15 setembro 2026

AS ORIGENS DO AMOR

 A Mais Bela História do Amor é o nome de um livro, cuja essência se revela na preposição do.  São conhecidas algumas histórias de amor: Tristão e Isolda, Abelardo e Heloisa, Lancelot e Guenièvre, Pedro I (de Portugal) e Inês de Castro, Romeu e Julieta... “mas, não existem apenas histórias de amor. Há também uma história do amor.” (Simonnet, 2003, p.7). Simonnet (2003) escreveu: “A história do amor se resume em três palavras, três esferas: sentimento, casamento, sexualidade. Ou, se preferirmos: amor, procriação, prazer... Três ingredientes para acomodar os homens e as mulheres, dos quais cada época tirou partido, ora dissociando-os ora reunindo-os, ao sabor de seus interesses. Para o melhor e para o pior. Casamento sem amor nem prazer. Casamento por amor sem prazer. Prazer no amor sem casamento.” (p.9).

O livro se apresenta como um diálogo entre Dominique Simonnet e vários estudiosos (na forma de entrevistas), a maioria dos quais historiadores, sobre diversos temas, todos contribuindo para avanços na compreensão do Amor. Gostaria de transcrever alguns trechos e, a partir deles, propor algumas questões para reflexão. Assim:     

Dominique Simonnet (este é o entrevistador. Redator–chefe da revista L’ Express, encarregado de grandes entrevistas): Das origens do amor, do primeiro gesto terno e sensível, não possuímos vestígios, nenhum fóssil, nenhum relato, e jamais teremos provas nem certezas. Mesmo que os cientistas, dentre os quais o senhor se inclui, não gostem de especulações, podemos ainda arriscar algumas hipóteses a respeito desse misterioso e longínquo acontecimento?

Jean Courtin (pré-historiador, diretor de pesquisas no CNRS: Centre National dela Recherche Scientifique): De imediato nos defrontamos com a definição de amor. Mesmo no mundo animal, sempre existiu a necessidade dos indivíduos de um sexo procurarem os do outro sexo, a fim de perpetuar a espécie. Certos animais chegam a formar casais duradouros, como os animais de rapina, os corvos, os lobos, que se unem por toda a vida. Existe, pois, para eles, um apego entre sexos diferentes. Trata-se de amor? Eu creio que devemos falar propriamente de instinto. Para encontrar um verdadeiro sentimento profundo, que incite a avaliar as qualidades do outro, a escolher um parceiro, a decidir passar o tempo com ele, é preciso esperar o desenvolvimento do cérebro, e portanto o Homo Sapiens, ou seja, o homem moderno.

Nossos ancestrais australopitecos, Homo Habilis, Homo Erectus, não teriam tido esta graça, em sua avaliação? A pequena Lucy, a famosa australopiteco fêmea de 3 milhões de anos, não teria se apaixonado?

─ Eu a vejo como um pequeno macaco. Os macacos são enternecedores de se observar. Esse ser ereto talvez possa ter tido algum charme para seus semelhantes. Exercia a sedução e experimentava atração. Mas amor, no sentido que compreendemos hoje em dia, já não tenho tanta certeza... Também não consigo imaginar os Homo Erectus dotados de uma aptidão tão sutil. Eles não conheciam a sepultura, deixavam seus mortos ao abandono, encontramos esqueletos abandonados, despedaçados, no meio de ossos de animais...

O Homo Sapiens é, por sua vez, mais delicado.

─ Ele foi o primeiro a dispensar um grande cuidado a seus defuntos, o que denota uma forma inegável de apego aos semelhantes. Tendo a pensar que o sentimento amoroso se desenvolveu junto com a consideração para com os mortos, com o senso da estética, da ornamentação. Portanto, junto com características propriamente humanas que não foram desenvolvidas antes do surgimento do homem de Cro-Magnon, a partir de 100.000 anos atrás, na África e no Oriente Próximo, e por volta de 35.000 anos atrás, na Europa.

Comentários: Courtin oferece uma interpretação intrigante ao sugerir que o cuidado com os mortos “denota uma forma inegável de apego aos semelhantes...”. Ele encontrou produtos de comportamento; não há como saber que contingências de reforçamento (quais foram os determinantes) que produziram comportamentos de cuidar dos mortos. Seriam determinantes do segundo nível de seleção? É difícil pensar em “ganhos” individuais que selecionaram comportamentos de cuidar dos mortos. Estou mais inclinado em sugerir que a coesão, solidariedade entre os membros do grupo, cooperação etc. se fortaleceram quando, por alguma razão, a morte de um membro do grupo passou a controlar o comportamento dos sobreviventes em relação a cuidar do defunto. Lembremos que os grupos humanos foram inicialmente pequenos – para os padrões atuais –, cerca de 30 membros e a perda de um membro (um a menos para defender o grupo de predadores, um a menos para caçar e pescar...) poderia ter importância vital para a sobrevivência do grupo. (Pode-se, por outro lado, argumentar que a morte de um membro grupo poderia significar um a menos para ser alimentado, para ser defendido...). Se acrescentarmos às nossas considerações que a perda de alguém produz sofrimento e que os rituais de sepultamento e outros em relação à morte geram, disponibilizam e tornam acessíveis reforços positivos condicionados associados ao morto (o que é uma forma de torná-lo, parcialmente presente e acessível aos vivos para os quais ele é significativo), podemos inferir que a perda total de alguém reforçador (se à morte nada se acrescentasse) privaria os sobreviventes de todos os reforços advindos do morto, enquanto que a sepultura, objetos associados ao sepultamento e a preservação de sinais concretos do defunto etc. poderiam ter a função de manter presentes de maneira perene símbolos do morto. Convém deixar claro que o sofrimento pela perda de alguém é um sentimento instalado por influência de uma comunidade verbal e, como tal, quando as pessoas emitem comportamentos sob controle da morte do outro e estão aptas a sentir a perda, é porque a comunidade já desenvolveu contingências de reforçamento que podem instalar amplo repertório do que poderia ser chamado de sensibilidade ao que ocorre com alguém que é próximo e, em alguma dimensão, significativo para determinada pessoa. Assim, o intervalo entre ignorar o defunto e cuidar do morto deve ter sido longo e exigiu a atuação de contingências de reforçamento por processos que nos são desconhecidos. O que se sabe é que tal passagem de um estágio de repertório comportamental para outro ocorreu; conhecemos o produto de contingências de reforçamento; desconhecemos quais foram e qual o processo pelo qual se manifestaram. Em muitos aspectos os rituais aliviariam a dor de uma perda devastadora se privada de memória concreta. Acrescente-se que os rituais da morte, assim como os rituais de aniversário (tema que discuti por ocasião da análise da poesia Aniversário de Fernando Pessoa), demonstram para a comunidade a importância da existência e da convivência de cada um com todos os demais membros do grupo para a sobrevivência da comunidade e tais ritos devem, em ultima instância, contribuir para instalar e manter em cada membro do grupo comportamentos de cuidar do bem estar e da sobrevivência de cada um dos outros que o cercam. São especulações e poderíamos estender estes comentários, a fim de identificar origens daquilo que poderiam ser nomeados de comportamentos e sentimentos humanos no organismo humano. Os trechos da entrevista que se seguem sobre traços de solidariedade, nos desafiam a admitir a presença de sentimentos associados a comportamentos (que eu atribuiria, mais uma vez, ao terceiro nível de seleção). Assim:

A emergência de uma sensibilidade, em suma, que se teria revelado simultaneamente em diferentes domínios... 

─ Sim, mas dispomos de muito poucos indícios para detectá-las. Nós, pré-historiadores, nos curvamos sobre nossas pedras, restos de ossos, nossos fragmentos de cerâmica, e temos alguma dificuldade para ler neles a realidade humana. Podemos analisar os achados arqueológicos, as tumbas por exemplo, e tentar imaginar quais teriam sido as estruturas sociais, as relações entre os indivíduos. Mas serão sempre apenas interpretações. Dispomos também de gravuras, de pinturas pré-históricas, de estatuetas de “deusas”... Mas a arte tem uma função simbólica, ela reflete uma mitologia e não uma realidade. 

Mesmo assim tentemos brincar de detetives do amor. O que nos dizem essas famosas tumbas?

─ Tomemos exemplos: dentro das cavernas de Grimaldi, foram encontrados esqueletos de duas crianças pequenas (entre 6 e 10 anos), de 30.000 anos, exumadas [desenterradas] lado a lado, a bacia e as coxas recobertas de milhares de pequenas conchas perfuradas, decerto costuradas originalmente sobre suas tangas ou seus cintos. Na Dinamarca, em Vedbaek, em um sítio do oitavo milênio antes de nossa era, descobriu-se uma jovem mulher morta com a idade de 18 anos, acompanhada de seu recém-nascido: ela tinha um grande número de dentes de cervo perfurados, outrora costurados ou presos a suas vestimentas e seu cinto, e o bebê, provavelmente um menino, tinha uma lâmina de sílex [rocha resistente com a qual se produzia objetos] na mão, rito que era observado pelos homens adultos. O pequeno cadáver fora colocado sobre uma asa de cisne (cujos ossos se conservaram). 

O que deduzir de tudo isso?     

─ Que se dispensava um grande cuidado às crianças. Já se pode ver nisso o sinal de um apego profundo, de uma forma de amor. Outro indício: sabe-se também que os homens pré-históricos eram capazes de solidariedade.
─ E como é que se encontram traços dessa solidariedade?

─ Dentro de um abrigo sob uma rocha, no fundo da enseada de Bonifácio, na Córsega, um sítio de 8.000 anos, exumou-se o esqueleto muito bem conservado de uma mulher morta com a idade de 35 anos, enterrada com seus ornamentos e recoberta de ocre vermelho. Ela provavelmente sofreu, durante a juventude, uma queda dentro dos rochedos: seu braço esquerdo ficou paralisado em decorrência de diversas fraturas, não pôde mais se deslocar a não ser com muita dificuldade, e uma parte de sua mandíbula inferior foi destruída por uma osteíte, o que teria limitado sua alimentação a caldos. Em uma época na qual se vivia da caça, da pesca, da coleta de molusco, ela se tornou, portanto, inteiramente dependente dos seus. Foi, entretanto, alimentada, cuidada, ajudada e mantida viva por muitos anos.

Prova de uma real solidariedade, com efeito.

─ Os filhos teriam se encarregado dela? Ou o seu companheiro? Esses casos de solidariedade foram bastante difundidos, provas da existência, sem sombra de dúvida, de sentimentos de apego profundo entre determinados indivíduos. Foram observados mesmo entre os homens de Neandertal, os contemporâneos do Homo Sapiens, cuja espécie se extinguiu.

Que são descritos às vezes como seres rudes...
 
─ Eles eram mais evoluídos do que se pensa. Claro, eles tinham uma morfologia diferente do Homo Sapiens: pescoço de lutador de sumô, nuca poderosa, pernas curtas, braços muito musculosas, aletas olfativas mais importantes, o que lhes dava por sinal um faro de cão de caça. Mas possuíam certamente uma linguagem desenvolvida, e por vezes inumavam seus mortos... Pois bem, dentro de sepulturas neandertalenses antigas, que têm entre 60.000 e 80.000 anos, foram descobertos os restos de indivíduos gravemente deformados que, mesmo assim, sobreviveram durante muitos anos graças à ajuda mútua do grupo: o homem de Shanidar, por exemplo, exumado dentro de uma caverna do Curdistão, no norte do Iraque, ou um outro indivíduo que teve uma perna quebrada e a mandíbula esfacelada durante sua adolescência... Também foi encontrada uma tumba neandertalense de mulher, forrada de flores de pântanos, que foram colhidas em um vale mais abaixo, a muitas horas de caminhada. É a utilização mais antiga que se conhece de flores nos ritos funerários.

O Neandertal e o Cro-Magnon teriam inventado a solidariedade, de forma independente. E o amor, então?
    
─ É uma bela hipótese. Mas, ao contrário dos neandertalenses, que enterravam somente alguns de seus semelhantes, os Cro-Magnon, por sua vez, faziam isso de maneira sistemática: homens, mulheres e crianças eram inumados [sepultamento] com o mesmo cuidado, indiscriminadamente, qualquer que fosse a idade. Eu vejo nisso, sem dificuldade, o sinal dos primeiros sentimentos amorosos.

Comentários: As limitações metodológicas – compreensíveis quando se estuda a pré-história – nos limitam aos produtos materiais de comportamentos, aquilo que, através do tempo, não se perdeu. Não temos acesso às contingências de reforçamento que selecionaram e mantiveram tais comportamentos, mas uma conclusão parece indiscutível: o ser humano era sensível a conseqüências não imediatas e era sensível ao outro. Tanto uma capacidade como a outra dependem do comportamento verbal. Courtin (p.21) afirma: “Os homens e mulheres de Cro-Magnon devem ter tido uma linguagem elaborada, o nível de sua tecnologia a requeria: para cortar grandes lâminas a partir de fragmentos de sílex, com um cortador feito de chifre de rena, um martelo de madeira, é preciso bater segundo um determinado ângulo, no lugar correto, preparar o golpe com precisão, desbastar no ponto adequado... Essa técnica refinada, que nada tem a ver com os rústicos seixos talhados dos contemporâneos de Lucy, não pode ser unicamente explicada com gestos e exige uma verdadeira comunicação.”
Não sei como vocês reagiram às informações apresentadas (virão outras!). Particularmente, fiquei fascinado com o que podemos aprender com outras disciplinas. Admirei também o cuidado que Courtin demonstrou ao apoiar suas inferências em evidências que, embora escassas, se apóiam em uma forma de ordem e regularidade derivadas de dados. Por outro lado, nossa disciplina nos direciona para propor inúmeras questões. Apenas como exemplos, fico me perguntando: como foi modelado o longo encadeamento de alguém trazer de um pântano distante flores que foram depositadas num sepulcro; que condições ambientais (acho que poderia dizer sociais) selecionaram o repertório de ficar sob controle das flores ao ponto de colhê-las; selecionaram o repertório de trazê-las até o morto; selecionaram o senso estético (ou até mesmo diferentemente de qualquer preocupação estética) selecionaram o repertório de depositá-las, (por qual razão?) na tumba? São apenas algumas (das incontáveis) questões que poderiam ser sugeridas para se ter mais clara a efervescência das interações humanas nas pequenas, mas complexas comunidades de então!
  
Nota.

Cro-Magnon: extraímos do Google algumas informações básicas sobre estes nossos ancestrais. Assim:  

“Os Cro-Magnon são os restos mais antigos conhecidos na Europa de Homo sapiens, a espécie à qual pertencem todos os humanos modernos. A designação não se enquadra totalmente nas formas convencionais de denominação dos hominídeos, sendo frequentemente usada para designar, em sentido genérico, os povos mais antigos conhecidos na Europa que podem ser integrados entre os modernos humanos.

No Paleolítico Superior, os neandertais desapareceram, por volta de 30.000 a.C. A teoria mais aceita na Antropologia, hoje, é de que ocorreu um encontro entre os Neanderthais e os Homens de Cro-Magnon há cerca de 40 mil anos. Eles entraram em um conflito que durou cerca de 10 mil anos que, por fim, acarretou o extermínio do Homem-de-neandertal.

Os principais fósseis foram encontrados na França e na Espanha, mas também existem sitios arqueológicos em outras partes da Europa, Oriente Médio e do Norte da África, donde se supõe que tenham originado (embora a origem asiática não seja descartada). De acordo com os fósseis, eram homens altos, entre 1,8 e 2 metros de altura, a capacidade craniana era de 1.500c³ a 1.790c³. Distribuíram-se por toda a Europa, fundamentando, de uma certa maneira, os primeiros alicerces da civilização, pelo menos no pensar de algumas correntes antropológicas.

Como seus anteriores, os Cro-Magnon moravam em cavernas. Mas são notáveis seus progressos culturais. Os utensílios, instrumentos e armas já apresentavam um acabamento razoável, e outros materiais, além da pedra, são lascados, como o chifre da rena e o marfim. Fabricavam o arpão, o anzol e acabaram inventando a agulha de osso, que lhes serviu para costurar suas roupas, feitas de peles de animais, pois ainda não conheciam a tecelagem. Deviam comer seus alimentos cozidos, pois foram encontrados nas cavernas inúmeros vestígios de fogões rústicos.

A vida social dos Cro-Magnon apresentava sintomas bastante significativos de organização. A sua fixação e permanência nas cavernas, embora não fosse definitiva, pois suas atividades ainda eram a caça e a pesca, era prolongada de tal modo a lhes dar condições de esquematizar os princípios básicos de uma comunidade.

A divisão do trabalho, por exemplo, existia entre eles sob a forma de um cooperativismo primário. A caça era um objetivo comum e a sua partilha entre os membros do grupo era obrigatória. Este "cooperativismo" era, em grande parte, motivado pelas próprias circunstâncias geo-econômicas em que viviam: os animais eram, em sua maior parte, de grande tamanho e difíceis de serem caçados por um homem sozinho. Caçavam juntos, enfrentando os mesmo perigos mas, em cerimônias festivais, faziam também a partilha coletiva.

Referência
Simonnet, D. et al. (2003). A Mais Bela História do Amor . Difel: R.J. 


HÉLIO JOSÉ GUILHARDI 
(2010)

14 setembro 2026

SENTIMENTO DE ANGUSTIA


O ser humano está o tempo todo exposto a inúmeras contingências de reforçamento que interagem entre si e se influenciam reciprocamente. Sentimentos e comportamentos são produzidos por contingências de reforçamento. Tendo em vista tais conceitos decorre que nunca a pessoa está vivenciando um único sentimento. Quando alguém diz que está ansioso, angustiado, ou que tem baixa autoestima, ou que se sente culpado etc., ele quer dizer que em dado momento, em determinada circunstância prevalece um sentimento em relação a outros. Em geral, o sentimento que a pessoa detecta é o mais intenso, quer por sua função aversiva, quer pela função agradável. Em termos técnicos ela está mais precisamente sob controle de determinadas contingências de reforçamento. Os sentimentos não são traços inerentes à pessoa, com determinação filogenética, próprios da espécie (algumas reações emocionais são eliciadas por estímulos, numa relação automática, praticamente idêntica a todos os membros saudáveis da espécie, independentes de aprendizagem prévia. Tais reações não são os sentimentos). Os sentimentos resultam da interação entre a história genética do indivíduo, com a história de contingências de reforçamento da pessoa (neste sentido é determinado pela comunidade sócio-verbal a qual a pessoa pertence) e com as contingências de reforçamento que estão atuando no presente (estas atualizam as funções dos eventos instalados pela história de contingências). Finalmente, os sentimentos incluem duas amplas classes de comportamentos: sentir e agir. Uma pessoa com raiva é aquela que exposta a determinadas condições, sente seu corpo de forma específica e age de forma tal, que a comunidade verbal descreve essa interação dos três componentes com um termo “raiva”. Nem todas as pessoas nas mesmas condições, sentirão seu corpo da mesma forma e nem agirão de forma idêntica. Por isso, pode-se dizer que o sentimento é uma construção social. O que determina aquilo que a pessoa sente e como age diante de uma provocação vinda de outrem, por exemplo, tem a ver com a história de contingências de cada um. Assim, quem aprendeu que “não se leva desaforo para casa”, “não se fere a honra de um homem impunemente” etc., reagirá e se sentirá nesta condição de modo diferente daquele que aprendeu conceitos antagônicos ou alternativos àqueles. (A condição antecedente pode conter elementos que eliciam respostas fisiológicas da mesma classe, por ex., taquicardia, tremor etc., mas isoladamente tais respostas filogenéticas não constituem o sentimento de raiva).    

O termo angústia, originalmente de origem latina, tem vários significados, como se pode encontrar no dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001, p. 220), dentre os quais destaco os adjetivos estreito, apertado, agoniado, os substantivos desfiladeiro, apuro, falta, carência e os verbos apertar, afogar, estreitar. O termo angústia, como nome de um sentimento, possivelmente, teve origem a partir do relato de pessoas que descreviam um aperto no peito, dificuldades para respirar, sensação de agonia, estreitamento da passagem de ar na região do mediastino... Tais relatos de estados corporais levaram o ouvinte a dizer: “Você está com angústia!” “Seu peito está se apertando, se estreitando...” etc. Ou seja, originalmente o ouvinte nomeia o estado corporal descrito pelo falante usando uma metáfora. Com o uso continuado a metáfora adquire o status de uma coisa, torna-se um substantivo. Assim, uma pessoa pode aprender a nomear determinada dor de cabeça com a metáfora “Sinto minha cabeça pesada” e pode continuar a falar de seu desconforto como se a cabeça de fato adquirido houvesse sensíveis gramas a mais... “O peso que sinto dentro da cabeça me enlouquece!”

A questão seguinte a ser respondida é quais condições ambientais (que não uma doença orgânica) levam a pessoa a se sentir assim?

Duas condições ou, em termos técnicos, duas contingências de reforçamento prevalecem e interagem entre si na produção de tal estado corporal:

a. Perda súbita de uma fonte de múltiplos reforçadores positivos sociais, em geral generalizados, com função reforçadora positiva intensa. Assim, a perda de uma companheira, de um companheiro, de um amigo, de uma amiga, de uma mãe, de um pai, de um líder etc.

Note que a sinalização da perda, ainda não concretizada, produz inicialmente ansiedade! Assim, a pessoa poderia dizer: “Estou agitada, inquieta, não consigo dormir; sinto uma ansiedade generalizada... Estou pressentindo que meu casamento está por um fio!”...

b. Relação de dependência da pessoa que está perdendo (ou já perdeu). Com o rompimento quebram-se dois elos da tríplice contingência:

1. Interação entre o termo antecedente com a resposta. A pessoa angustiada deixa de emitir respostas sob controle dos comportamentos da outra, e como tal, seu repertório comportamental sofre brusca ruptura: deixa de tomar iniciativas e decisões, há déficit de comportamentos para manter a rotina cotidiana... O déficit de repertório é diretamente proporcional ao grau de dependência. Como decorrência da supressão de respostas rompe-se também:

2. Interação entre respostas e consequências por elas produzidas. Ou seja, a pessoa deixa de emitir comportamentos que lhe propiciam acesso a reforçadores positivos relevantes (minam, adicionalmente, sentimentos de prazer, de bem estar etc.) e diminuem comportamentos de fuga-esquiva funcionais (surgem sentimentos de abandono, de impotência, de desamparo, de medo, fobia etc.)

Pode-se concluir que, em situações sociais semelhantes, as reações das pessoas podem ser diferentes, em função da história de contingência de reforçamento que vivenciaram. Ou seja, semelhança fenotípica, não equivale à semelhança funcional. Assim, uma pessoa com boa autoestima, boa autoconfiança, com riqueza de repertório comportamental etc. não sentirá uma perda devastadora quando houver um rompimento de relacionamento. Isso porque ela é por si fonte de reforços positivos e capaz de evitar ou fugir de eventos aversivos por conta de seu próprio repertório comportamental. A relação com a outra pessoa é construtiva; é capaz de dar e de receber; o relacionamento é simbiótico: ambos os parceiros ganham com a relação. 

Por outro lado, uma pessoa com baixa autoestima, baixa autoconfiança e com repertório comportamental restrito e baixa variabilidade para produzir reforços positivos e para evitar ou fugir de situações adversas estabelece uma relação parasita com o outro... Daí o desespero desde o momento da perda. O processo terapêutico é necessário nesta segunda condição. Pode ser bastante árduo, porque a construção de um repertório comportamental de autonomia é lenta e complexa, uma vez que abrange um crescimento pessoal muito amplo. Em geral, tal autonomia é construída desde o berço, com a sistemática atuação de contingências de reforçamento que produzem sentimentos e comportamentos de elevada autoestima, autoconfiança, responsabilidade, tolerância a frustração.

Some-se à dificuldade de instalar tantos comportamentos mais tardiamente, o intenso sofrimento atual da pessoa. Tal sofrimento compete com o processo de desenvolvimento pessoal, afetivo e comportamental. 

Note que o foco do tratamento não é a dor sentida, a angústia e outros sentimentos aversivos correlatos. Tal enfoque se restringe a uma análise e intervenção moleculares. É fato que a pessoa está sofrendo e precisa ser acolhida. Ela pode se sentir culpada (“O que fiz de errado?”), sentir raiva (“Nunca pensei que vivia com alguém tão frio, calculista, egoísta... me largar assim?”), sentir-se rejeitada (“Ele não me quer porque deve existir alguém na parada...”), esperançosa (“Será que ele vai voltar?” Vivemos tempos tão felizes!”) e todos esses componentes do sofrimento flutuam em torno da angústia central. No entanto, a ênfase a ser dada no processo psicoterapêutico é o conjunto de déficits da pessoa, que levaram-na a estabelecer e a permanecer numa relação de desigualdade de poder... Deu no que deu. Essa análise mais abrangente deve envolver: história de contingências de reforçamento, que instalou dado repertório de comportamento, que levou a pessoa a escolher determinado companheiro e a desdenhar sinais de que o relacionamento estava se esgarçando; a confiar excessivamente no outro; a ter uma vida com interações sociais restritas; a se manter sob influências exageradas de pai-mãe, quando tal relação já não é mais esperada; a abdicar de trabalho produtivo que lhe garanta algum grau significativo de autonomia financeira e de realização profissional; a seguir cegamente orientações de alguém considerado mais forte, mais ponderado; a delegar ou se omitir das tomadas de decisões na rotina cotidiana; a se esquivar de fazer escolhas; a minimizar seus comportamentos nas atividades cotidianas: deixar de dirigir, não conhecer a rotina de um Banco, desconhecer o orçamento familiar, negligenciar coisas e atividades que lhe causam prazer, até mesmo a ponto de desconhecê-las; a não apresentar variabilidade comportamental!... Dá para imaginar que, num quadro dessa natureza, o  mundo – com a separação – se desmorona, qual um terremoto que deixa a pessoa sem endereço e sem ninguém de bem-querer por perto! A análise molar visa a conscientizar a pessoa de todos seus déficits e a iniciar a reconstrução de seu ser no mundo: novas formas de se comportar e de sentir! A reconstrução deve ser programada e implementada pelo terapeuta; uma complexa teia de contingências de reforçamento precisa começar a ser urdida. 

A angústia pode ser evocada também por situações ou coisas. Trata-se de angústia produzida por relações de equivalência. Assim, perder um emprego, aposentar-se, mudar-se de uma casa - onde viveu a maior parte de sua vida -, perder um item de valor afetivo inestimável, (como por exemplo, o relógio carrilhão), símbolo de várias gerações da família etc. podem levar a profundos sentimentos de angústia. Em todos esses exemplos, o ponto crítico é o déficit de repertório comportamental para se envolver de forma saudável, isto é, se comportar de maneira funcional, com os novos contextos...                 

Não é objetivo deste texto especificar o processo psicoterapêutico para lidar com angústias intensas. Pode ser um bom começo os textos de Guilhardi, H. J.: Autoestima, autoconfiança, responsabilidade (2002); Responsabilidade sob controle de reforçamento positivo (Dezembro/2013; revisto setembro/2016); Um pouco mais sobre autoestima (Abril/2013; revisto em novembro/2015); Interações amorosas sob uma perspectiva comportamental (Setembro/2015; revisto em novembro/2015); Reforço Livre (Maio/2015; revisto em maio/2016). 


Contingências que produzem angústia


Atualmente


1. Repertório comportamental abrangente mantido por:

a. reforçamento positivo com conseqüências sociais intensas - primárias e principalmente generalizadas - provenientes de uma única fonte.

Sentimentos associados: prazer, bem-estar, proteção, segurança, dependência (intensa) etc.

b. reforçamento negativo com evitação de perda de tais conseqüências sociais.

Sentimentos associados intensos: ansiedade, insegurança, preocupação etc. 


2. Repertório Comportamental restrito mantido por:

a. reforçamento positivo com conseqüências sociais eventualmente intensas e geralmente amenas, principalmente generalizadas, provenientes de várias fontes: amigos, trabalho, esporte etc.

Sentimentos associados: auto-confiança, segurança, independência etc.

b. Reforçamento negativo com evitação de perda de tais conseqüências sociais.

Sentimentos associados moderados: ansiedade, insegurança, preocupação etc. 


História de Contingências


1. Repertório comportamental abrangente mantido, basicamente, por comportamentos do outro, quer como funções de antecedentes (SDs, Ss, SDps etc.), quer com funções de conseqüentes (Sr+, Sr- etc.)

Sentimentos associados: bem-estar, eventualmente; dependência, insegurança, medo e fobias (se prevalecerem contingências coercitivas).

2. Repertório comportamental restrito mantido por conseqüências naturais não sociais

Sentimentos associados: insegurança, falta de iniciativa, medo etc.

3. Abandono funcional em que a criança não tem controle sobre o outro e, simultaneamente, o outro não fica sob controle da criança. Tal condição, extremamente, adversa, desenvolve um repertório comportamental fraco e inconsistente, uma vez que as conseqüências para os comportamentos são aleatórias, raras e não há seleção sistemática de classes comportamentais. O padrão comportamental é análogo ao produzido pelo procedimento de extinção e pode ser descrito como depressivo (talvez, um repertório próximo ao nível operante dos organismos da espécie em dado estágio de desenvolvimento). Se o ambiente disponibilizar reforçadores sociais naturais (isto é, os reforços não são programados, não são arbitrários. Por exemplo, sorrir ao ouvir uma piada gostosa é um reforço social natural; sorrir, mesmo não achando graça na piada, a fim de manter o comportamento verbal ou para “agradar” é arbitrário) a pessoa terá dificuldades para estabelecer relações duradouras e construtivas por falta de repertório capaz de produzir as conseqüências disponíveis (a menos que o ambiente seja terapêutico).

Sentimentos associados: depressão, insegurança, medos, abandono, desamparo etc.  

4. Conseqüências sociais reforçadoras positivas e negativas assistemáticas. Esta condição não permite à criança discriminar as relações entre os próprios comportamentos e as conseqüências que eles produzem. Assim, é gerado um repertório forte e errático, caracterizado por ampla variabilidade comportamental sem consistência: não há relação sistemática entre a resposta e a conseqüência. Assim, por exemplo, a resposta que produz conseqüência aversiva é emitida aleatoriamente sem sofrer a redução típica do procedimento de punição positiva. Ou uma resposta que produz conseqüência reforçadora positiva não aumenta de freqüência, como se observa num procedimento típico de reforçamento positivo.  A pessoa seria descrita como hiperativa e dependente de pessoas, mas não de uma pessoa em particular. Não cria vínculos. Por não ser amada, comporta-se sem dar amor e é, finalmente, abandonada. 

Sentimentos associados: depressão, insegurança, abandono, desamparo, agitação etc.


Mudança nas contingências em operação

Remoção inevitável e brusca, provida pela fonte única das conseqüências reforçadoras sociais que vinham mantendo o amplo repertório operante. Não importa se a remoção é contingente ou não a repertório comportamental. Se for remoção contingente, então deverá aparecer também sentimento de culpa. A remoção brusca dos reforçadores pode ocorrer pela morte do agente provedor dos reforços, por exemplo. Neste caso não há culpa; mas há angústia.


Contingências que produzem sentimento de rejeição


O sentimento de rejeição emerge sob contingências de reforçamento análogas às descritas na angústia. A diferença fundamental se baseia no controle do comportamento do agente que remove as conseqüências reforçadoras positivas. Assim:

1.   O procedimento é ativo; não é acidental, nem por impedimento (morte, doença etc.) O agente controlador aplica um procedimento. Uma analogia possível decorre da comparação entre o procedimento de extinção no qual o experimentador desliga o equipamento que fornece o reforço; e o procedimento acidental, no qual o equipamento quebra, sem o conhecimento do experimentador;

2. O que controla o agente que remove os reforços sociais é o outro; não o comportamento do outro;

3. Não há comportamento possível para reverter as contingências;

4. A identificação daquilo que controla o comportamento do agente que remove as conseqüências - o outro ou o comportamento do outro – pode ser:

a. correta, isto é, estar sob controle do comportamento emitido pelo agente; ou 

b. incorreta, isto é, estar sob controle de auto-regras da pessoa que sofre a perda dos reforçadores. Neste caso, os estados corporais sentidos são igualmente reais e também poderiam ser nomeados de sentimentos de rejeição; no entanto, o que causa tais estados corporais não foi identificado corretamente. É um tato distorcido.  


Obs. Todos os textos podem ser encontrados no site www.itcrcampinas.com.br


Hélio José Guilhardi

(2017)


10 setembro 2026

É NECESSÁRIO FALAR SOBRE O BEHAVIORISMO RADICAL

Matos (1999, p.9) introduz o leitor ao Behaviorismo Radical de uma maneira interessante: descreve o que caracteriza um analista comportamental [behaviorista radical]. Assim: 


“O analista comportamental é antes de mais nada um cientista natural, não um filosofo, não um cientista social e muito menos um estudioso do mental. É também um darwinista e um funcionalista. Ele tem uma postura determinista na medida em que vê o comportamento humano como um produto inevitável de uma herança genética e de eventos ambientais ocorrendo durante a vida de uma pessoa. Não estuda apenas o condicionamento operante e não exclui eventos privados [encobertos] e comportamentos encobertos de suas análises. Não insiste que o comportamento possa mudar apenas como resultado de uma exposição direta a contingências, reconhecendo que mudanças podem resultar de instrução e de descrições de contingências. Não tem uma postura antifisiológica, antigenética nem antiteórica; porém rejeita explicações internas inferidas [inventadas]” 


Abib (2001, p. 158) retoma alguns dos pontos acima e explicita como Skinner não se interessa apenas pelo condicionamento operante, mas em alça-lo ao status de instrumento de mudanças sociais. Assim escreveu:


“O behaviorismo radical é uma filosofia pragmática da ciência: define ciência como ação prática e não como contemplação. [Neste artigo] Defende-se a tese que o pragmatismo define ação prática como ação ética, política [no sentido de ‘arte ou ciência de governar, isto é, guiar para o bem comum’] e com valor de sobrevivência. [....] O behaviorismo radical não é somente filosofia da ciência do comportamento. É também filosofia da ciência. [Sob influência dos escritos de Skinner (1957, 1974), Abib continua]: Ciência é, então, o comportamento verbal de cientistas governado por regras (aprendidas com comunidades cientificas) cujas descrições podem ser corroboradas ou falsificadas pela experiência do cientista. Ou ainda, ciência é ação, atividade, processo: é o comportamento verbal de cientistas cujo curso é um fluxo constante de interações com as regras científicas e com as contingências de sua própria experiência. ”


Voltando a Matos (2001, p.91):


“Como darwinista (referência ao teólogo e historiador natural inglês Charles Darwin), o analista de comportamento acredita que todas as mudanças comportamentais, operantes ou não, resultam de um processo de seleção pelas consequências. Isto supõe que o organismo seja dotado de uma sensibilidade inata ao efeito destas consequências […] mas também à associação destas consequências com determinadas condições antecedentes (negrito no original).


Abib (2001, p.160) mais esclarece a influência darwiniana:


“Darwin (1859, 1970) demonstrou que, para sobreviver, os organismos precisam se adaptar aos seus ambientes. Com base nessa tese revolucionária, o pragmatismo dá uma guinada na reflexão sobre o conhecimento, passando a fundamentá-lo na ação ou no comportamento. Com Aristóteles e Darwin, o pragmatismo forja um conceito sólido de conhecimento como ação prática. Com efeito, ação prática produz consequências práticas. Ações práticas são efetivas, se são efetivas às suas finalidades e são úteis, se essas finalidades são éticas, políticas e se também favorecem a sobrevivência. Isto significa dizer que ética, moralidade e política são compatíveis com a sobrevivência. Por exemplo, cooperação e solidariedade são armas imprescindíveis na luta pela sobrevivência (Skinner, 1971, 1978). Como teoria do conhecimento, o pragmatismo e o behaviorismo radical defendem uma representação ética e política da ciência [Skinner, 1948, 1997, 1999]. [...]. Um livro como Tecnologia do Ensino trata não só com tecnologia, mas também, e principalmente, com ciência do comportamento, ética e política educacional.” [Finalmente, Walden Two é um ensaio utópico, que diferentemente das utopias conhecidas – as quais não existem em lugar nenhum – pode ser concretizada].


Seguem algumas respostas dadas por Skinner em uma entrevista (1997, p.48 e seguintes), que deixam claras as posições dele sobre ética, moralidade, política e contribuem para a sobrevivência do grupo social verbal.


“Sobre a afirmação de que o determinismo seria um pressuposto metafísico, Skinner afirmou que nada sabe sobre metafísica: ‘Vivo em um mundo físico e é sobre isso que sempre estou falando. Evito palavras que tenham uma conotação muito vaga. Certamente não digo que posso definir precisamente cada palavra que uso, mas evito verbalizações que meramente reforçam o falar devido a suas consequências agradáveis. É possível tecer teorias que são, essencialmente, poesia e que têm o mesmo efeito que esta’”


Diante da definição feita por algumas pessoas de que a aplicação do condicionamento operante é simplesmente pragmatismo, Skinner comenta que: 


“A palavra ‘pragmático’, no sentido de coisas da vida, de coisas práticas que fazemos, veio de outra palavra que significa negócios. Foco nas consequências práticas da ação e, logicamente, modificação de comportamento. Não há dúvida de que, se tomarmos as consequências da ação como ponto determinante, então nossa ênfase será nas consequências; e, quando é reforçador produzir certos tipos de consequências, o comportamento que as produz se fortalece. Ao formar um sistema que torna efetivas as consequências, uma pessoa pode produzir certos tipos de comportamentos. Tal possibilidade está tão sujeita a más interpretações quanto a possibilidade de que uma pessoa grande que tenha um chicote possa levar outra pessoa a trabalhar para ela. ”

 

Um sistema de modificação de comportamento que trabalha de forma pragmática é passível de críticas por razões como acima citado. Teríamos que ser algo mais do que pragmáticos ao avaliar tais sistema? Skinner responde: 


“Posso pensar em uma resposta muito boa, mas é uma resposta com a qual as pessoas parecem ter dificuldades para lidar. Em primeiro lugar, sempre temos que considerar as consequências. Mas, se fizermos distinção entre consequências imediatas e últimas – entre o que funciona no curto prazo e no que funciona no longo prazo –, é possível preservar nossa ênfase pragmática nas consequências e, ao mesmo tempo, evitar suas implicações aparentemente desagradáveis. O mais importante em qualquer sistema são suas consequências últimas. As práticas de um sistema têm a consequência última de promover a força ou sobrevivência de tal sistema? Sempre é preciso considerar as consequências, e a consequência última tem a ver com a sobrevivência de uma forma de vida. Um sistema carcerário” [que mantém a submissão dos prisioneiros aos interesses apenas dos funcionários da prisão] “não tem consequências benéficas iguais para todos os participantes do sistema e, por essa razão, não tem a consequência última de promover a força – e a sobrevivência – de todo o sistema. E um sistema que enfatiza a produção e o armazenamento de armas nucleares não tem a probabilidade de levar às consequências últimas de promover sua sobrevivência. Seu potencial de destruição põe em risco não apenas o próprio sistema, como também toda a espécie humana e todas as outras espécies vivas da face da Terra. Não me sinto particularmente pesaroso pelos pobres e desempregados porque eles são infelizes; não gosto de ver pessoas pobres e desempregadas porque a condição deles é uma ameaça a nosso [dos EUA] modo de vida, ou seja, um modo de vida definido por garantias constitucionais contra certos tipos de tirania ou despotismo políticos. Essa é uma razão melhor para fazer algo pelos pobres e desempregados do que ter um “coração compadecido”. Não ajo por ter pena das pessoas; ajo devido ao que a condição miserável deles está causando a todos. Levo todos em consideração em vez de um a pessoa ou um grupo em particular.”


No livro The Behavior of Organisms, Skinner não faz muitas extrapolações de seu trabalho para a vida em sociedade. Sobre isso, ele comenta:


“Nesse livro eu disse simplesmente que ‘quem se interessasse fizesse as extrapolações’, mas eu mesmo já as estava fazendo. É que eu não queria entrar nesse assunto naquele livro. Sete anos depois, escrevi Walden Two, que apresentou algumas aplicações tecnológicas possíveis da análise experimental do comportamento.Com pouquíssimas exceções, nunca usei o condicionamento operante para modificar o comportamento da minha família e de meus amigos. Mas o tipo de coisas que poderiam ser feitas estava óbvio e, em Walden Two, delineei uma ampla variedade de aplicações à sociedade.”

“O mais importante é considerar as consequências de determinada lei ou prática social em vez de pensar se gostamos ou não dessa lei ou prática social. Sentimentos, tais como solidariedade e pena, levaram as pessoas a fazer reformas sociais, mas por motivos errados. O motivo importante é que determinada prática ou conjunto de práticas deve ser alterado por serem uma ameaça à sobrevivência da cultura. Caso uma prática crie uma situação que suscita pena, então é apropriado permitir-se sentir pena, mas não aja por causa disso. Aja porque a prática censurável coloca em risco o futuro do grupo. Em uma comunidade pequena, uma prática que a ameaça de extinção é percebida rapidamente e gera uma ação corretiva imediata. Isso não acontece nos EUA. Conseguir que as pessoas se comportem de maneira a dar uma chance do nosso mundo ter um futuro é algo que não fazemos bem.”


Hoje em dia há muita discussão sobre o uso de pesticidas e Skinner já tinha uma opinião a respeito:


“Em primeiro lugar, tanto o subgrupo dos fabricantes de pesticidas quanto o subgrupo dos que são contra o uso de pesticidas vão sobreviver juntos ou perecer juntos. O valor de sobrevivência cultural se aplica de maneira igual a todos os subgrupos. Caso o uso de pesticida seja necessário apenas para que certas pessoas tenham lucro, é óbvio que esse uso deve ser abandonado. Mas, caso o uso dos pesticidas seja absolutamente necessário para que a produção suficiente de alimentos evite a fome, então a decisão deve se basear em se os pesticidas ou a fome são a maior ameaça à sobrevivência de todos.”


Skinner sempre pregou o delineamento de uma sociedade na qual todos os cidadãos seriam felizes, saudáveis, produtivos, criativos etc. e concordava que, mesmo em sua época, já existia a tecnologia comportamental necessária para construir tal sociedade. Ele recomenda, então, que sejam examinadas as contingências que controlam as pessoas que tomam as decisões sociais básicas.


[...] “O comportamento de uma pessoa que assume o poder fica sob controle de contingências que envolvem o controle sobre outras pessoas. Caso tais contingências não sejam delineadas para reforçar o comportamento que funciona para o bem de todos, para o bem do grupo como um todo, então temos os problemas sociais presentes atualmente. O problema no delineamento de um sistema governamental é combinar contingências sob as quais o comportamento de governar tenha efeitos de longo prazo. Até o momento, não temos sido bem-sucedidos nisso.”

[....]

“É importante estabelecer condições que levarão a descobertas e invenções novas. O progresso é uma ideia nova. É uma característica central ao nosso modo de vida que espero seja preservada. No entanto, parece provável que muitas invenções e descobertas nunca teriam sido feitas se não fosse por algum tipo de competição, tendo como exemplos a iniciativa privada e a guerra. Isso não serve de consolo para as vítimas do capitalismo e da guerra, e certamente eu não sou a favor nem da guerra nem de companhias privadas poderosas. Mas é difícil negar que avanços tecnológicos admiráveis foram feitos nos EUA sob o sistema do lucro. Tenho certeza de que não há probabilidade de serem feitos em países como a Rússia e a China. Uma tecnologia comportamental poderosa, entretanto, pode mudar tudo isso. Uma tecnologia pode se tornar tão poderosa que duplicaremos, pelo menos, as vantagens da iniciativa privada, sem ter que recorrer a recompensas desiguais. Eu gostaria de ver as pessoas fortemente motivadas a descobrir e a inventar porque tais ações seriam recompensadoras em si mesmas. Uma tecnologia que possa montar esquemas de reforçamento, que produzam comportamentos de inventar e de descobrir fortes e continuados, podem eventualmente tornar desnecessários os incentivos competitivos ou de lucro.”


E Skinner continua, comentando sobre as diferenças na qualidade de vida entre as diferentes classes sociais de nossa sociedade, sobre o fato de que governantes e empresários não vivem sob as mesmas contingências de reforçamento que a grande maioria das pessoas:


A solução, penso eu, é estabelecer um governo que limite o poder de maneira a minimizar a probabilidade de que seja mal utilizado. O padrão de Walden Two é um modelo plausível. O planejador ou governante tem um mandato limitado, depois do qual ele retorna a uma posição não governamental. O planejador não tem tempo de desviar a renda do trabalho da comunidade para seu próprio uso e tem pela frente o fato de que qualquer legislação que favoreça seus interesses como governante levará, no futuro, a desvantagens para ele. O fato de os planejadores em Walden Two não terem polícia ou força militar para fazer valer suas leis oferece proteção maior contra uma tomada despótica de poder. Seria muito difícil ter algo assim nos EUA; nisto reside, mais uma vez, uma vantagem importante de uma comunidade pequena.”

[....]

"A não utilização de armas como forma de ameaça “é um problema tecnológico ou de engenharia. Obviamente, uma boa solução seria mudar o sistema, de maneira que armas não estivessem disponíveis. Mas há muitos problemas nisso, é claro. Mas, ao agir para fazer uma mudança assim, não deveria ser porque sentimos pena das pessoas que estão sendo ameaçadas, mas sim porque uma nação na qual as pessoas usam armas contra as outras pessoas é uma nação mais fraca e, no longo prazo, tem menor probabilidade de sobreviver.” 


Matos (1999, p.10) continua caracterizando os comportamentos do analista do comportamento:


“Como cientista natural, o analista de comportamento é um baconiano (referência ao filósofo e cientista inglês, Francis Bacon). Trabalha por observação, classificação e indução (gradual!). Evita generalizações apressadas e indevidas, evita o dogma, evita explicações metafísicas. É basicamente um empirista (estuda casos concretos) e um experimentalista (submete suas explicações a testes e demonstrações com manipulação de variáveis), só secundariamente, é um ‘interpretacionista’. Privilegia uma abordagem história dos eventos”. 

“Como funcionalista, o analista de comportamento é um machiano (referência ao físico alemão Ernst Mach). Substitui a noção de ‘causa’ pela de ‘função’, e a explicação pela descrição”.


Cabe aqui uma citação de Carrara (2001, p. 236 e 237) que mais pontualmente esclarece o que se deve entender por descrição. Assim:


“É importante que, ao se falar desse modelo de causalidade (melhor seria de explicação), seja reiterado que a nossa preocupação, a partir de Mach e Skinner, é com a escolha de um modelo de relações funcionais e não de causa e efeito. Isso significa que os analistas skinnerianos devem valer-se da perspectiva fundada na proposta de Mach (1893/1960) de que descrever é explicar. A alguns profissionais isso causa um pouco de apreensão, porque se imagina impraticável que simplesmente descrever eventos implique em explicá-los. Para ser bem entendida a questão, quando Mach a examina está falando não apenas de descrever uma parcela de qualquer evento, de qualquer fenômeno; ele quer que sejam feitas descrições de relações. Então, ao descrever, por exemplo, eventos antecedentes e consequentes, descrevemos relações do organismo com o ambiente, mediadas pelo comportamento. Apenas nessa medida descrever é explicar (negrito adicionado). Portanto, não interessam sobejamente alguns dos porquês, pelo menos no momento. Interessa, sobremaneira, o como se dão as interações de um conjunto de variáveis que o analista manipula”. 


Voltando à frase de Matos, interrompida acima:


“Para um estudioso da natureza, não há nada mais do que o estudo da dependência dos fenômenos, uns em relação aos outros. Os fenômenos sempre ocorrem em variadas relações de interdependência uns em relação aos outros e assim a tarefa do estudioso funcionalista é descrever estas interdependências. [....] O comportamento é dito controlado quando ele está (isto é, quando nós assim somos capazes de descrevê-lo) funcionalmente relacionado a variáveis ambientais (isto é, a eventos físicos e sociais, dentre os quais estão eventos encobertos e outros comportamentos do próprio organismo.) Causa é sinônimo de função, que é sinônimo de controle, que é sinônimo de relações funcionais” [que são sinônimos de contingências de reforçamento].

“Voltamos a repetir: o modelo de causalidade próprio ao analista do comportamento é um modelo de seleção pelas consequências. Para um funcionalista, comportamentos evoluem (isto é, se modificam) porque têm uma função de utilidade na luta pela sobrevivência do indivíduo; evoluem porque de alguma maneira representam um mecanismo de lidar com ambientes complexos. Assim, por exemplo, um comportamento estranho jamais é dito ‘patológico’, pelo analista comportamental; se ele ocorre é porque de alguma maneira ele é funcional, tem um valor de sobrevivência” .


Micheletto (1997, pp. 30-37) ao apresentar as bases filosóficas do behaviorismo radical, escreveu:


“Ao analisar o behaviorismo radical, a partir da obra de Skinner, é preciso distinguir os escritos iniciais [1931 a 1938] dos produzidos no momento em que as características fundamentais do seu pensamento estão prontas. Talvez muitas das críticas ao pensamento de Skinner devam-se ao fato de elas se aterem às propostas bastante iniciais de Skinner, não atentando para as alterações que marcam o desenvolvimento de seu ‘pensamento’”. [....] em 1937, Skinner propõe uma nova espécie de comportamento – o operante – que irá romper com a noção de determinação que implica identificar para qualquer ação um estímulo que a provocou [como ocorre no reflexo incondicional]. O organismo ‘age’ sobre o ambiente sem que se identifique um estímulo eliciador. E esta operação ‘produz’ consequências para o próprio organismo, ou seja, ele ‘produz o reforçamento’, o organismo ‘seleciona’ reflexos que são importantes e ‘descarta’ os não importantes. [....] Pode-se afirmar que a possibilidade de o operante ter sido proposto por Skinner dentro de um modelo científico está relacionada com a noção machiana de explicação como descrição de relações funcionais entre eventos, que substitui a noção de causalidade mecânica. [....] Foi a noção de relação funcional que tornou possível a inversão da relação da resposta com o estímulo reforçador presente no conceito de operante. [...] [Possibilita-se assim] que o comportamento não seja explicado como mero produto passivo do ambiente, mas seja visto como um processo de relações recíprocas, em que o homem é produto do meio que o determina”.


“Segue-se uma ampliação do seu [de Skinner] objeto de estudo:


A operação sobre o mundo, que o operante destaca, e o papel do outro nesta relação, ou como parte desta relação, tomam dimensões cada vez mais significativas em sua obra. O comportamento será analisado não só como produto do ambiente, mas principalmente como produto do ambiente social. A nível humano, esta relação com o outro tem uma especificidade, o comportamento verbal” .

“Na medida em que o comportamento verbal começa a ser estudado, amplia-se a abrangência deste fazer, de forma a incorporar todos os níveis de ação humana: os eventos privados [encobertos], a moral, o pensamento, a consciência, a alienação e a própria ciência, que é compreendida como uma forma de comportamento”.

“O estudo do comportamento verbal permite propor eventos privados como pertencentes ao seu objeto de estudo, o que afasta Skinner de posturas metodológicas que defendem a necessidade de observação direta como condição de tornar um objeto como possível de ser estudado pela ciência, uma vez que ela permitiria um consenso público” [esta é importante evidência de que Skinner não segue a influência de Comte].

“As determinações do comportamento verbal não são todas diretamente observáveis. Múltiplas dimensões estão envolvidas no que é chamado de determinação ambiental. Estas determinações, no correr de sua obra, vão se ampliando. Skinner propõe a determinação conjugada do ambiente em três níveis: o ambiente da espécie, o ambiente que opera na vida individual e o ambiente social. Além de haver uma interação destas várias determinações, elas agem no transcorrer da história de cada um, transformando-se. Portanto, uma observação direta do comportamento não fornece todos os elementos necessários à compreensão, uma vez que ela não evidenciaria, de forma completa, os reais determinantes do comportamento” .


O conceito skinneriano do comportamento verbal e de suas funções, ao lado da exclusão do coeficiente de fidedignidade de observação entre dois ou mais observadores, dão significativo impulso para o behaviorismo radical. Associe-se a esses conceitos a inclusão da explicação do comportamento dentro de um modelo biológico, mais exatamente o da seleção pelas consequências, que amplia a relevância do operante, como destacou Micheletto (1997, p.38): “Não só o reflexo tem papel de sobrevivência para o organismo, mas também o operante” e destacou a seguinte citação de Skinner (1953, p.241):


“Vimos que em certo aspecto o reforço operante se assemelha à seleção natural da teoria da evolução. Assim, como as características genéticas que surgem como mutações são selecionadas ou rejeitadas por suas consequências, também novas formas de comportamento são selecionadas ou rejeitadas pelo reforço”. 


Micheletto (1997, p.39) assim sintetizou os princípios de Skinner para o estudo do comportamento:


“O homem que se comporta é um ser em processo, em constante transformação. Nenhuma concepção de imutabilidade pode orientar sua transformação. Sua ação se origina a partir da relação com o ambiente em que vive e com os outros. É fundamental que, desta relação, sejam gestadas formas variadas de ação. Devem ser destacadas a multiplicidade, a diversidade e a emergência de variações. A variabilidade é condição fundamental para a existência do homem – um ser suscetível a produzir múltiplas e variáveis formas de ação, um ser criativo e suscetível a mudanças”.


De maneira muito informativa e didática, Micheletto (1997, pp. 39-42) faz uma seleção de citações e comentários para estimular um conhecimento mais profundo de Skinner:


“Pela ênfase na ação seletiva das consequências” (...) “a análise experimental do comportamento lida com a criação do comportamento, precisamente como Darwin lidou com a criação das espécies”. (Skinner, 1984;1987, p.123)


“Portanto, diferentemente de algumas características que lhe são atribuídas por alguns críticos, Skinner valoriza, na compreensão de seu objeto, a multiplicidade de características, a variabilidade, a diferença e a transformação”. (Micheletto, 1997, p.39)


“Tanto na seleção natural como no condicionamento operante, o aparecimento de ‘mutações’ é essencial”. (Skinner,1974, p.247).


“Numa visão assim processual, o homem não pode ser entendido fora de sua história. E sua história não pode ser entendida isoladamente. Ela está inserida, é produto, da história de sua espécie e de sua cultura, cultura que, ao mesmo tempo, o próprio homem cria. É a história passada que determina sua vida atual”. (Micheletto, 1997, p.39)


[...] “o comportamento é evanescente. Aquilo que os homens fazem e dizem são coisas momentâneas. Nada resta depois de uma resposta realizada, exceto o organismo respondente. O próprio comportamento transformou-se em história”. (1966;1969, p.86)


“Estas inigualáveis histórias de vida produzem indivíduos muito variados, únicos, mas ao mesmo tempo múltiplos, uma multiplicidade que constitui sua identidade”. (Micheletto, 1997, p.39)


“Você é um membro da espécie humana, absolutamente único geneticamente, a menos que tenha um gêmeo idêntico. Você também tem uma história pessoal que é absolutamente única. Sua identidade depende da coerência desta história. Mais de uma história de vida conduz a múltiplos eus, nenhum dos quais pode ser dito o real eu” (Skinner, 1981; 1987, p.136).


“Apesar de podermos dizer que a seleção por consequências implica uma relação funcional, como Mach propunha, ela não pode ser reduzida à relação funcional. A seleção opera por seus efeitos. O comportamento é selecionado porque ele permitiu a sobrevivência. Mas ... a sobrevivência é apenas uma das formas de consequência seletiva” (Skinner 1988b; 1989, p.114). Skinner estende esta noção à compreensão do operante e da cultura.


“Esta forma de causalidade que explica uma ação que leva à sobrevivência exclui qualquer suposição de que o comportamento possa ocorrer a partir de um projeto futuro, elaborado por uma mente criadora. Só consequências passadas figuram na seleção” (Micheletto, (1977, p.40).


“É um engano (...) dizer que o mundo descrito pela ciência está de um modo ou de outro mais próximo daquilo ‘que realmente existe’, mas é também um engano dizer que a experiência do artista, compositor ou poeta está mais próxima daquilo ‘que realmente existe’. Todo comportamento é determinado, direta ou indiretamente, pelas consequências, e o comportamento de ambos os cientistas e não cientistas são modelados pelo que realmente existe, mas de modos diferentes” (Skinner, 1974, pp.140-141). 


“A ciência é gerada pelo que existe, mas não é reflexo do que existe. O conhecimento não é visto como algo que representa o mundo” (Micheletto, 1977, p.41).


“Não faz parte de uma investigação tentar traçar o mundo real no organismo e observar ele tornar-se uma cópia” (1963; 1969, p. 249).


“Para Skinner a percepção não é controlada apenas pelo momento atual ou o estímulo presente, ela é fruto de uma história de reforçamento” (1985; 1987, p.95), depende da emoção, da motivação, do condicionamento. O homem não é uma tabula rasa e conhecer é muito mais do que responder a estímulos. Nossa percepção do mundo é nosso comportamento com relação a ele, e não pode ser confundida com o mundo propriamente dito” (1953; 1976, p.86).


“Pode-se dizer que o empírico é importante para Skinner, mas isto não o insere nas concepções empiristas do conhecimento. Não só porque ele se diferencia na forma como explica a percepção, mas também porque o conhecimento não pode ser compreendido como representação do mundo, como supõe os empiristas, e sim como uma forma de ação sobre o mundo. Uma forma de ação que, segundo Skinner, é fundamental, pois ela daria condições para o indivíduo agir com maior eficiência sobre o mundo. E à ciência, por suas características, Skinner atribui uma função fundamental nas sociedades atuais” (Micheletto, 1997, p.42).


Pode-se dizer que o ponto de mutação para Skinner chegar ao behaviorismo radical é sua definição de comportamento verbal: consolidou o conceito de contingências de reforçamento e colocou o outro como importante parte do que tem sido chamado de ambiente: as interações sociais têm papéis de antecedente e consequente e a extensão dessa formulação foi uma inclusão dos eventos internos, mentais e metafísicos, como manifestações do organismo da mesma natureza – física, química, biológica – que qualquer ação pública. A análise do comportamento se desvencilhou definitivamente do positivismo social de Comte, do positivismo lógico do Círculo de Viena, do operacionismo, do behaviorismo metodológico, do mecanicismo (Matos, 1977) e postulou a possibilidade do estudo científico dos comportamentos encobertos e a suficiência de ele ser observado tão somente pela pessoa que se comporta. O mundo encoberto deve sua existência e dimensão à comunidade verbal a que a pessoa pertence, ou seja, é produto direto das interações socioverbais, conforme exposto por Skinner (1945). Sério (1997, p.71-72) escreveu:


“Desde seus primeiros textos, Skinner (1931) enfaticamente procura mostrar a diferença entre a Fisiologia/Neurologia e a Ciência do Comportamento e, desde seu texto de 1945, procura convencer os próprios behavioristas de que não há razão alguma que justifique retirar da ciência do comportamento aqueles fenômenos que não podem ser diretamente observados [pelo outro].Do ponto de vista do behaviorismo radical, cada um de nós é um organismo, isto é, um membro da espécie humana com sua história de evolução; mas é um organismo que, interagindo com o ambiente durante sua vida, adquire um repertório de comportamentos [único]: torna-se uma pessoa. Uma pessoa eu, interagindo com o ambiente, estabelece relações especiais: relações com outros seres humanos que lhe possibilitam desenvolver um repertório também especial que podemos chamar de autoconhecimento; uma pessoa que pode conhecer seus comportamentos, públicos ou não, e os estados corporais (sentimentos, emoções) que acompanham tais comportamentos e que, assim, se torna um self. Para as ciências biológicas, esta pessoa pode continuar sendo apenas um organismo, para a Ciência do Comportamento não: seu foco de análise está exatamente nas outras duas dimensões (1974, p.145), e a última delas (a que chamamos de self) nos coloca frente a frente com os fenômenos que não são passíveis de observação direta por um observador independente”. [...] “As regularidades que as [leis comportamentais] e afirmações gerais descrevem [sobre a regularidade do comportamento] se referem aos processos de interação que mantemos com nosso ambiente e a descrição detalhada desses processos e das interações entre eles possibilita explicar, e não acabar com a variabilidade” [individualidade e singularidade das pessoas e dos selves]. [...] Skinenr é claríssimo quanto a isto:


“Uma pessoa não é um agente originador, é um locus, um ponto no qual muitas condições genéticas e ambientais se reúnem em um efeito conjunto. Como tal, ela permanece inquestionavelmente única. Ninguém mais tem sua dotação genética e, sem exceção, ninguém mais tem sua história pessoal. Assim, ninguém mais se comportará [agirá, sentirá...] precisamente da mesma maneira” (Skinner, 1974, p.185).


Sério (1997, p.72) apontou dois aspectos, extraídos na primeira frase da citação, que merecem ser comentados:


“ [...] tudo bem, somos indivíduos, mas somos determinados; nossa própria individualidade é determinada, causada, ou, em outras palavras, sujeita a controle. E uma determinação, uma causa, um controle que não vem de mim mesmo: sou indivíduo, mas não sou livre, não sou sujeito. Para o behaviorismo radical, o indivíduo é sim determinado e, neste sentido, não há livre arbítrio, não há liberdade como sinônimo de indeterminação. É condição básica do ser humano que ele interaja com a natureza, com outros humanos, o que significa dizer que ele aja sobre a natureza, sobre os outros humanos e sofra os efeitos desta sua ação: isto é determinação, é controle. E, como diz Skinner (1974, p.209)”:


“Controle não é uma fase passageira. [....] Nós não podemos escolher uma maneira de vida na qual não haja controle. Não podemos apenas escolher as condições controladoras”.


“Entretanto, é exatamente esta condição que pode transformar o indivíduo em sujeito. Em primeiro lugar, porque ele age sobre, e, ao fazê-lo, produz mudanças. É Skinner quem diz: ‘O comportamento operante é essencialmente o exercício de poder: ele tem um efeito sobre o ambiente’” (Skinner, 1974, p.154).


“Em segundo lugar, porque a esperança do behaviorismo radical é que, através da descrição destes processos de interação, através da produção de conhecimento científico, nós possamos criteriosamente escolher e produzir as condições que nos controlarão: o homem pode se tornar sujeito de seu próprio destino” (1974, p.277). e fará isto agindo sobre o mundo, produzindo o mundo que o produzirá enquanto organismo, enquanto pessoa, enquanto self”. 


Um artigo com título muito sugestivo merece ser apresentado como contribuição ao estudo do behaviorismo radical: “Temos Behavior para tantos ‘ismos’?” (Micheletto e Sério, 2002, p.303-311). As autoras apresentam (p.303 a seguinte conclusão:


“Partindo de sistemas de avaliação como categorias que se apresentam como mutuamente exclusivas, diferentes autores têm atribuído ao behaviorismo radical compromissos que supostamente deveriam se excluir. Por qualquer razão que seja – devido a sua possível complexidade, ou a sua possível diferença em relação às outras teorias, ou a sua possível falta de clareza – tem sido difícil atribuir ao behaviorismo qualquer outro ‘ismo’”. 


As autoras continuam:


“Se o recurso às avaliações feitas por outros autores produz resultados perturbadores, os recursos às proposições e análises que o próprio Skinner faz sobre os compromissos que marcam o sistema por ele elaborado pode ser a\inda mais perturbador. Considerando algumas oportunidades nas quais Skinner analisa epistemologicamente suas propostas, encontrasse quase a mesma variedade de concussões. Nossa análise da concepção de Skinner sobre o conhecimento indica dois trações distintivos que seriam perdidos com a atribuição de qualquer outro ‘ismo’ ao behaviorismo radical: a caracterização do conhecimento como comportamento operante e como comportamento eminentemente social”.


Micheletto e Sério (2002,305) selecionaram nos escritos pioneiros de Skinner (1938) que ele classifica seu sistema como positivista, mecanicista e analítico:


“No que concerne ao método científico, o sistema [...] pode ser caracterizado como se segue. Ele é positivista. Limita-se à descrição e não à explicação.... (p.44)”: [...] “O trabalho é mecanicista no sentido de implicar uma ordem ou legalidade fundamental no comportamento dos organismos e é francamente analítico...” (p.438).


O fato de Skinner modificar seus compromissos metodológicos e epistemológicos no processo de seu desenvolvimento como cientista e filósofo não obscurece a relevância de suas contribuições posteriores: a sistematização do comportamento operante (1937) exigiu reinterpretações explicativas (agora o comportamento como interação funcional) e sua impressionante conceituação da linguagem como comportamento verbal operante, que o levou a propor que os eventos encobertos, até então conceituados como mentais, inacessíveis à observação e não compatíveis como objeto da Ciência Natural, poderiam ser observados por quem se comporta, poderiam ser conceituados como manifestações do organismo e, assim sendo, como comportamentos sujeitos às mesmas leis que regem os comportamentos não verbais. Propor que os comportamentos encobertos não precisavam ser observados por dois ou mais observadores independentes (positivismo comteano) para constituírem objeto da ciência, desde que o foco de análise se dirigisse às práticas da comunidade socioverbal do indivíduo (1945).


Anos mais tarde, em uma entrevista (1979, p.47), Skinner nega ser um positivista comteano ou positivista lógico e discorre sobre algumas das influências que o marcaram:


“... eu não era um positivista lógico. Eu não sei por que tantas pessoas acham que eu era. Também não era um positivista comteano. Comte era uma espécie de estruturalista e, de acordo com essa visão, somente importa o que pode ser observado, o que significa o mundo físico. Isso deixaria de fora a sensação, a percepção, o instinto, a personalidade, o impulso – todas essas coisas internas que estavam (supostamente) levando os organismos a se comportarem. Mas, como deixei claro no meu trabalho de 1945 – e acho que esse foi um dos meus trabalhos mais importantes – nós observamos os eventos privados, e o fato de que não podem ser observados por duas pessoas não os torna menos reais. Mas só podemos saber as coisas devido a contingências de reforçamento, e as únicas contingências que permitem que nos conheçamos são verbais – providas por outras pessoas. Eu reajo a mudanças na minha pressão sanguínea; se não o fizesse, não estaria vivo, mas essa reação não é conhecer minha pressão sanguínea, assim como olhar para um quadro porque ele atrai minha atenção não é conhecer o quadro. Para se conhecer, assim como para conhecer qualquer coisa sobre o mundo físico, são necessárias contingências verbais especiais. É aí que entra uma teoria do conhecimento. O que salientei no meu trabalho de 1945 foi que sempre há imprecisões nas contingências que nos levam a nos conhecermos, de maneira que nunca conhecemos totalmente, e ninguém nunca confia plenamente quando o relatamos. Não é possível manter contingências suficientemente precisas”.


“Ouvi falar de Behaviorismo através de Bertrand Russell, que fez a revisão de Meaning of Meaning, de Ogden e Richard, no Dial. Russell terminou a revisão dizendo que fora muito influenciado por ‘Dr. Watson’, cujo livro Behaviorism ele considerou ‘extremamente impressionante’. Russell era, é claro, uma grande autoridade à época e assim comecei a examinar o Behaviorism. Também li o Philosophy de Russell que, de acordo com seu biógrafo, foi terminado às pressas para o mercado norte-americano. No começo do livro, ele tem cinco ou seis capítulos sobre Watson. Na verdade, era epistemologia, e eu comecei o Behaviorism buscando uma teoria do conhecimento. Eu nada sabia sobre psicologia. Pensava que Behaviorism fosse psicologia. Perdi essa ideia quando cheguei a Harvard, onde encontrei Boring escrevendo uma história sobre o assunto”.


“... Comecei intrigado com o que significa ‘conhecer’. Em 1945, eu abandonara há tempos uma psicologia estímulo-resposta e estava adiantado com meu livro sobre comportamento verbal. Escrevi o trabalho de 1945 logo depois de passar um ano trabalhando no manuscrito sobre comportamento verbal. Na verdade, foi uma seção desse manuscrito que retoquei para servir para esse determinado volume do Psychological Review. Com uma análise funcional de comportamento verbal baseada no estímulo discriminativo em vez de no estímulo eliciador – com, em outras palavras, uma análise de contingências de reforçamento verbais – descobri o que acredito seja conhecer”.


“Nunca” [me detive no idealismo berkeleyano]. “Por volta de 1929-30, estudei o Logics of Modern Physics, de Bridgman, que não é positivismo lógico; nem é realmente operacionalismo. Ele me deixou cético de coisas como ‘essências’”.


“Não me lembro de ter dito” [que a filosofia da ciência é o comportamento verbal dos filósofos]. “Isso me parece um jogo de palavras bem pobre. Conheci algumas pessoas no Círculo de Viena. Conheci Herbert Feigl bastante bem; Carnap apenas levemente. Para mim a filosofia da ciência significa simplesmente as questões filosóficas surgidas da ciência, e elas são essencialmente questões psicológicas. O que o cientista pode fazer? Penso que toda a questão da física atualmente, sobre o que ‘está realmente ali’, deveria ser analisada em termos do que os cientistas são capazes de fazer sobre o mundo, dadas as maneiras atuais como o observam. Dizer que uma coisa é tanto uma onda como uma partícula é uma tolice. Ninguém gosta de dizê-lo, mas no momento temos que fazê-lo. Essa é, para mim, uma questão da filosofia da ciência, e é uma questão sobre o que os físicos estão realmente fazendo”.


[Caso alguém tentasse planejar uma cultura tendo como base o modelo estímulo-resposta] “[...]faria todo tipo de erros, porque o comportamento operante não é desencadeado como o comportamento respondente, no qual se baseia o modelo pavloviano. Deixaria de considerar as consequências do comportamento e as situações às quais as consequências estão ligadas. Isso é algo que Watson nunca entendeu. No seu livro Behaviorism, não há nada sobre as consequências do comportamento. Muitas pessoas ainda acham que todos os behavioristas são psicólogos estímulo-resposta, mas eu desisti disso em 1934”.


Pode-se chamar de “nova geração” um grupo de brilhantes analistas do comportamento que têm escrito sobre a obra de Skinner de maneira crítica e construtiva e de tentativas de se integrar o behaviorismo radical com propostas filosófico-epistemológicas que permitam uma compreensão do que é conhecer (em particular sobre comportamento). 


Voltemos a Matos (1997, p.47):


“A expressão "mundo externo" não se refere ao que reside fora da pele do organismo, e sim (por necessidade conceitual de uma postura analítica), ao que não é a própria ação. Para o behaviorista radical, "ambiente" é o conjunto de condições ou circunstâncias que afetam o comportar-se, não importando se estas condições estão dentro ou fora da pele (Smith, 1983). É importante entender que, para Skinner, o ambiente é externo à ação, não ao organismo.”

Matos (1999, p.11):


“Uma outra maneira de considerarmos relações causais é através da metáfora de sequências encadeadas, onde cada elo é contíguo no tempo e no espaço ao outro elo, e assim sucessivamente até o elo final, o efeito. Esta metáfora supõe uma linearidade e uma unidirecionalidade no processo causal que estão longe de serem verdadeiras. De fato, o encadeamento de elos causais é um disfarce que pretende esconder a existência de uma causa primeira, o elo essencial”. 

“Para o analista de comportamento não há um agente iniciador, nem mesmo o ambiente é iniciador, de vez que o analista comportamental estuda relações (insisto e repito), ‘6 funcionais. O organismo, o indivíduo não é um agente, mas tão somente, como diz Skinner (1989), o palco das interações (evidentemente, Skinner também não aceita que o self seja o agente iniciador, para ele, pessoa ou self devem ser considerados como conceitos relativos ao repertório comportamental de um organismo, e não como agentes iniciadores). A propósito desta questão Skinner (1972) compara a gestação de um poema com a gestação de uma criança. Quem, ou o quê, é a causa? A mãe? O pai? A relação dos dois? A constituição do corpo da mãe? O mecanismo reprodutivo da espécie? O processo evolutivo que permitiu esse mecanismo reprodutivo? Não há um agente iniciador, uma causa única, mas muitas e diferentes variáveis atuando em conjunto. Na verdade, nem sequer podemos falar em várias causas ou múltipla causação, tudo o que encontramos ao investigar um fenômeno são relações entre eventos ou entre variáveis. Por outro lado, estas relações são válidas apenas dentro de determinadas condições, isto é, as leis científicas não são universais; encontrar o contexto dentro do qual elas são válidas é outra tarefa do cientista”.


É preciso ser mais explícito do que foi Matos? Não há como ignorar o contexto. Ele faz parte das contingências de reforçamento! Leia a citação de Skinner (1974, p.73; 1993, p.66):


“O ambiente afeta um organismo depois, bem como antes de ele responder. A estímulo e resposta acrescentamos a consequência e não se trata de um terceiro termo em uma sequência. A ocasião em que o comportamento ocorre, o próprio comportamento, e suas consequências estão inter-relacionados nas contingências de reforço [de reforçamento] que já examinamos”. [Nesta frase Skinner elimina qualquer referência à linearidade da contingência de reforçamento]. “Como resultado de seu lugar nessas contingências, um estímulo presente quando uma resposta é reforçada adquire certo controle sobre tal resposta. Ele não elicia então a resposta, como ocorre em um reflexo; simplesmente aumenta a probabilidade de ela vir a ocorrer novamente e o faz em combinação com outras condições que afetam a probabilidade, tais como as discutidas no capítulo anterior. Uma resposta reforçada em uma determinada ocasião tem maior probabilidade de ocorrer em ocasião que lhe seja muito semelhante; em virtude, porém, de um processo de generalização, pode surgir em ocasiões que compartilhem apenas algumas dessas mesmas propriedades. Se, todavia, a resposta for reforçada apenas quando uma determinada propriedade estiver presente, tal propriedade adquire controle exclusivo por via de um processo chamado de discriminação”.


“O papel do estímulo dá ao comportamento operante caráter especial. O comportamento não é dominado pelo cenário atual, como parece ocorrer na psicologia do estímulo-resposta; não é limitado pelo estímulo. Não obstante, a história ambiental ainda mantém o controle: a dotação genética da espécie, mais as contingências às quais o indivíduo foi exposto” [história de contingências interagindo com as contingências presentes] “determinam aquilo que perceberá”.


Nesta citação, Skinner deixa clara a necessidade de incluir na análise toda a história de reforçamento relevante para a compreensão do comportamento-alvo. É por isso que o behaviorismo radical é histórico. Skinner (1957, p.142; 1978, pp.76-77) assim escreveu sobre respostas a eventos passados:


“Não podemos de uma maneira plausível explicar a resposta ‘Abri a janela ontem’ indicando os estímulos gerados pelo evento real. Eles fazem parte da história passada do falante e não podem ser a ‘referência’ do comentário no sentido de [serem] a variável controladora em uma análise funcional. Não se explica tal comportamento ao dizer que o fato foi descrito ‘de memória’”.


“Responder ao próprio comportamento passado de alguém é apenas um caso especial de resposta a eventos passados em geral. Qual é o tempo limite dos estímulos que controlam o tacto? Mostre um relógio para uma criança e pergunte O que é isto? e a resposta relógio  é facilmente explicada. Mostre a ela um relógio, esconda-o por um segundo e pergunte O que era aquilo? e podemos razoavelmente aplicar a mesma fórmula. Mas ela se torna pouco plausível quando a resposta é atrasada por 10 segundos, 10 minutos, 10 horas ou 10 dias. Na verdade, não vamos obter a resposta relógio de uma criança em tais circunstâncias. A habilidade para responder verbalmente ‘a eventos passados’ é adquirida, e adquirida sob contingências de reforçamento explicitamente programadas pela comunidade verbal para essa finalidade”.


“Relatos de eventos do passado de alguém não são nunca muito precisos ou completos. Depende muito dos estímulos presentes que suscitam tais respostas. Ao evocar uma resposta ‘sobre um acontecimento passado’ usualmente damos alguma informação adicional: O que eu mostrei para você ontem quando você estava sentado ali? Eu o segurei em minha mão assim. Estes estímulos adicionais são para identificar o evento a ser descrito ou para distingui-lo de todos os outros eventos que aconteceram “ontem”, mas isto não descreve sua função presente. Seu efeito é em parte devido ao processo de instrução que será descrito no capítulo 14. Eles evocam respostas que, em conjunto com a estimulação presente da pergunta, pode evocar relógio. Tais eventos constituem uma força controladora pouco confiável. O fato é que isto é um meio muito menos efetivo de evocar a resposta do que o uso do relógio como o estímulo presente”.


“Apesar de ter sido gasto muito tempo no estudo do ato de lembrar nos laboratórios de psicologia, nenhuma análise adequada de como uma criança aprende a se lembrar foi feita. O que aconteceu ontem é importante pelo efeito que tem sobre o comportamento da criança hoje. Se uma criança aprendeu a andar de bicicleta ontem, ela irá andar com mais habilidade hoje. Nesse sentido, toda a história passada da criança é representada na sua conduta atual. Mas quando a criança diz: Havia um elefante no zoológico, ela parece estar reagindo a sua história passada e não simplesmente tirando algum proveito dela. Esta é uma aquisição verbal construída por sua comunidade que continuamente faz perguntas para a criança, tais como: Havia um elefante no zoológico? A resposta deve ser entendida como uma resposta aos estímulos presentes, incluindo eventos dentro do próprio falante, gerados pela questão em combinação com uma história de condicionamento anterior. A negligência deste processo é ainda mais chocante quando reconhecemos que muitos processos educativos o pressupõem”.


“Entre os eventos que uma pessoa é capaz de descrever após um certo tempo, particularmente em resposta a perguntas, está em seu próprio comportamento.? Muito deste comportamento é, por certo, verbal. Ela é capaz de se lembrar com razoável precisão não apenas o que ela fez ontem, mas o que ela falou. Mais ainda, ela é geralmente capaz de descrever um comportamento encoberto anterior: Eu estava a ponto de dizer a ele o que estava pensando sobre ele”.


Não resta dúvida, após ler esse texto, que o behaviorismo radical, nas palavras do seu próprio criador, não se restringe a sequências lineares e elos de respostas, atomizados, mecanicamente emitidos sob circunstâncias pontuais. Não está escrito que se trabalha com contingências de três termos, mas sempre com interações entre contingências de três ou mais termos que se entrelaçam e se influenciam reciprocamente. Não se trata de uma metáfora em linha horizontal e vertical; melhor metáfora é a de uma teia de aranha com fios que se enredam como em uma rede de pescar em que cada segmento representa uma contingência, e tal rede se expande para todos os lados até onde seja necessário para a devida compreensão e adequada intervenção que produza comportamentos saudáveis para o indivíduo e, dentro do possível, também para aqueles que o cercam.


Um dos compromissos fundamentais de Skinner é com o processo de conhecer: 


“ [...] talvez haja um único aspecto sobre o qual não pairam dúvidas” [análise histórica de conceitos de Skinner mostra que houve mudanças; nada mais natural e desejável: mudanças são produtos da seleção por consequências]: “a importância que Skinner atribui ao conhecimento enquanto comportamento humano; é possível encontrar na obra de Skinner indícios que mostram que o conhecimento é considerado um objeto de estudo privilegiado” (Micheletto e Sério, 2002, p.305). 


As autoras prosseguem:


"Com o qualquer outro comportamento operante, o comportamento de conhecer é constituído por uma interação. E também como qualquer outro, qualquer fragmentação entre os ‘elementos’ envolvidos na contingência, na interação, acarretará uma perda na possibilidade de descrição e compreensão do que é conhecer. Segue a citação de Skinner:


"As relações funcionais entre comportamento e ambiente usualmente são complexas e muito frequentemente confusas, mas não temos dúvidas sobre suas dimensões ou as técnicas com as quais podem ser estudadas. Podemos desconsiderar a separação problemática do pensamento humano no padrão familiar de (1) um homem que possui (2) conhecimento de (3) um mundo. Os humanos são parte do mundo e interagem com outras partes dele, incluindo outros homens. À medida que seu comportamento muda podem interagir mais eficientemente ganhando controle e poder. Seu ‘conhecimento’ é seu comportamento com respeito a si mesmos e ao resto do mundo e pode ser estudado como tal’ (Skinner, 1957, p.451).


“Ao considerarmos comportamento como interação, é preciso esclarecer o que está interagindo, quais são as ‘partes’ que compõem a interação. Se considerarmos os escritos de Skinner, não teremos dúvidas sobre isso: e, como para qualquer comportamento operante, as ‘partes’ em interação são homem e mundo: um homem que age e sofre os efeitos de sua ação no mundo (p.307) . Seguem-se algumas citações:


‘Nossa ‘percepção’ do mundo – nosso ‘conhecimento’ – dele é nosso comportamento com respeito ao mundo. Ele não deve ser confundido com o mundo em si mesmo ou com outro comportamento com respeito ao mundo ou com o comportamento de outros em relação ao mundo’ (Skinner, 1953, p.140; 1987, p.86)


‘Os fatos e leis da ciência são descrições do mundo – isto é, de contingências de reforçamento predominantes’. (Skinner, 1974, pp.158-59)


‘O mundo que estabelece contingências de reforçamento estudado pela análise operante é presumivelmente ‘sobre o que o conhecimento é’’. (Skinner, 1969, p.156)


“Tais trechos são suficientes para ilustrar a posição de Skinner sobre o mundo como uma das partes da interação constitutiva do conhecer. Entretanto, este mundo não se impõe ao sujeito na forma estímulo-resposta; e aqui o conceito de operante faz toda a diferença, a afirmação do mundo depende de um homem agindo sobre ele” (p.308) (negrito adicionado.


‘O papel do estímulo dá um caráter especial ao comportamento operante. O comportamento não é dominado pelo setting atual, como parecia ser na psicologia estímulo-resposta; ele não é limitado pelo estímulo (stimulus bound). Entretanto, a história ambiental está ainda no controle; a dotação genética de espécie mais as contingências às quais o indivíduo foi exposto determinam ainda o que ele perceberá...  Uma pessoa não é um espectador indiferente absorvendo o mundo como uma esponja... Nós não estamos meramente ‘atentos’ ao mundo que nos cerca; nós respondemos a ele de maneiras idiossincráticas por causa do que aconteceu quando nós tivemos contato com ele’. [Ou seja, por causa de nossa história de contingências]. (Skinner, 1974, pp.74-75) (negrito adicionado).


“A análise que conduzimos até aqui, a partir de trechos de Skinner, indica que ao trazer o conhecimento para o âmbito das interações operantes, as duas partes [homem – mundo] da interação se fazem presentes, não há diluição [das partes] e, ao mesmo tempo, não se estabelece preponderância de nenhuma delas (nem do sujeito que conhece nem do objeto a ser conhecido). O conhecimento só pode ser conhecido a partir da relação entre ambos”.


“O conhecimento não é representação do mundo, não porque o mundo não seja importante no processo de produção de conhecimento ou não exista [Skinner destaca em vários textos a existência de um mundo], mas, mais uma vez, porque conhecimento envolve interação” (p.309).


O que se acabou de ler desperta muitas reflexões, entre as quais o que é o conhecimento que o psicoterapeuta tem sobre seu cliente? É o resultado da interação dele com o cliente, na qual as ações e falas do cliente são o objeto de observação, e a história de contingências pessoal e profissional do psicoterapeuta compõem os comportamentos dele como observador. Assim, na TCR ele conhece o cliente sob controle da Análise do Comportamento e do Behaviorismo Radical, e de seu repertório comportamental diante da vida (valores, crenças, preferências, déficits e excessos comportamentais etc.). O cliente (isto é, essa parte do mundo) existe, mas para o psicoterapeuta existe como resultado da interação entre ambos (ele próprio e o cliente). Aliás, tudo só é conhecido de acordo com o repertório comportamental e com as contingências de reforçamento presentes que influenciam a pessoa que quer conhecer. Em suma, apenas um psicoterapeuta TCR ou analista do comportamento pode saber (ou conhecer) que um cliente está sendo punido, ou está sendo reforçado, ou está se esquivando, ou está sob controle de regras, ou tem seus comportamentos sendo selecionados por reforçamento positivo ou por reforçamento negativo e assim por diante!


Skinner propõe que o mundo existe, mas ninguém pode conhecê-lo a não ser a partir das interações que estabelece com a parte do mundo com que tem contato. Assim, por exemplo, os físicos conhecem o mundo a partir dos procedimentos científicos experimentais e conceituais que os colocam em interação com a fatia do mundo que é de seu interesse conhecer (isso inclui o que ele é como pessoa que se acopla com o que ele é como cientista. Por exemplo, a radioatividade é produto do papel do físico cientista, o que fazer com ela é produto do físico pessoa). Em suma, o Homo sapiens vê, ouve, sente cheiros, paladares e seu corpo a partir das interações entre as contingências de reforçamento socioverbais e outras que operam durante sua vida e seus órgãos dos sentidos intactos; só dá nomes às percepções que tem a partir de tais interações graças às contingências de reforçamento socioverbais manejadas pela comunidade verbal a que pertence. O psicoterapeuta deve ser entendido como um acréscimo à comunidade verbal do cliente que lhe ensina a “captar” o mundo (ver, ouvir, sentir, interpretar, compreender, explicar, descrever e interagir com o mundo socioverbal e físico, de modo a poder alterá-lo em direções desejadas...) de maneiras que ampliam (deveriam ampliar) o que a comunidade do cliente lhe ensina.


Diante de tais informações, pretende-se retomar algumas reflexões já alinhavadas. Assim, em primeiro lugar, sugere-se que as obras de Skinner sejam estudadas, não simplesmente lidas (muitos o citam, muitos o criticam; poucos o leram, poucos dentre aqueles que o leram o compreenderam). Que suas contribuições sejam assimiladas, criticadas, expandidas antes de se dirigir a tentativas nefastas de um ecletismo, atividade em si perniciosa, mas que além disso afasta o estudioso em busca de conhecimento de esgotar o que o behaviorismo radical oferece.


Linhas atrás, foi citado o título “Temos Behavior para tantos ‘ismos’?” (Micheletto e Sério, 2002, p.303). Quais seriam os “ismos” que poderiam ser lembrados? Sugere-se alguns: mecanicismo, realismo, nominalismo, empirismo, racionalismo, representacionismo, pragmatismo, determinismo, positivismo, operacionismo, contextualismo etc. 


“Por qualquer razão que seja, o que fica claro é que tem sido muito difícil atribuir ao behaviorismo, consensualmente, qualquer outro ‘ismo’. Dificuldade que, surpreendentemente, só aumenta se recorrermos às classificações que o próprio Skinner faz, ao descrever seu sistema” [no processo de desenvolvimento de seu sistema] (Micheletto e Sério, 2002, pp.304-305) .


No presente texto, adotou-se a postura de que são bem-vindos os analistas do comportamento interessados na epistemologia do conhecimento de Skinner, ao relacionar os diversos “ismos” com o behaviorismo skinneriano, quer para sugerir aproximações ou afastamentos, pois assim contribuem para um maior conhecimento crítico da obra de Skinner. 


Micheletto e Sério (2002, p.310) concluem seu artigo destacando o que consideram “posição peculiar de Skinner sobre o conhecimento”, que considero uma admirável síntese do legado skinneriano. Assim:


“Acreditamos que o fato [de Skinner] tratar o conhecimento como comportamento e, principalmente, como comportamento operante, faz toda a diferença. Mas Skinner não para aí, ele destaca toda a dimensão social do operante conhecer: o sujeito que conhece é um sujeito social, a subjetividade presente no conhecimento é determinada socialmente, e o produto da ação deste sujeito encontra seu sentido na influência sobre outros”. 

[....]

“São estes dois aspectos (conhecimento como comportamento operante e comportamento operante eminentemente social) que permitem a Skinner superar as dicotomias ou as oposições que marcam as diferentes abordagens sobre o conhecimento. Do nosso ponto de vista, são estes aspectos que perdemos quando trazemos para o behaviorismo qualquer outro ‘ismo’”.


Segue-se um exemplo de procedimentos parentais que instalam, mantêm e ampliam comportamentos de falar sobre eventos passados.


Carlos resolveu levar Junior, de cinco anos, para ver animais no zoológico. Conversou sobre isso com Laura. Ela, analista do comportamento, lhe disse: “Ela vai adorar, mas vamos dar um passo além. Vamos combinar com ele como será o programa antes de irmos”. 

— Junior, papai vai levar você ao zoológico no domingo. Lá você vai ver macaco, elefante, vai comer pipoca, ver leão, girafa, jacaré, arara, papagaio, tomar sorvete. Vai ser uma festa! Quer ir?

Os pais podem falar com Junior sobre alguma característica dos animais que chame mais a atenção, por exemplo: “A girafa tem um pescoço tão comprido que alcança o telhado do nosso terraço!”

Em outros dias, antes da visita, tanto o pai como a mãe devem “lembrar” Junior do passeio (para decorar uma poesia ou oração, não é necessário repetir várias vezes em dias diferentes?): “Amorzinho, você vai ver o leão. O que mesmo ele tem de especial?” [...] “Isso mesmo, uma barba enorme! ” Se a criança hesita em responder, pode ser ajudada com uma dica...

Desta maneira, na entrada do zoológico, Junior sabe o que vai ver (repete os nomes dos animais e alguma de suas características) e já na entrada demonstra suas habilidades: “Pai, eu quero sorvete de chocolate! ”

Diante de cada jaula, o pai (que sabidamente deixou o celular em casa...) apresenta o animal para Junior: “Estes macacos são muito espertos, não param. Olhe aquele ali, está comendo uma banana. Ele come banana com a casca? Precisamos contar para a mamãe o que ele faz com a casca. (O pai pode ajudar falando algum detalhe para acurar a observação de Junior: “Veja, ele segura a banana com casca, come a banana e afasta a casca com a boca e, no final, joga no chão o que sobrou... Em casa não é assim, você joga a casca no lixinho da pia...”).

O pai continua: “Olhe, aquele outro macaco se dependura no galho da árvore segurando só pelo rabo. O macaco não é como cachorro que só usa o rabo para fazer “festa” quando chegamos. O rabo do macaco é como mais uma mão. Aposto que mamãe vai adorar saber que o macaco usa o rabo como se fosse um braço a mais. O que será que ela está fazendo agora em casa?”


As contingências de reforçamento sociais manejadas pelo pai instalam em Junior comportamentos de ver os animais e, durante o passeio, instalam comportamentos de ver a mãe (Junior imagina, visualiza a mãe em casa) na ausência dela. Esse processo vai se repetir em casa quando ele contar para a mãe o que viu de manhã no zoológico, agora na ausência dos animais.


— Pai, diz Junior, eu estou vendo o sorveteiro. Vamos lá?

— Você está merecendo um sorvete. Ou quer pipoca?

— Sorvete! Pipoca minha mãe faz em casa à noite.


Note que Junior tem uma expectativa em relação ao futuro (à noite em casa). Expectativa é uma forma de previsão que se torna possível por causa da história de contingências passadas da pessoa: Laura costuma fazer pipoca para Junior nos fins de semana à noite. Junior aprendeu a prever o futuro a partir de sua rotina passada. Se Laura não tivesse o hábito de fazer pipoca nas noites de domingo ou a pedido de Junior, ele não teria essa “certeza” de que o melhor seria escolher sorvete no zoológico.


Assim, Carlos circula com Junior pelo zoológico. Aquilo que foi feito diante da gaiola do macaco é repetido na presença das tartarugas (“Andam bem devagarinho”...), das araras (“Gritam muito alto”, têm rabos mais longos que os papagaios, têm cores mais intensas, têm penas azuis, vermelhas, amarelas; as dos papagaios são verdes etc.), do leão (“Ficam a maior parte do tempo dormindo porque estão bem alimentados, só comem carne crua têm uma barba enorme” etc.). Leões são diferentes das onças (são explicitadas as diferenças mais óbvias), o jacaré é o que tem a boca maior no zoológico)...


O sorvete de chocolate já derreteu inteirinho na boca de Junior. Ele pede para lavar a mão que tem marcas de chocolate, quer limpar a camiseta que sujou com pingos do sorvete. Carlos leva-o até uma torneira e comenta: “Alguém não fechou direito a torneira, está com um fio de água correndo...” Junior lava as mãos, e Carlos o desencoraja a limpar a camiseta: “Não há necessidade de lavar aqui. |Em casa nós colocamos no cesto de roupa suja e tudo se resolve”. (Não queremos uma criança com compulsão por limpeza!) O pai comenta: “Percebi que você fechou a torneira sem deixar água correndo. A água daqui não somos nós que pagamos, mas não é por isso que podemos desperdiçar água. Água é um bem comum, faz bem para nós e para outras pessoas; se faltar para eles, vai faltar para nós. Precisamos pensar no nosso bem e no bem dos outros”. 


No caminho, Carlos combina com Junior que vão contar o que viram no zoológico para a mãe. Eles vão conversando e ensaiando o que vão contar:

— O que você mais gostou?

— Do sorvete.

— Sim, que bom, mas quero saber dos animais.

—Do rabo do macaco.

— Se você fosse cumprimentar o macaco, qual das res mãos dele você pegaria?

— Se ele deixar eu quero o rabo...

— As araras são muito lindas com aquelas cores tão vivas...

— São lindas e barulhentas! Elas estão felizes ou tristes quando gritam daquele jeito, pai?

— Não sei, não. Eu acho que estão felizes, mas podemos perguntar isso na próxima vez para o tratador delas...


Note que o pai – através de contingências verbais – descritas sob controle de eventos reais que ocorreram no zoológico ensinou Junior a ver características do macaco, do leão... a ouvir os diferentes sons emitidos pelos animais, em particular os da arara, a ver cores, a comparar características entre diferentes animais, a não se preocupar com os sinais de sorvete na camiseta, mas sim nas mãos, a fechar a torneira... (O passeio não deve ser exaustivo, e deve ser repetido em momentos diferentes... até que Junior conheça todo o zoológico e se familiarize com todos os grupos de animais, aves, peixes etc. do zoológico).


Em nenhum momento o pai perguntou “De qual você gostou mais”. Não se trata de ensinar a categorizar de maneira a gerar hierarquias inexistentes na natureza: cada qual é lindo como é, com suas características morfológicas, hábitos etc. e deve ser admirado pelo que é. Se for perigoso, deve ser respeitado pelo perigo que representa, não por ser maldoso...


Afinal, em casa. Chegou a hora de Laura aprender o que existe no zoológico, através do relato de Junior. Ele emitirá agora tactos verbais puros sobre o que ocorreu no zoológico, na ausência dos múltiplos estímulos disponíveis lá. Ele vai descrever seu “passado” no zoológico. Carlos, ao lado de Junior, o ajuda com deixas verbais (“Fale para a mamãe como as tartarugas andam...”) e com eventuais correções nos tactos verbais, como ajuda, não como repreensão. A conversa com Laura deve ser conduzida de forma breve, interrompida por outras atividades (“Bem, querido, agora, por falar do rabo do macaco, vamos sentar à mesa e comer... depois falamos de mais coisas que você viu...”), retomada em outros momentos do domingo e serem relembradas pelo pai e pela mãe nos dias seguintes.


Junior deve ser incentivado a comentar sua vivência no zoológico com a avó, com a professora na escola etc. Sempre eu na TV aparecer um documentário sobre animais, os pais devem associar para Junior o que está na tela com o que viu (ou ainda verá em uma próxima visita) ao zoológico.


Uma criança que passou por essa vivência está aprendendo a reconhecer a importância de episódios passados, a ser capaz de descrevê-los com a necessária e suficiente precisão, a ver, a ouvir, a saborear, a sentir cheiros (o pai poderia, por exemplo, comentar com Junior: “A pipoca a gente localiza pelo cheiro, nem precisa ver o carrinho; o sorvete a gente precisa ver o carrinho”.), com muito maior riqueza de detalhes do que uma criança que viva em um ambiente verbal restrito. O mesmo passeio, com um pai silencioso, preocupado com outras coisas alheias à presença do filho, conectado no celular, enquanto o filho “se diverte vendo os animais”, seria comparativamente menos enriquecedor. É provável que Junior, adulto, se lembre da ida ao zoológico com Carlos; já na outra alternativa, o filho quase certamente não se lembrará que um dia o pai o levou ao zoológico.


À noite, Carlos conversa com Laura:


— Querida, adorei o passeio com o Junior hoje. Até eu próprio me diverti muito. Nem me lembrava de que ir ao zoológico era tão interessante na minha infância...

— Porque não foi...

— Como assim?

— Carlos, o segredo está no comportamento verbal. A gente não vê com os olhos, mas pelas contingências de reforçamento que nos levam a usar os olhos para ver. Sozinho Junior não iria se dar conta de que o rabo do macaco tem função de segurar. Você, ao falar com ele sobre isso, o fez ver!

— Nunca havia pensado nisso! Pois é, você não fez o mesmo curso que eu. Por exemplo, quando eu preparo uma comida diferente e digo: “Adivinhem, de olhos fechados, que temperos eu usei”, o que acontece? Eu começo a explorar com a língua que sabor eu percebo. Isso, o Junior faz a mesma coisa. A gente não sente os sabores de maneira discriminada se não houver uma contingência de reforçamento verbal que torne importante fazer a distinção entre sabores.

— Carlos, como você faz para decorar “números”, como você diz, quando tem uma reunião?

— Escrevo, faço gráficos, ensaio a apresentação, repito até dominar o que tenho que falar...

— Isso vale para tudo que nos importa. Quero que Junior conheça seu presente, por isso que conversamos sobre tudo que acontece com a gente quando estamos juntos; recorde seu passado, tenho certeza de que com 30 anos ele se lembrará do seu passeio com ele no zoológico, e o que aprendemos no passado nos permite ter expectativas sobre o futuro.

— Achei que isso era da natureza humana... que já nascíamos sabendo isso tudo...

— Nascemos com a possibilidade de aprender tudo isso, temos essa potencialidade enquanto Homo sapiens, mas a potencialidade tem que ser desenvolvida expondo a pessoa a contingências de reforçamento verbais que geram conhecimento e autoconhecimento.

— São coisas diferentes? Sim, mas agora vamos dormir...

— Uma boa notícia para você dormir melhor: se Junior tiver um filho, tenho certeza de que terá expectativa de levar nosso neto ao zoológico. Sabe por quê? Porque no passado (o que ocorreu hoje) ele teve um dia maravilhoso com o pai dele e vai querer proporcionar ao filho a mesma “gostosura” que vivenciou esta manhã com você.

— Amor, quando me aposentar, vou também querer fazer cursos e me tornar um especialista em TCR como você!


CADERNO DE VERSOS – POESIAS E VERSOS BEHAVIORISTAS

AMOR E PAIXÃO Amor é construção,  Diferente de paixão. Amor é doação e acolhimento, Que se estendem pelo espaço e acompanham o fluir do temp...