir um novo repertório que seja eficiente no mundo em que o paciente se encontra. Talvez um comportamento conveniente já integrante do repertório do paciente precise ser fortalecido ou, talvez, respostas adicionais precisem ser acrescentadas. Como o terapeuta não pode antever todas as circunstâncias com as quais o paciente vai se defrontar, deve também instalar um repertório de autocontrole, através do qual o paciente seja capaz de se ajustar às circunstâncias à medida que surjam. Esse repertório consiste principalmente em melhores meios de fugir da autoestimulação aversiva condicionada pela punição. Essas técnicas construtivas podem ser necessárias depois que a audiência não punitiva do terapeuta tenha tido seu efeito. Se a condição que está sendo corrigida é o subproduto de circunstâncias controladoras que não mais existem na vida do paciente, o alívio dos efeitos do controle excessivo pode ser suficiente. Mas, se o paciente ainda estiver continuamente sujeito a controle excessivo ou desastroso, a terapia deve ser mais construtiva. Pode-se ensinar o paciente a evitar ocasiões nas quais tenda a se comportar de modos que produzam punição, mas isso pode não ser suficiente. Um repertório eficaz, particularmente com técnicas de autocontrole, deverá ser construído.” 

Um alerta necessário! Muitas vezes a psicoterapia é entendida e conduzida visando ao bem-estar do cliente, alheio ao que as mudanças dele podem produzir nas pessoas com as quais convive. Skinner (1990) destacou que os comportamentos são selecionados pelas suas consequências em três níveis: filogenético (que dá origem aos comportamentos próprios da espécie), ontogenético (que seleciona, principalmente via operante, comportamentos de cada pessoa) e cultural (em que são selecionados comportamentos que contribuem para a sobrevivência do grupo cultural). O cliente faz parte inseparável de um todo social e não social, e o objetivo da psicoterapia é harmonizar os diversos determinantes de cada comportamento sob análise e as consequências que as mudanças comportamentais do cliente produzirão no seu universo cotidiano. O encaminhamento do processo psicoterapêutico é o tempo todo um processo dinâmico no sentido de que mais e mais contingências de reforçamento estão em operação, afetando o cliente no seu mundo e ele, por sua vez, mais e mais estará afetando o mundo que o afeta. Como tal, não se parte de uma solução para as dificuldades identificadas no cliente, mas chega-se a ela dentro do possível, através de clara, sistemática e autêntica interação psicoterapeuta-cliente, sempre mantendo em foco para o cliente como um ser que transforma seu mundo e é transformado por ele. O psicoterapeuta não pode em nenhum momento considerar o consultório como uma redoma na qual o cliente, protegido, aprende a viver bem fora dele; o psicoterapeuta deve considerar o consultório como uma amostra do que existe no mundo e preparar seu cliente para essa realidade. O fato de o psicoterapeuta usar contingências de reforçamento amenas, para ensiná-lo a enfrentar contingências intensas, não significa que é necessário usar punições intensas e reforçamentos intensos nas sessões. O soldado é preparado para ir à guerra, mas não é na guerra que se prepara. Lá busca sobreviver com o que aprendeu, e aprende o que não pode ser ensinado nos treinos. Se o psicoterapeuta tiver como único objetivo contribuir para o desenvolvimento do cliente, então estará privilegiando o segundo nível de seleção. Tal foco, pelo menos no âmbito conceitual, produziria uma catástrofe, uma vez que seriam selecionados comportamentos que produzem reforços positivos para o indivíduo, seriam minimizadas consequências aversivas para o indivíduo, indiferente ao que seus comportamentos subtraem do outro ou de que maneira o ferem. De modo generalizado, as religiões, as leis, as filosofias, a psicologia etc. enfatizam a importância do outro como participante ativo necessário e essencial para a sobrevivência e desenvolvimento do indivíduo e do grupo como um todo. Comportamentos de atenção ao outro, de cooperação com o outro, de proteção ao outro, de amor ao outro devem ser aprendidos por contingências oriundas da comunidade verbal à qual o indivíduo pertence. Skinner (1989, p. 6; 1991, p. 17) associou o termo grego para uma classe de amor denominado ágape como terceiro nível de seleção:

“Se podemos dizer que eros é primariamente uma questão de seleção natural, e philia de condicionamento operante, então ágape significa um terceiro processo de seleção – evolução cultural. Ágape deriva de uma palavra que significa ser bem-vindo ou, como determina o dicionário, “ser recebido com alegria”. Ao demonstrar que estamos contentes quando uma pessoa se une a nós, nós reforçamos a união. A direção do reforçamento é invertida. Não é nosso comportamento, mas o comportamento daquele que amamos, que é reforçado. O efeito primeiro é sobre o grupo. Ao demonstrar que sentimos prazer pelo que outra pessoa faz, nós reforçamos o fazer, e assim fortalecemos o grupo.”

Há muitas outras classes de comportamentos que contribuem para a sobrevivência e desenvolvimento do grupo, que precisam ser selecionadas e mantidas. Skinner (1989, p. 6; 1991, p. 17) continuou:

“A direção do reforçamento é também revertida em eros, se a maneira pela qual fazemos amor é afetada por sinais de que aquele que amamos sente prazer. É também revertida em philia, quando nosso amor por Brahms assume a forma de fundar ou formar uma sociedade para a promoção de suas obras. Nós igualmente demonstramos uma espécie de ágape quando honramos heróis, líderes, cientistas e outros, cujos feitos nos beneficiaram. [....] Fazemos tudo isso mesmo quando não desfrutamos diretamente dos benefícios de fazê-lo. As principais consequências de ágape são de fato artificiais. Elas são inventadas pela nossa cultura, inventadas sobretudo porque justamente o tipo de coisa que fazemos nessas circunstâncias ajuda a cultura a resolver seus problemas e sobreviver.”

Está se falando de práticas culturais (contingências de reforçamento aplicadas amplamente pelos membros de determinado grupo, que os levam a cuidar de seus iguais) que selecionam e mantêm comportamentos próprios da cultura e que propiciam sua sobrevivência. A psicoterapia deve ter, então, inadiável comprometimento com o desenvolvimento do cliente, mas não às custas daqueles que o cercam. No caso da Dinah, o psicoterapeuta deve levá-la a se tornar ciente de que as mudanças comportamentais dela influenciarão, de forma positiva, minimamente seu marido, seus filhos e sua mãe, e, quase certamente, se o triunfo dela gerar dor excessiva ou desnecessária para essas pessoas, ela própria não conseguirá se sentir bem. Pode-se dizer que mudanças no cliente geram soluções, mas geram também problemas para todas as pessoas envolvidas direta ou proximamente a ele. Em suma, o psicoterapeuta, nas suas análises e intervenções, deve ter como objetivo atuar como um mediador das transformações decorrentes do processo psicoterapêutico e cabe a ele instalar no seu cliente comportamentos compatíveis com seus objetivos de inserir as mudanças que fazem bem ao cliente na direção de também harmonizar o contexto de sua vida em grupo familiar e social.

Hélio

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